Excertos da Obra
“Divina Presença!”
(Autoria de Ruach Kadosch)
Ofereço aos
que compreenderam que o “Paõ da Vida”
é o “Cristo-Interno” onde fomos gerados e existimos.
É esta “Divina Presença” em nós que nos mantém a Vida e impulsiona à evolução a fim de que, um dia, possamos contemplar e exaltar
Sua Face de Glória. Amém!
Quando você atenta para o “pulsar” do seu coração,
a atividade intelectual do seu cérebro pára instantaneamente...
E aí, a “voz” que se “ouve” é a “Voz de Deus”
dentro de você!
São muitos os nossos objetivos com este trabalho, só o tempo dirá se conseguiremos alcançar a todos; porém, sem falsa modéstia, nos contentaríamos se alcançássemos apenas o primeiro objetivo de uma longa série: resgatar a honestidade e a imparcialidade das traduções do Evangelho de Jesus. Para alcançar este primeiro objetivo resolvemos adotar uma tradução competente, imparcial, repleta da lisura e da ética que devem ter os verdadeiros discípulos de Jesus, feita diretamente do Grego por um renomado teólogo, filósofo, catedrático, pesquisador e estudioso de línguas antigas, como aquelas em que a Bíblia e os evangelhos foram escritos. No final desta obra faremos referência a este e a outros tradutores que, eventualmente, nos servirmos neste trabalho citando os trechos utilizados de suas traduções.
Confesso, também, que era um antigo ideal colocar os quatro evangelhos que narram a vida de Jesus em ordem cronológica e seqüencial dos acontecimentos, ideal que começamos a tornar realidade com este trabalho, e, por ser bastante extenso, iremos publicando esta obra em pequenos volumes, objetivando, ao final, quando o trabalho estiver completado, reuni-los em apenas um livro.
Pretendemos, com este esforço, transformar as quatro narrativas oficiais dos biógrafos de Jesus em um só Evangelho com uma só história e seqüência, deixando em segundo plano as aparentes divergências dos autores dos evangelhos e ressaltando sempre o “Espírito” que os direcionou a escrever daquela forma, pois, no dizer do Apóstolo Paulo, “a letra mata, e o espírito vivifica”.
Compete a nós, portanto, compreender o “espírito” ou “sentido” oculto além do “véu” da letra para compreender a “verdadeira” mensagem que os evangelistas pretenderam nos transmitir, cada um à sua maneira, com suas narrativas. O leitor atento perceberá que o nosso esforço em colocar os quatro evangelhos em uma só seqüência cronológica e histórica foi fruto de anos de estudos e profundas pesquisas nos mais diversos aspectos lingüísticos, teológicos, culturais e históricos.
Quanto aos demais objetivos que pretendemos atingir com este trabalho são eles muito mais subjetivos do que o primeiro já exposto, pois pretendemos, de uma forma geral, apenas e tão-somente, o que não é pouco, conscientizar o leitor de que “o reino de Deus está dentro de nós” e que o “Rei” que habita neste “reino interno” é a própria “Divindade” na qual tivemos origem; num segundo momento, objetivamos, também, convencê-lo de que “Deus” está sempre “Presente” em todos os nossos pensamentos, emoções, palavras e ações, e em todos os momentos de nossa existência, pois, sendo Onipresente, Deus está em tudo e em todos ao mesmo tempo, NADA existindo FORA d’Ele. E, ainda, num terceiro momento, incentivá-lo a sentir em si a Sua Divina Presença e a agir sempre consciente de que está na “Presença de Deus” em TODOS os acontecimentos de sua existência, esteja ele em estado de vigília, em estado de sono profundo ou em estado de sonho, Deus está SEMPRE presente em seu coração (essência).
É por isto que chamamos a este trabalho “Divina Presença!”. Talvez seja muita pretensão de nossa parte atingir a todos esses objetivos, mas, como já dissemos no início desta Apresentação, se atingirmos, de imediato e em curto prazo, apenas ao primeiro, que é resgatar a ética e a honestidade nas traduções evangélicas, já nos daremos por muito satisfeitos, e todo este nosso esforço em escrever, publicar e divulgar este trabalho não terá sido em vão. Quanto aos outros objetivos sabemos que é Obra do Tempo na “fertilidade” própria do terreno (espírito) de cada leitor.
Pois que venham os “chamados” e que sejam muitos os “escolhidos”!!!
Muito se fala atualmente de “evangelho” e “evangelismo”, mas será que todos conhecem realmente o significado destas palavras? Seitas e religiões ditas “evangélicas” nascem todos os dias no Brasil e no mundo, e, no entanto, perguntamos: Não seremos nós, cristãos, todos evangélicos? Será possível ser cristão sem seguir o Evangelho? Não estão grafados nos evangelhos que narram a vida de Jesus todos os ensinamentos do Cristo que chegaram até nós após vinte séculos de marcha?
Sim, meus amigos, somos todos evangélicos porque todos seguimos o Evangelho de Jesus; e Jesus é um só, nós, homens, é que vivemos a dividi-Lo, todos os dias, em novas seitas e religiões que mais não exprimem senão nossa própria vaidade e amor-próprio.
Isto exposto, vamos aos significados das palavras “evangelho” e “evangelismo”: -Evangelho: (Do grego euaggélion, ‘boa nova’, ‘boa notícia’, pelo latim evangeliu) S. m. 1. Doutrina do Cristo. 2. Cada um dos quatro livros principais do Novo Testamento (Conforme o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa). –Evangelismo: S. m. 1. Sistema (Doutrina) ou política, moral e religiosa, fundada no Evangelho (Conforme o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa). Portanto, como vemos, muitos daqueles que se dizem “evangélicos”, por basearem sua crença mais no Velho do que no Novo Testamento (na verdade, baseiam-se muito pouco nos quatro livros que formam o Evangelho), são, na verdade, “bíblicos” (se outro nome ainda mais apropriado não houver) e, por interpretarem “ao pé da letra” o Texto Antigo, fogem, muitas vezes, do real sentido que o autor ou autores dos livros que constituem a Bíblia pretendeu dar aos seus escritos. Exatamente dos perigos de uma interpretação literal nos advertiu o Apóstolo Paulo, quando disse: “não somos ministros da letra, mas do espírito, pois a letra mata e o espírito vivifica” (2Cor. 3:6), e aos Romanos: “de sorte que vivamos na novidade do espírito, e não na velhice da letra” (Rom. 7:6), e “até o dia de hoje, na leitura do Velho Testamento, permanece o mesmo véu” (2Cor. 3:14).
A palavra Evangelho (Boa Nova) já era usada na antiguidade pelos autores clássicos, a partir de Homero. Jesus também a utilizou textualmente em várias ocasiões (Mateus, 24:14 e 26:13; Marcos, 1:15; 8:35; 10:29; 13:10; 14:9 e 16:15). Além dessas passagens citadas, a palavra Evangelho aparece em O Novo Testamento mais 68 vezes.
O Novo Testamento (N.T.) é formado por 27 livros escritos a respeito de Jesus. São eles:
A-) Livros Históricos:
1- Evangelho de Jesus Cristo Segundo Mateus (Mt).
2- Evangelho de Jesus Cristo Segundo Marcos (Mc).
3- Evangelho de Jesus Cristo Segundo Lucas (Lc).
4- Evangelho de Jesus Cristo Segundo João (Jo).
5- Atos dos Apóstolos (At).
B-) Cartas do Apóstolo Paulo:
6- Aos Romanos (Rm).
7- 1ª Aos Coríntios (1Cor).
8- 2ª Aos Coríntios (2Cor).
9- Aos Gálatas (Gal).
10- Aos Efésios (Ef).
11- Aos Filipenses (Fil).
12- Aos Colossenses (Col).
13- 1ª Aos Tessalonicenses (1Tes).
14- 2ª Aos Tessalonicenses (2Tes).
15- 1ª A Timóteo (1Tim).
16- 2ª A Timóteo (2Tim).
17- A Tito (Ti).
18- A Filêmon (Fm).
19- Aos Hebreus (Heb).
C-) Epístolas Católicas (ou Universais):
20- De Tiago (Tg).
21- 1ª de Pedro (1Pe).
22- 2ª de Pedro (2Pe).
23- 1ª de João (1Jo)
24- 2ª de João (2Jo).
25- 3ª de João (3Jo).
26- De Judas (Jd).
D-) Livro Profético:
27- Apocalipse (Ap).
Os primeiros exemplares do Novo Testamento (N.T.) eram copiados (manuscritos) em papiros (espécie de papel que se usava antigamente), cuja matéria prima era muito frágil e deteriorável. Com o passar dos tempos esses manuscritos passaram a ser grafados em peles de carneiro (pergaminhos), material mais resistente e duradouro.
Os manuscritos eram grafados em letras maiúsculas (“capitais” ou “unciais”), mas a partir do século VIII passaram a ser escritos em minúsculas (“cursivo”). As cópias dos manuscritos eram transcritas em folhas coladas umas às outras, formando enormes tiras, perfazendo “rolos” ou “volumes”. Quando as páginas, ao invés de coladas em forma de “rolos”, permaneciam separadas e eram coladas uma ao lado da outra (como os nossos livros atuais) levavam o nome de “códices”.
Existem atualmente pouco mais de cem códices gregos unciais, e são bastante antigos. Os principais são:
• Alef ou Sinaítico, no Museu Britânico (séc. IV);
• Alexandrino, no Museu Britânico (séc. V);
• Vaticano, no Museu Vaticano (séc. IV);
• Éfrem, na Biblioteca Nacional de Paris (séc. V);
• Beza, na Universidade de Cambridge (séc. VI);
• Claromontano, na Biblioteca Nacional de Paris (séc. VI).
Quanto aos códices gregos cursivos existem ainda 1.825 cópias. Com referência aos códices latinos, com o texto da “vetus latina”, isto é, da tradução primitiva anterior a Jerônimo, são em número de sete:
• Vercellensis, na catedral de Vercelli (séc. IV);
• Veronensis, na Biblioteca de Verona (séc. V);
• Colbertinus, na Biblioteca Nacional de Paris (séc. V);
• Beza, Na Universidade de Cambridge (séc. V);
• Palatinus, na Biblioteca Nacional de Viena (séc. V);
• Brescianus, na Biblioteca de Brescia (séc. VI);
• Claromontanus, na Biblioteca Vaticana, nº 7.223 (séc. IV/V).
Quanto aos códices da Vulgata, existem atualmente mais de 2.500, sendo que os mais antigos remontam aos séculos VI e VII.
Os encarregados de copiar os manuscritos eram denominados copistas ou escribas. Porém, nem sempre tinham um bom conhecimento da língua, limitando-se a serem, muitas vezes, apenas bons desenhistas das letras. Quando possuíam algum conhecimento mais profundo do idioma, se arriscavam a “emendar” o texto para deixá-lo de acordo com seus conhecimentos, e então, desvirtuavam o sentido original das palavras. Como o pergaminho era muito caro, copiavam as palavras seguidamente para poupar espaço e não empregavam quaisquer sinais gráficos para separação de orações e acentuação; daí ser comum o uso de abreviaturas que reuniam várias letras numa espécie de sigla, tal e qual a taquigrafia, onde “pq” significa “porque”, “oc” significa “aquele que”; ou então, com a moderna linguagem que se usa nas salas de bate-papo da internet, abreviando-se ao máximo as palavras a fim de não se perder tempo para escrevê-las, com a diferença de que, naquela época, abreviava-se para se economizar matéria prima. Porém, a as abreviações que usavam geravam dúvidas sobre o correto significado da palavra e do sentido que o autor pretendeu dar a ela. Por exemplo, se houvesse um pequenino sinal no meio do O, tornando-o um theta, passaria a significar Deus, tal como em 1ª Tim. 3:16.
Além das abreviaturas, muito comuns entre os copistas, outros recursos haviam capazes de subtrair dos textos a fidelidade original, tais como:
a-) Colação: Quando faziam a comparação entre dois ou mais códices, escolhendo-se a melhor lição para cada passo.
b-) Lição: Era o nome que se dava à maneira específica de dizer uma frase, da forma exata pela qual foi escrita.
c-) Passo: É a citação de um trecho de determinado autor comparando-o com outro. Ex.: “este passo de Lucas diverge do passo de Mateus”.
d-) Interpolação: Eram as anotações que algum leitor fazia, na entrelinha ou na margem, de algum comentário seu, e o copista, considerando-o um “esquecimento” do copista anterior, introduzia tal comentário como parte integrante do texto.
e-) Harmonização: Era a tentativa que faziam os copistas na intenção de “harmonizar” o texto de um autor com o texto de outro autor, usando para isto o método pouco ético de acrescentar ou subtrair palavras do texto que estava sendo copiado.
f-) Hápax Legómena: São duas palavras gregas que indicam um neologismo criado pelo autor e, portanto, desconhecido antes dele, e que aparece apenas uma vez na obra, como por exemplo a palavra “epiousion” em Mt. 6:11, que, por este motivo, não foi traduzida na Vulgata.
g-) Variante: quando existe uma diferença entre dois ou mais códices, apontam que há aí uma “variante”.
h-) Siglas: São as famosas abreviações usadas para economizar espaço e tempo.
i-) Custos Linearum: É uma expressão latina que significa “guarda das linhas” e era empregada para designar uma letra que se escrevia no final de cada linha para preencher um espaço vazio. Por vezes essa letra (o custos linearum) era interpretada como uma abreviatura e era acrescentada ao texto como se dele fizesse parte; doutras vezes tratava-se realmente de uma abreviatura e, por ser interpretada como custos linearum era subtraída do texto original.
j-) Salto: Quando o copista pula uma letra, uma sílaba, uma palavra ou até uma linha, por confusão ou distração.
Com referência à qualidade e fidelidade dos textos, dizia Orígenes, já no séc. II: “Presentemente é manifesto que grandes foram os desvios sofridos pelas cópias, quer pelo descuido de certos escribas, quer pela audácia perversa de diversos corretores, quer pelas adições ou supressões arbitrárias” (conf. Patrologia Grega, Migne, Vol. 13, Col. 1293). Quanto mais o tempo passava mais aumentava o número de cópias e de variantes, crescendo sempre mais o desejo de possuir-se um texto fixo e autorizado. No século IV Constantino ordenou que o Bispo de Roma devia ser o primaz da Cristandade. O Imperador Teodósio deu grande apoio aos cristãos de Roma declarando o Cristianismo “religião do Estado” e determinando, desse modo, a autoridade do Bispo de Roma. Na época, o Bispo de Roma era um português de nascimento (Papa Damaso); naquela época todos os Bispos eram denominados “papas”. Damaso, desejoso de atender ao clamor dos cristãos, que ansiavam por um texto confiável das escrituras, encarregou Jerônimo de estabelecer o sonhado “texto definitivo”. A tarefa era grandiosa e de imensa responsabilidade, mas Jerônimo tinha capacidade para desempenhá-la pois conhecia bem o hebraico, o grego e o latim. Sua tarefa era de re-traduzir para o latim todas as escrituras, pois as antigas versões (vetus latina) eram numerosas e variadíssimas. A tradução latina de Jerônimo ficou conhecida com o nome de Vulgata, ou seja, tradução para o vulgo.
A língua original do Novo Testamento, ao contrário do que muitos pensam, não é o grego clássico, mas o grego comum, falado pelo povo, dito koiné. O grego do Novo Testamento apresenta uma característica tipicamente hebraísta, afinal, todos os seus autores, com exceção de Lucas, que era grego, eram judeus. Os quatro autores dos quatro evangelhos tidos como “oficiais”, são:
• Mateus (Mt.): Em hebraico seu nome era Levi. Em grego Matháios, que significa “dom de Deus”. Supõe-se que Mateus haja escrito seu texto original entre os anos 54 e 62. Dirige-se claramente aos judeus, pois as citações do Velho Testamento são numerosas e nota-se o esforço para provar que Jesus era o Messias prometido aos judeus pelos antigos profetas.
• Marcos (Mc.): Cujo nome verdadeiro era João Marcos, era filho de Maria Marcos, irmã de Barnabé, discípulo de Paulo. Marcos escreveu entre 62 e 66 e parece se dirigir aos romanos, tanto é que não vemos em seus escritos citações de profecias: apenas uma vez cita o Antigo Testamento (AT). Mais ainda devemos observar nos escritos de Marcos: quando narra alguma coisa que é típica dos costumes judaicos, apressa-se a esclarecer os fatos, explicando com pormenores o de que se trata, como que acreditando que, se não o fizesse, seus leitores não no perceberiam.
• Lucas (Lc.): Trata-se de uma abreviatura grega do nome latino Lucianus. Lucas, portanto, não tinha sangue judeu: era grego puro, de nascimento e de raça. Escreveu entre 66 e 70, em linguagem correta, fazendo-se intérprete do pensamento de Paulo a quem havia acompanhado nas viagens apostólicas. Era médico de profissão, e em 2Cor. 12:7 o Apóstolo dos gentios (Paulo) o classifica como “médico querido”.
• João (Jo.): Também chamado “o discípulo amado”, e mais tarde “o presbítero”, isto é, o “velho” ou “ancião”.É tido como o mais profundo e místico dos evangelistas e é autor também do Apocalipse (que significa “Revelação”) que alguns dizem ter sido ditado pelo próprio Jesus. João escreveu entre os anos 70 e 100, tendo desencarnado (morrido) em 104.
Continuemos, então, com mais alguns comentários preliminares necessários a uma melhor compreensão do Evangelho em seu aspecto histórico e cultural.
Os três primeiros evangelhos, ou seja, os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, seguem de tal forma o mesmo plano e desenvolvimento, que podem ser “abarcados num só olhar” (ópticos) de “conjunto” (sin).
Por isto são chamados de evangelhos sinóticos. Observa-se que Mateus foi o primeiro a publicar o seu, tendo Marcos resumido a seguir. Muitos outros seguiram o exemplo desses dois, acreditando-se que tenha surgido mais de uma centena de resenhas (evangelhos) dos atos do Mestre. Foi quando Lucas resolveu também fazer a sua, conforme declara: “Tendo muitos empreendido fazer uma narração coordenada dos fatos que entre nós se passaram, como no-las transmitiram os que foram deles testemunhas oculares desde o princípio e ministros da palavra, também a mim –depois de haver investigado tudo cuidadosamente desde o princípio- pareceu-me bem, ó excelentíssimo Teófilo, dar-te por escrito uma narração em ordem, para que conheças a verdade das coisas em que foste instruído” (conf. Lc. 1:1-4), organizando uma narração cuidadosa e isenta de falhas.
Alguns segmentos do Cristianismo, notadamente os variantes da raiz Protestante, mais conhecidos como evangélicos ou pentecostais, acreditam ser a Bíblia a Palavra de Deus. Primeiramente, vamos consultar o dicionário para verificarmos o real significado desta palavra: -Bíblia: S. f.; 1. O conjunto dos livros sagrados do Antigo e do Novo Testamento; 2. Escritura, Sagrada Escritura, Escrituras. 3. Livro em que se reúne este conjunto (conforme o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa).
Bem, vimos que Bíblia é o nome dado ao conjunto dos textos (ou livros) que formam o Antigo e o Novo Testamento. Pois bem, vamos em frente... Temos, no Evangelho de Jesus-Cristo Segundo João (1:1, 14, 17 e 18) a autorizada revelação do Apóstolo de como se dá a manifestação de Deus na Natureza (que, de forma alguma poderia ser através de um conjunto de livros... e os analfabetos?... e as traduções adulteradas?... e as palavras que não encontram uma fiel definição em outro idioma e até mudam de sentido com o passar dos anos, e dos milênios?...). Diz o “discípulo amado” em seu texto:
“No princípio era o Verbo e o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus. (...) E o Verbo se fez carne e construiu seu tabernáculo dentro de nós, cheio de graça e Verdade, e nós contemplamos Sua Glória, Glória igual à do Filho Unigênito do Pai. (...) porque a lei foi dada por Moisés, mas a Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo. Ninguém jamais viu Deus: o Filho Unigênito que está no seio do Pai é que O revelou”.
Temos, portanto, que o Verbo, ou Palavra de Deus é a Sua expressão ou manifestação criativa, pois Deus criou o Universo e tudo o que nele existe através de Sua Vontade manifesta por Sua Palavra ou Verbo, como está muito bem configurado em Gn. 1:3, “e disse Deus: Faça-se a Luz. E a Luz se fez”. A Centelha Divina (“Luz”) que há em todos nós é justamente a presença deste “Verbo Divino” que nos faz existir, pois nós também somos Seus frutos e existimos pela ação do Verbo que é a manifestação da Vontade de Deus.
Em Jo. 1: 3, 4 e 14, temos: “Todas as coisas foram feitas por ele (pelo Verbo), e sem ele nada foi feito. O que foi feito nele (no Verbo, na Palavra) era a Vida (Luz) e a Vida era a Luz (Vida) dos homens. E o Verbo se fez carne e habita dentro de nós (...)”.
Assim sendo, a Palavra ou Verbo de Deus não pode ser um conjunto de livros que têm sido manipulados, de geração a geração, pelo poder humano... Devemos levar em conta também que, mesmo atualmente, somente uma mínima parcela da população mundial é alfabetizada; e antigamente?... Os que viveram antigamente e os que vivem hoje sem acesso à Bíblia estão condenados pela Palavra (Verbo) de Deus?... Necessitará Deus, irrevogavelmente, de intermediários humanos (padres, pastores, etc) para chegar às Suas próprias criaturas?... Temos, pois, que a Palavra ou Verbo de Deus não pode ser um conjunto de livros, mas é o Agente Criador de Todas as Coisas, a Sua Vontade, expressa por Seu Verbo, em A qual originou-se a Luz/Vida n’A qual existe toda a criatura e o universo manifestado!
Além disso, para concluir esta questão de ser a Bíblia (a lei de Moisés e os profetas) a Palavra de Deus, o discípulo amado conclui no versículo 17 do primeiro capítulo de seu Evangelho de Jesus Cristo: “porque a lei foi dada por Moisés, mas a Graça e a Verdade vieram por Jesus-Cristo”. Temos para nós que a Bíblia, ou melhor, o Antigo Testamento, é composta por livros que narram a história de um povo, do povo hebreu, e que alguns dos patriarcas desse povo eram componentes da Raça Adâmica, provindos de mundos superiores, e que foram exilados na Terra para impulsionar a evolução do planeta. Para não nos alongarmos muito neste tema, vamos citar algumas passagens do Antigo Testamento que colocam definitivamente em cheque a teoria de ser a Bíblia a Palavra de Deus, além, é claro, da expressão claríssima contida no Evangelho Segundo João que não deixa dúvidas ao afirmar que a lei foi dada por Moisés.
Consultemos o primeiro livro da Bíblia, intitulado Gênesis, em seu capítulo 6, versículos 1, 2 e 4: “E aconteceu que, como os homens começaram a se multiplicar sobre a face da Terra, e lhes nasceram filhas; viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres das mais bonitas que eles mesmos escolheram. (...) Havia naqueles dias gigantes na Terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens, e delas geraram filhos: estes eram os valentes que houve na Antigüidade, os varões de fama”.
Quem seriam esses “filhos de Deus”? Seriam anjos como querem alguns? Seriam seres espirituais? Mas poderiam os seres espirituais sentir atração sexual pelas “filhas dos homens” e nelas gerarem filhos gigantes, os varões de fama? Seria, então, Jesus também um desses varões de fama? Um desses gigantes espirituais? Poderia ele ser filho do anjo Gabriel que cobriu Maria com o Espírito Santo? Não teremos aí uma história repleta de simbolismos só compreensíveis aos antigos iniciados do povo hebreu, cuja chave para a exata interpretação teria sido perdida nos processos de transmissão de boca a ouvido, no transcorrer dos milênios?...! Somente poderemos aceitar a Bíblia como sendo a Palavra de Deus no sentido de que foi inspirada pelo Cristo-Interno aos Profetas do Altíssimo que, em se tornando canais da manifestação da Sua Vontade, transmitiram-na sob forma alegórica e simbólica, de forma semelhante às parábolas que Jesus contava!...
A palavra grega “Eloah” é o singular de “Elohim”. Eloah significa literalmente Deus, porém só é encontrada duas vezes no Pentateuco (cinco livros) de Moisés. Já a palavra Elohim, que significa deuses, ou mesmo deus (com “d” minúsculo) é encontrada 2.000 vezes em toda a Bíblia. Os tradutores da Bíblia muitas vezes se confundiram na interpretação correta destes termos; em Gn 32:1-1 temos um exemplo bastante claro desta confusão, vejamos: “Jacó (que mais tarde passou a chamar-se Israel) também prosseguiu o caminho que encetara, e saíram-lhe ao encontro uns anjos (mensageiros) de Deus. Ele, tendo-os visto, disse: ‘Estes são os acampamentos de Deus’; e deu àquele lugar o nome de Manaim, isto é, acampamentos”.
O mesmo Jacó, certa vez, confundiu um daqueles anjos (mensageiros de deus), ou filhos de Deus, conforme outros tradutores, com o próprio Deus (?). Porém, o mais provável, como o texto original traz a palavra grega Elohim, é que a confusão tenha sido provocada pelos tradutores da Bíblia que não puderam compreender o sentido daquilo que estavam traduzindo. Vejamos em Gn. 32:22-32 que Jacó, ao anoitecer, lutou com um varão até o dia clarear. Quando amanhecia, vendo que não conseguiria vencer Jacó, usou de um golpe desleal e “tocou a juntura de sua coxa e se deslocou a juntura de sua coxa”, deixando-a adormecida; provavelmente o varão de que trata o texto bíblico deslocou o nervo de sua coxa deixando-o com a perna imobilizada. E disse a Jacó: “Deixa-me ir, porque o dia já raiou”. E Jacó, reconhecendo sua diferença à luz do dia, ainda agarrado a ele, disse: “Não o deixarei ir, se não me abençoares”. E o varão perguntou-lhe: “Como se chama?”. E ele disse: “Jacó”. Respondeu-lhe o estranho: “Não se chamará mais Jacó, mas Israel; pois, se foste grande guerreiro contra Deus, imagine contra os homens”. E Jacó chamou àquele lugar Peniel, que significa a face de Deus. Interessante notar que Jacó, com o nome de Israel, tornou-se mais tarde o grande patriarca do povo hebreu, do qual também descende Jesus. E o nome Israel tem duas curiosidades a saber:
- O sufixo EL é comum nos nomes dos anjos (mensageiros de Deus) da Bíblia, como Gabriel, Rafael, Ismael, etc. O Livro de Enoch dá os nomes de alguns dos filhos de Deus que entraram às filhas dos homens: Tamiel, Ramuel, Danel, Azkeel, Asael, Ertael, Turel, etc.
- Israel, em hebraico, significa “aquele que luta com Deus”. Provavelmente a grafia correta é “deus” por se tratar da tradução da palavra Elohim... Ou será que Deus (Eloah) anda por aí lutando aos tapas, chutes e pontapés com Suas próprias criaturas, ocultando-lhes Sua face na escuridão da noite e perguntando-lhes “qual o seu nome”? Será que Deus não sabe o nome de Suas criaturas?
Um grande sábio e estudioso cristão, perguntado “por que razão a palavra das profecias parece invariavelmente dirigida ao povo de Israel”, respondeu: “Em todos os textos das profecias, Israel deve ser considerada como o símbolo de toda a humanidade terrestre, sob a égide sacrossanta do Cristo.” E, perguntamos nós, por que Jesus, tão sábio, tão virtuoso, um pacificador por excelência que deixou uma doutrina extremamente bela, que ensinou-nos a amarmo-nos uns aos outros como nos amamos a nós próprios e a fazer aos outros apenas o que gostaríamos que os outros nos fizessem, escolheu um povo guerreiro que tinha como “deus” o “Senhor dos Exércitos” que não hesitava em matar (contrariando o seu próprio 5º mandamento) quando seus interesses eram contrariados? Por que o Meigo Rabi preferiu encarnar na descendência de um povo que tinha como lema o “dente por dente, olho por olho”, se sua mensagem era o “perdoar setenta vezes sete vezes”? Em resposta a esta pergunta, ouçamos o próprio Mestre afirmar que “são os enfermos que necessitam de médico, e não os sãos”; também o sábio cristão acima referido responde a estas perguntas, afirmando que “esse povo notável (os Hebreus) no seu passado longínquo teve sempre muita certeza na existência de Deus, embora muito grande também era o seu orgulho, dentro de suas concepções da verdade e da vida”.
Mas o leitor deve estar se perguntando se Jacó era tão estúpido a ponto de confundir Deus com um homem. Não, Jacó não era estúpido; na verdade ele confundiu “deus” com um homem. E ele não foi o único a confundir os “Elohim” com Deus: Já seu avô, Abrahão, havia feito a mesma confusão. Em Gn. 18:1-16, que na tradução de João Ferreira de Almeida tem o subtítulo “Deus e dois anjos aparecem a Abrahão”, lemos: “Depois apareceu-lhe o Senhor nos carvalhais de Manre, estando ele assentado à porta da tenda, na hora mais quente do dia. E levantou os seus olhos, e olhou, e eis três varões estavam em pé junto a ele. E vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro, e prostrou-se com o rosto ao chão, e disse: Meu Senhor, se agora tenho achado graça nos seus olhos, rogo-te que não passes adiante de teu servo. Traga-se agora uma pouca de água e lavai os vossos pés, e recostai-vos debaixo desta árvore; e trarei um bocado de pão, para que esforceis o vosso coração; depois passareis adiante, porquanto por isso chegastes até vosso servo. E disseram (Deus e os anjos): “Assim faze como tens dito”. E Abrahão apressou-se em ir ter com Sara à tenda, e disse-lhe : Amassa depressa três medidas de flor de farinha, e faze bolos. E correu Abrahão às vacas, e tomou uma vitela tenra e boa, e deu-a ao moço, que se apressou em prepará-la. E tomou manteiga, e leite, e a vitela que tinha preparado, e pôs tudo diante deles, e ele estava em pé junto a eles debaixo da árvore; e comeram”.
Será que Deus anda mesmo por aí dando murros e ferindo os nervos das coxas de Suas criaturas para vencê-las numa briga de rua, e comendo carne para se sentir mais forte, juntamente com seus anjos, nas casas de Seus servos? Daqueles três varões que chegaram à tenda de Abrahão somente dois desceram à Sodoma e foram à casa de Lot, e toda a cidade cercou a casa a fim de molestá-los sexualmente. Um deles, provavelmente o chefe (“deus”), ficou com Abrahão e disse-lhe que, embora sendo de idade avançada e Sara estéril, lhe daria um filho. E porque Sara riu-se ao ouvir isto, o filho que lhe nasceu chamou-se Isaac, que significa “riso”.
Além destas passagens que citamos, inúmeras outras existem em que o próprio Deus, ou deus, aparece a Moisés e lhe ordena o extermínio de milhares de criaturas tidas como inimigas (de Deus?) ou infiéis, ou seja, que adoravam a outros Deuses (existem outros Deuses?), contrariando o versículo 18 do Capítulo 1 do Evangelho Segundo João, que diz: “Ninguém jamais viu Deus; o Filho Unigênito, que está no seio do Pai, é que O revelou”; e, também, o 5º mandamento que diz: “Não matar”.
Assim como é perfeitamente compreensível que ninguém jamais viu Deus (o próprio Jesus o confirma), também é perfeitamente compreensível que a Bíblia não é (e nem poderia ser) a Palavra de Deus; nós sim, suas criaturas (seres vivos) é que somos produtos do Verbo (Palavra) que é a Manifestação Criadora da Vontade do Pai. Mas, se fosse a Bíblia a Palavra de Deus, seria o caso de se perguntar quantas palavras teria Deus; pois em Mateus 8:28-35 e Marcos 5:1-20, na narração do episódio “O endemoninhado de Gerasa”, o primeiro evangelista afirma terem sido dois e o segundo um. Em Lucas 18:35-43 e Mateus 20:29-34, na narração do episódio “A cura de Bartimeu”, o primeiro evangelista afirma que Jesus curou apenas um cego e o segundo evangelista afirma que Jesus curou dois cegos. Também no Antigo Testamento inúmeras são as contradições (de Deus?) que poderíamos citar; fiquemos com apenas uma como exemplo: O profeta Samuel, em seu Primeiro Livro, afirma que o Rei Saul foi assassinado por um soldado do exército inimigo, enquanto que outro profeta afirma que o mesmo Rei Saul se suicidou... Saul foi um personagem muito importante na história do povo hebreu, esta contradição é muito estranha até mesmo sob o ponto de vista histórico, quanto mais se considerarmos a Bíblia como sendo a Palavra de Deus...
Não vamos transcrever todos os textos que trazem incoerências (mesmo porque são muitos) para não nos alongarmos demais, mas existem inúmeras outras contradições (de Deus?) com referência a nomes de lugares, de quantidade de pessoas e de tempo (contagem de dias, meses e anos) entre autores do Novo e também do Antigo Testamento, o que nos leva a crer que são livros escritos por homens (e mulheres), uns mais e outros menos inspirados, cujas memórias às vezes falham principalmente na descrição das formas dos acontecimentos, mas que, em relação ao fundo (à moral da história) sempre nos é possível extrair boas lições dos fatos narrados.
Além disto tudo, os nossos irmãos bíblicos (evangélicos?) que afirmam fanaticamente ser a Bíblia a Palavra de Deus, não se dão conta de que, com esta atitude pouco racional, incorrem na mesma questão de adoração de que tanto acusam os irmãos católico-romanos, pois enquanto estes adoram objetos e imagens materiais os outros adoram folhas de papel e garatujas de tinta que passaram por incontáveis traduções (umas mais, outras menos fiéis), cujos textos originais já não mais existem, e que serviram, no transcorrer dos séculos e dos milênios, aos interesses muitas vezes inconfessáveis de pessoas que se acreditavam missionárias e que mais não pretendiam do que seduzir e converter corações incautos aos seus modos orgulhosos de pensamento e de crença. Pensem bem: se hoje em dia, com globalização e dezenas de traduções desses textos antigos (umas diferentes das outras), existem grupos e seitas que manipulam as palavras da Bíblia segundo os seus próprios interesses, imaginem no passado, quando estas adulterações não eram tão difíceis e arriscadas quanto hoje.
Para finalizarmos, consultemos novamente o Evangelho de Jesus Cristo Segundo João, Capítulo 1, versículo 17, onde o evangelista deixa bem clara esta questão de ser ou não a Bíblia a Palavra de Deus, dizendo: “Porque a Lei foi dada por Moisés, mas a Graça e a Verdade vieram por Jesus-Cristo”. Portanto, a Lei (Antigo Testamento) não foi dada por Deus, como querem alguns, mas por Moisés.
Citemos também, como ilustração, uma passagem bastante polêmica narrada pelos evangelistas Mateus e Marcos e ignorada pelos outros dois evangelistas Lucas e João. Em Mateus 27:46 e Marcos 15:34, lemos: “Eli, Eli, lama sabactâni?” -que, traduzido, significa: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”... Teria mesmo Jesus dito esta frase? Não estaria em desacordo com o espírito messiânico e missionário do Mestre? Afinal, as antigas profecias não se referiam ao modo como ele haveria de ser sacrificado?... E o próprio Jesus não teria dito aos seus discípulos, alguns dias antes dessa ocorrência, que importava que o Filho do Homem fosse preso, açoitado, cuspido e levantado do chão (crucificado)?
Analisemos mais pormenorizadamente esta questão. Sabemos que os três primeiros evangelhos, ou seja, os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, seguem de tal forma o mesmo plano e desenvolvimento que podem ser abarcados num só olhar (ópticos) de conjunto (sin), por isto são chamados de “evangelhos sinóticos”. Observa-se que Mateus foi o primeiro a publicar o seu, tendo Marcos resumido a seguir. Portanto, podemos concluir que Mateus incluiu este passo em suas narrações e Marcos o copiou literalmente a seguir. Curioso é que Lucas, cujo evangelho também pertence aos sinóticos mas que se serviu de outras fontes de informação para escrevê-lo, ignorou completamente este passo; e não é para se pensar que Lucas não o conhecesse, pois, enquanto Mateus escreveu o seu texto original entre os anos 54 e 62, e Marcos escreveu o seu entre os anos 62 e 66 resumindo o de Mateus (numa versão dirigida aos romanos), Lucas só veio a escrever a sua versão do Evangelho de Jesus entre os anos 66 e 70. Lembremo-nos, ademais, que segundo a história oficial Jesus foi morto no ano 33 de nossa era.
Mas, voltando à interpretação do passo narrado por Mateus e Marcos, acima descrito, perguntamos: “Teria mesmo Jesus se visto, na hora da morte, abandonado pelo Pai, segundo afirmam estes evangelistas?”. Não soam estranhas, contraditórias e incompreensíveis estas palavras na boca do homem-messias que entregou toda a sua vida à redenção da humanidade e que em algumas ocasiões afirmou: “Eu e meu Pai somos Um” e “O Pai está em mim e eu estou no Pai”? Como pôde, então ser abandonado pelo Pai (se ambos eram Um e tão unidos eram os dois) numa hora tão angustiosa, decisiva e determinante como aquela? Teólogos existem que duvidam que esta frase tenha saído da boca de Jesus, outros tentam remediar dizendo que talvez um dos dois ladrões (possivelmente Dimas, chamado “o bom ladrão”), que ladeavam Jesus no Calvário, tenha dito esta frase. O único dos evangelistas que estava presente neste momento da vida de Jesus foi João, que narra o seguinte: “Quando tomou Jesus o vinagre, disse: ‘Tudo está cumprido’ e inclinando a cabeça entregou o espírito” –Jo. 19:30. Lucas, que não havia conhecido Jesus fisicamente, mas que havia se informado de Sua mãe (que estava presente naquele faustoso momento) para escrever seu Evangelho, diz: “e dando um forte grito, disse: ‘Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’ e, dito isto, expirou” –Lc. 23:46.
Outra passagem também muito discutida entre os teólogos exegetas, na qual os evangelistas também não se entendem e é de se duvidar que Jesus, o Meigo Rabi, tenha agido daquela forma, é a passagem da expulsão dos vendilhões do templo... mas tem também a passagem da ressurreição que cada um narra de um jeito e diferentemente do outro. Seriam estas passagens incoerências da Palavra de Deus, ou significam apenas que foram escritas por homens que utilizaram-se de métodos diferentes na forma para passarem uma mensagem semelhante no conteúdo?
O Apóstolo Pedro, ao se referir aos autores dos livros que compõem o Antigo Testamento, diz: “Homens que falaram da parte de Deus, e que foram movidos por algum espírito santo” (2 Pe. 1:21), e “O Espírito de Cristo, que estava neles, testificou” (1 Pe. 1:11). Também Estevão afirma, em At. 7:53, “Vós que recebestes a lei por ministério de anjos”, ou seja de bons espíritos, deixando claro o aspecto mediúnico “externo” (2 Pe 1:21 e At. 7:53) e “interno”, ou seja, o do “contato íntimo” com o Cristo na “essência” do Ser, em 1 Pe. 1:11.
Vejamos agora alguns itens que facilitarão uma melhor compreensão e interpretação dos textos evangélicos:
a-) “Anjo” – Palavra que aparece constantemente no Antigo e no Novo Testamento; no Antigo Testamento ela é utilizada para se referir aos “Filhos de YHVH” e, no Novo Testamento, se refere a seres provavelmente extracorpóreos que “aparecem” quase que do nada a Zacarias, pai de João Batista, a Maria, ou mesmo em sonhos como no caso de José, pai de Jesus. O Atos dos Apóstolos e o Apocalipse também trazem freqüentes citações sobre anjos.
Esta palavra, em grego, significa literalmente, “noticiador, arauto, mensageiro, anunciador”; como em Lc. 1:11, que diz: “E apareceu a Zacarias um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do incenso”. Este termo era empregado para designar qualquer mensageiro, fosse ele encarnado ou desencarnado, incumbido de transmitir um recado; Em O Novo Testamento, geralmente, esta palavra designa um mensageiro desencarnado portador de uma mensagem a um encarnado, mas existem passagens também em que esta palavra é utilizada para designar um mensageiro portador de uma mensagem de encarnado para encarnado. Esse espírito (“anjo” ou “mensageiro” encarnado ou desencarnado) é um ser humano pois sua descrição é sempre a de um homem que se apresenta sentado, de pé, vestido de branco, etc., com forma e volume, e que fala. No caso acima citado (Lc. 1:11), a prova de que o “mensageiro” ou “anjo” é um espírito humano é o seu próprio nome: Gabriel, que significa “Homem de Deus”. Assim como o “médium” ou “profeta” poderia ser definido como “homem dos espíritos”, por ser um “intermediário” entre os desencarnados e os encarnados, o “anjo” pode ser definido como um “intermediário” entre os planos mais elevados e o gênero humano reencarnado em um corpo físico.
b-) “Batismo” – Lemos em Lc. 3:3 “E ele (João) percorreu toda a circunvizinhança do Jordão pregando o mergulho da reforma mental para a rejeição dos erros”. A palavra que geralmente se traduz por “batismo” significa literalmente “mergulho”, e o verbo “batizar” tem o sentido exato de “mergulhar”, e era isto realmente o que João fazia: mergulhava as pessoas (corpo inteiro) dentro do rio Jordão com o objetivo simbólico de “lavá-las” de suas impurezas (não da conseqüência de suas faltas) e despertá-las para um novo modo de ser (reforma mental, ou íntima). Entre os judeus haviam três tipos de abluções (banhos purificadores, mergulhos, ou batismos):
• As prescritas por Moisés em Lev. 14:1-32 (nos casos de lepra), em Lev. 15:1-33 (após as relações sexuais) e em Lev. 11:24-27 (após tocar um cadáver);
• Os batismos (mergulhos) essênios para iniciação de novos membros da seita, que se tornavam “iniciados” ou “purificados”; muitos historiadores são de opinião de que João Batista tenha vivido vários anos entre os essênios pelas características que apresenta, tais como a vestimenta, os alimentos que usava e o hábito de mergulhar (iniciar) os candidatos a uma reforma mental, tal como o faziam os seguidores daquela seita;
• O “batismo” dos prosélitos judeus, que vinham do paganismo, e que parece ter sido um rito bem firmado entre estes desde há cerca de um século antes de nossa era, por influência da escola de Hillel, tornando-se um rito de iniciação por excelência.
Até mesmo Jesus sujeitou-se ao rito de mergulho (iniciação) de João Batista, que era tido por Jesus como o último dos profetas do Antigo Testamento (“porque todos os profetas e a lei profetizaram até João” –Jesus, Mt. 11:13) e que representou, portanto, com o “batismo” de Jesus, uma ponte entre o Antigo e o Novo Testamento e o “início” da missão messiânica de Jesus na Terra.
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio em Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada foi feito. O que foi feito n’Ele era a Vida, e a Vida era a Luz dos homens; e a Luz resplandece nas trevas e as trevas não prevaleceram contra Ela.
Houve um homem, chamado João, enviado por Deus. Veio ele como testemunha, para dar testemunho da Luz, a fim de que por meio dele todos os homens crêssem. Ele não era a Luz, mas veio para dar testemunho da Luz.
Havia a Luz verdadeira que ilumina a todo homem que vem ao mundo. Ele estava no mundo, e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não O conheceu. Veio entre os Seus, e os Seus não O receberam. Mas deu o poder de tornar-se filhos de Deus a todos os que O receberam, aos que acreditaram em Seu nome, que não nasceram nem do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.
E o Verbo se fez carne e construiu Seu tabernáculo dentro de nós, cheio de Graça e Verdade, e nós contemplamos Sua Glória, Glória igual à do Filho Unigênito do Pai.
João dá testemunho e exclama:
- “Eis Aquele de quem eu dizia: O que vem depois de mim é Maior do que eu, porque existia antes de mim”.
De Sua Plenitude todos nós recebemos, e Graça por Graça, porque a lei foi dada por Moisés, mas a Graça e a Verdade vieram por Cristo-Jesus. Ninguém jamais viu Deus: o Filho Unigênito que está no Seio do Pai é que O revelou.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo João, 1:1-18).
Comentário:
Nesta tradução do Evangelho estamos nos servindo do excelente trabalho do insigne Professor Carlos Juliano Torres Pastorino, autor de várias obras, entre as quais o best seller “Minutos de Sabedoria”; ex-padre católico romano, foi diplomado em Filosofia e Teologia pelo Colégio Internacional S. A. M. Zacaria, em Roma. Após desligar-se da Igreja Católica, foi professor catedrático de Latim no Colégio Militar do Rio de Janeiro e Docente no Colégio Pedro II, também no Rio de Janeiro. Traduziu todo o Novo Testamento diretamente do Grego e o publicou na obra “Sabedoria do Evangelho”. Desencarnou em Brasília em 1.980.
Pretendemos, nos capítulos seguintes deste despretensioso trabalho, continuar com a tradução do Professor Pastorino, publicando e comentando todo o Novo Testamento em ordem cronológica e seqüencial dos acontecimentos, comparando os passos narrados por mais de um evangelista e extraindo deles, além das informações históricas e temporais, o néctar dos ensinamentos espirituais transmitidos por Jesus a Seus discípulos e seguidores, muitas vezes envolvido nos véus das alegorias das parábolas. Outros tradutores, de cujo trabalho porventura venhamos a nos utilizar, serão citados no último volume desta obra. Por tudo isto, convidamos os pesquisadores das traduções e os estudiosos do Evangelho, bem como aqueles que simplesmente gostam de ler e conhecer a Doutrina ensinada por Jesus, a acompanharem o desenvolvimento deste trabalho. Passemos ao estudo do texto evangélico:
João, o evangelista, revela que o Verbo (em grego Logos) é a Manifestação Criadora de Deus. O Verbo (ou Palavra) produz uma Vibração que identificamos de forma audível como som (7 notas musicais) e de forma visível como cor (7 cores do arco-íris). Esta Vibração produz também outros efeitos, sempre em número de 7 (daí a numerologia cabalística creditar ao nº 7 a Perfeição Divina), que a Ciência e os Mistérios de todos os tempos têm estudado com denodo sem, contudo, penetrar-lhe os intrincáveis segredos.
De fato, em Gênesis 1:3 está escrito:
- “Faça-se a Luz. E a Luz se fez”.
No versículo 4 deste 1º capítulo do Evangelho de Jesus-Cristo Segundo João, temos:
- “E o que foi feito n’Ele (no Verbo) era a Vida, e a Vida era a Luz dos homens”.
Portanto, quando em Gênesis Deus diz (Verbo):
- “Faça-se a Luz” -neste momento, Ele criou a Vida de tudo quanto há no Universo, Vida esta que gera, sustenta, ilumina e incita a criatura à evolução. Por ser uma Manifestação ou Expressão natural da Divindade, assim como o raciocínio é uma manifestação ou expressão natural do homem, é que no 1º versículo deste nosso estudo, João afirma:
- “No princípio (antes de existir qualquer coisa) era o Verbo (Manifestação Criadora) e o Verbo estava em Deus (como um atributo) e o Verbo era Deus (como o homem é o que ele pensa)”.
Tudo, então, foi gerado pelo Verbo de Deus que a tudo permeia e faz existir, por isto afirmou Jesus:
- “O reino de Deus está dentro de vós”; “Vós sois deuses”.
Porque Deus, através do Verbo ou Palavra (ou Vibração Original) está em tudo e a tudo mantém vivo. Mas, se a Luz é a Vida (vide versículo 4), então atentemos para o versículo 5, que diz:
- “E a Luz resplandece nas trevas e as trevas não prevaleceram contra Ela”.
Ora, se a Luz é a Vida, então a “treva” é a morte, sendo esta (a morte) apenas uma transição para outra etapa de existência, pois a Vida a tudo e a todos permeia e sempre prevalece. O versículo 6 diz:
- “Houve um homem, chamado João, enviado por Deus” -repare que João (como espírito) já existia antes de nascer na terra, pois o texto é claro ao afirmar que ele foi enviado e não criado naquele momento. O versículo 7 diz que ele (João) veio dar testemunho da Luz (criada pelo Verbo:
- “Faça-se a Luz” -que a tudo gerou e a tudo permeia, habitando, inclusive, dentro de nós mesmos (Divina Presença), mas que em Jesus esta Luz se manifestava em toda a Sua pujança e clareza pela sua altíssima condição evolutiva: quanto menos evoluídos os seres, menos consciência têm desta Luz que neles habita, e quanto mais evoluídos mais consciência têm desta Luz (Deus-em-Si), que é a Vida e que é Amor em sua essência mais íntima, porque vem diretamente de Deus. Daí o evangelista afirmar:
- “Deus é Amor” (I Jo. 4:8).
Na seqüência vemos que João, que não era a Luz (pois uma coisa é a criatura e outra o Criador ou o Verbo/Luz), embora tivesse em si esta Luz (“que ilumina a todos os homens que vêm ao mundo”), veio para dar testemunho da Luz que em Jesus brilhava com todo o Seu fulgor original, pois não encontrava obstáculos (imperfeições) em sua personalidade. O próprio fato de o evangelista afirmar que João não era a Luz já significa que ele não se encontrava no mesmo patamar evolutivo de Jesus, pois ainda se conduzia pelo seu eu inferior ou ego.
Vemos que o mundo (planeta) foi feito por Jesus (Espírito em comunhão com a Luz) e que, embora fosse seu, o mundo não O reconheceu. Significa também que a Luz veio no mundo (Universo), criando-o com tudo o que nele existe, e que os Seus, enquanto se encontrarem no estado de trevas ou ignorância, não A receberam (ou encontraram dentro de si), mas a todos aqueles que A receberem (ou encontrarem dentro de si) deu o poder de se tornarem Filhos de Deus, ou em comunhão com Ele.
Jesus (Espírito em comunhão com a Luz ou Deus-Interno) presidiu à formação do planeta terra sendo co-criador deste mundo, pois manifesta em si toda a pujança original da Luz criada pelo Verbo; daí haver afirmado alhures:
- “Eu e o Pai (Verbo-Luz) somos Um”.
No versículo 14 temos a confirmação de tudo isto:
- “E o Verbo (Manifestação de Deus) se fez carne (incrustou-se no mundo material, criando-o através de Sua Luz) e construiu Seu tabernáculo (morada, residência) dentro de nós (Divina Presença), cheio de Graça e Verdade (com todos os Seus atributos), e nós contemplamos (observamos, admirados, em nós) a Sua Glória (Seus feitos extraordinários). Glória igual (que tem a mesma natureza) à do Filho Unigênito do Pai (ou seja, a Luz que em tudo há é o produto primeiro, o Filho Unigênito, do Pai-Verbo, que, por sua vez, é uma Manifestação ou um Atributo do Ser Supremo-Deus)”.
Continuando, do versículo 15 ao 18, diz o evangelista:
- “João dá testemunho e exclama: ‘Eis Aquele (Jesus-Luz) de quem eu disse: O quem vem depois de mim (Jesus é seis meses mais novo do que João em termos de nascimento físico) é maior (evolutivamente) do que eu, porque existia (como Espírito) antes de mim (significa também que o que vem depois do Ego é a Luz, da qual ele, João, a personalidade, se originou). De Sua plenitude (ou seja, daquilo que n’Ele é pleno, a Divina Presença) todos nós recebemos (todos nós possuímos) e Graça por Graça (na mesma medida, embora, devido às nossas imperfeições, em menor intensidade), porque a lei (os cinco livros escritos por Moisés que, somados aos livros dos Profetas, formam o Antigo Testamento) foi dada por Moisés, mas a Graça e a Verdade (a Plenitude da Luz) vieram por Cristo (Luz) Jesus. Ninguém jamais viu Deus (o Ser-Supremo): o Filho Unigênito (a Luz manifestada pelo Verbo-Pai, a Divina Presença em nós) que está (provém) no Seio do Pai (Verbo) é que O revelou (a nós, por habitar em nossa essência)”.
Capítulo 2
O Prólogo de Lucas
Tendo muitos empreendido fazer uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, como no-las transmitiram os que foram deles testemunhas oculares desde o princípio e ministros da palavra, também a mim -depois de haver investigado tudo cuidadosamente desde o começo- pareceu-me bem, excelentíssimo Teófilo, dar-te por escrito uma narração em ordem, para que conheças a verdade das coisas em que foste instruído.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Lucas, 1:1-4).
Comentário:
Afirmamos no capítulo anterior o nosso propósito de publicar e comentar o Evangelho de Jesus em ordem cronológica e seqüencial dos fatos narrados pelos evangelistas, nos servindo da tradução que o Professor Carlos Juliano Torres Pastorino fez diretamente do grego e publicou em sua magnífica obra “Sabedoria do Evangelho”.
Observemos que o evangelista Lucas, que era grego de nascimento e médico de profissão, discípulo do Apóstolo Paulo, também intentou fazer um levantamento de tudo o que se dizia sobre os feitos do Mestre e colocá-los de forma ordenada em seus escritos. Lucas escreveu o Evangelho entre os anos 66 e 70, mais de 30 anos após a morte de Jesus, que ele, Lucas, não conheceu pessoalmente. Porém, apesar de seus ingentes esforços, muitas passagens existem contadas pelos outros evangelistas que ele não narrou em seus escritos, provavelmente por não ter vivido aqueles acontecimentos, já que ele próprio não conhecera Jesus, e sua fonte de pesquisa foram os que com Ele conviveram e, segundo afirmam os teólogos, a própria Maria, mãe de Jesus, a pedido de Paulo.
Mas, dos quatro evangelistas que nos narram os Evangelhos de Jesus, contidos no Novo Testamento, Lucas não é o único que não conviveu com Jesus. Também Marcos, sobrinho de Barnabé, discípulo de Paulo, não conheceu Jesus pessoalmente e nem viveu os fatos por ele narrados no Evangelho. Apenas Mateus e João, dos quatro evangelistas, foram apóstolos de Jesus e falaram e deram testemunho do que viveram, viram e ouviram.
Por isto, consideramos da maior importância colocar os quatro evangelhos em ordem cronológica e seqüencial, pois, entre muitas outras vantagens, podemos ter uma visão global da história de Jesus e estudar o mesmo episódio da vida do Mestre comparando as narrações de um evangelista com o outro e observando o que eles, individualmente, consideraram mais e menos importante destacar no acontecimento.
Embora os evangelhos não contenham a data dos acontecimentos dos episódios narrados, ainda assim, é bastante proveitoso estudarmos os passos narrados na seqüência possível para que melhor possamos compreender o sentido dos ensinamentos de Jesus (não nos apegando à letra, mas ao espírito), enquanto estamos seguindo nossa jornada (“enquanto estou nesta tenda de viagem” -2 Pe. 1:13), pois assim, melhor poderemos nos conduzir enquanto estamos habitando nesta tenda (corpo físico).
Vemos que Lucas oferece sua obra (O Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Lucas) a Teófilo (“também a mim -depois de haver investigado tudo cuidadosamente desde o começo- pareceu-me bem, excelentíssimo Teófilo, dar-te por escrito uma narração em ordem, para que conheças a verdade das coisas em que foste instruído” -Lc 1:3-4), nome grego que significa “amigo de Deus”.
Alguns teólogos supõem que Teófilo seja um personagem que realmente existiu e a obra “Recognitiones” (Patrologia Grega, vol. 1, col. 1453), afirma que ele foi convertido por Pedro em Antioquia qualificando-o como “o mais elevado entre todos os poderosos da cidade”. Outros, no entanto, duvidam que este Teófilo citado por Lucas seja o mesmo que foi convertido por Pedro e consideram que, ao referir-se a Teófilo (amigo de Deus), Lucas dirigia-se a todos os cristãos que realmente fossem “amigos de Deus no mais sublime e excelente sentido” (excelentíssimo Teófilo). Neste caso, a frase do Evangelho ficaria assim: “ó amigo excelente de Deus” (Teófilo).
Na obra “Atos dos Apóstolos”, também de autoria deste evangelista e que serviria de continuação ao Evangelho que ele escreveu, encontramos o mesmo tipo de prólogo: “em minha primeira narrativa, ó Teófilo, contei”...
Podemos, pois, concluir que se os cristãos a quem o evangelista se dirigia eram “excelentes” no mais elevado grau (excelentíssimos), Lucas intencionava dedicar-lhes uma obra com profundas revelações, alegóricas e simbólicas, que trouxessem uma contribuição mais palpável, e que fosse ao mesmo tempo mais didática, à sua espiritualização, e que não tivesse apenas o mérito de ser um relato “histórico e cronológico”.
Pode-se alegar que, conforme já afirmamos anteriormente, os evangelhos não contenham a informação das datas dos acontecimentos narrados; porém, é importante observar que tais escritos não foram feitos para a informação de uma época ou de uma determinada região, mas foram feitos objetivando também, e principalmente, a informação dos séculos e dos milênios futuros, no tocante à profunda mensagem dos ensinamentos de Jesus e, portanto, muitas das coisas cuja revelação era prematura para a época, foram ocultas sob os véus das parábolas e das alegorias para que o homem despreparado não se escandalizasse e o homem do futuro não se entediasse com narrativas antigas e infantis (para a sua época). Daí todas as passagens do Evangelho e da Bíblia em geral serem atualíssimas para todas as épocas da humanidade.
Zacarias e Isabel
Nos dias de Herodes, rei da Judéia, houve um sacerdote, chamado Zacarias, da turma de Abia; sua mulher era descendente de Arão, e chamava-se Isabel; ambos eram justos perante Deus, andando irrepreensíveis em todos os mandamentos e preceitos do Senhor. E não tinham filhos, porquanto Isabel era estéril, e ambos (estavam) em idade avançada.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Lucas, 1:5-7).
Comentário:
Vemos nesta passagem do Evangelho Segundo Lucas a preocupação do evangelista em situar corretamente no tempo a época exata dos acontecimentos descritos. Informa que esses fatos se deram quando Herodes era rei da Judéia; acrescentamos que Herodes foi nomeado pelo Senado romano em 40 AC, tomou Jerusalém em 37 AC e morreu no ano 4 AC (antes da era cristã). Estas informações foram importantes para estabelecer corretamente no tempo a época exata do nascimento de Jesus; tendo o rei Herodes morrido no ano 4 AC fica evidente que houve um erro na formulação do calendário cristão, pois este rei é o mesmo que recebeu os reis magos em Jerusalém e que, depois, mandou matar todas as crianças de dois anos para baixo obrigando José, juntamente com Maria e o menino Jesus, a fugirem para o Egito. Portanto, de posse dessas informações, podemos concluir que o ano exato do nascimento de Jesus foi por volta do ano 6 antes da contagem oficial: ano 6 AC (provavelmente no mês de março deste ano).
Lucas, no seu afã de fornecer o maior número de detalhes possíveis, comenta que aquele que haveria de ser pai de João, o batista (ou mergulhador), era um sacerdote da turma de Abia, chamado Zacarias; informa também que sua mulher chamava-se Isabel e era descendente de Arão, irmão de Moisés. Ambos, marido e mulher, tinham, naquela época, idade bastante avançada, o que diminuía consideravelmente (era quase impossível) a possibilidade de gerarem um filho, e, como se esse fator não bastasse, informa ainda o evangelista que Isabel era estéril (infecunda; que não pode produzir filhos). Mas, ambos eram muito religiosos, andando irrepreensíveis em todos os mandamentos e preceitos do Senhor.
Aprofundando nossos estudos nos meandros mais internos da interpretação do texto evangélico, tentando levantar ainda mais um véu que freqüentemente esconde um raio mais intenso de luz e uma qualidade mais pura da Verdade que os passos evangélicos revelam a todo instante aos que têm “olhos de ver” e “ouvidos de ouvir”, desde as passagens mais simples às parábolas de interpretação mais complexa, consideremos que Herodes não era judeu de nascimento: era idumeu, apenas convertido à religião judaica, não fazendo parte, portanto, da consangüinidade do povo Hebreu. Judeus são os naturais da Judéia que, literalmente, significa “louvor a YHWH (Jeová)”. Portanto, “judeus”, no texto evangélico, numa interpretação além da letra, representa a fase evolutiva em que o homem (a personalidade do espírito imortal) está ainda sintonizado (e necessitando) com os ritos, liturgias e cultos exteriores da religião; “Galiléia”, freqüentemente citada em oposição à “Judéia” nos textos evangélicos, significa literalmente “região cercada”, o ambiente Divino, região inacessível ao vulgo, onde habita Deus (em nosso interior): “O reino de Deus está dentro de vós” -Jesus. Portanto, “Judéia” significa “a personalidade que louva” através de cultos e rituais exteriores, e “Galiléia” significa “o ambiente Divino ou reino de Deus (aquele que recebe o louvor) dentro de nós”.
Ora, se Herodes é o “rei da Judéia”, o estrangeiro (personalidade) convertido aos cultos e ritos que caracteriza a vida de aparência exterior (“túmulos caiados por fora, mas que por dentro estão cheios de podridão” -Jesus), significa que ele representa o homem (personalidade) ainda animalizado, que direciona sua vida à busca de conforto material, sujeito às sensações e emoções que lhe escravizam a alma, preocupando-se somente com a matéria terrena transitória, para ele a única realidade, porque é palpável aos sentidos físicos, e que louva a Deus externamente crendo-O fora e distante de si, alheio ainda à realidade de que Deus está dentro de si e que absolutamente nada pode existir fora e distante de Deus: a personalidade que assim se comporta é “rei da Judéia”, isto é, totalmente sujeita à vida de aparência exterior!
Em contrapartida à “Judéia” (reino da personalidade), temos “Galiléia” (região cercada; horto florido; jardim; reino de Deus dentro de nós); assim sendo, Herodes só poderia ser rei (dominador, déspota) da Judéia, isto é, da personalidade inferior, já que só as coisas terrenas e materiais representavam o seu poder e domínio absoluto. A expressão “nos dias de Herodes” informa-nos que os acontecimentos que seriam narrados a seguir se deram num período em que a humanidade (conjunto de personalidades) era preponderantemente materialista, tendo seus interesses ligados exclusivamente às exigências do corpo físico e às sensações de ordem emocional. Foi neste tempo que viveu na terra um homem dedicado às coisas sagradas (sacerdote=homem devotado a Deus) chamado Zacarias.
O nome “Zacarias” significa literalmente “lembrança” ou “recordação de Deus”, representando a personalidade cujo intelecto já se encontra voltado “para Deus” (dentro de si mesmo), em oposição à maioria das personalidades da época, cujo intelecto ainda se encontrava jungido ao instinto, porquanto só buscava o gozo material, e, quando se dirigia a Deus, procurava-O nas coisas e lugares exteriores a si mesmo.
Segundo nos informa Lucas, Zacarias era da turma de Abia; ora, Abia (ou Abijah, conforme 2 Crôn. 24:10) significa literalmente “Deus é meu Pai”. Assim sendo, o sacerdote Zacarias pertencia às personalidades que já reconheciam Deus como Pai, estando, portanto, já desligada dos interesses materiais e ligada às questões espirituais e Divinas, ou seja, às coisas sagradas. Isabel, em hebraico Elisheba, significa “adoradora de Deus” ou obra de YHWH, representando, portanto, a intuição, que está “ligada” ao seu Deus Interno (Divina Presença), conhecido também por Eu Superior e Divino de cada criatura.
É interessante observar que o evangelista informa que Isabel era descendente de Arão. É também por este motivo que acreditamos que várias passagens e citações evangélicas têm profundo significado simbólico, que apenas constam do texto para revelar alguma verdade escrita além da letra, para os que têm “olhos de ver”, que uma interpretação apenas literal não pode alcançar, pois, se nos dias atuais, é muito raro alguém afirmar (e sobretudo comprovar) que tem parentesco com determinado personagem que viveu antes de sua terceira geração, em sentido ascendente, quanto mais naquele tempo em que os registros e certidões cartorárias não eram tão comuns quanto hoje. Se hoje em dia não conseguimos identificar nossos antepassados além de nossos avós e bisavós, quanto mais naquela época poderia alguém dizer-se parente de um personagem que viveu há 1.500 anos atrás... Sim, 1.500 anos atrás! É este o tempo que separa Arão de Isabel. É evidente que Lucas (um cientista formado em Medicina, de comprovada inteligência e raciocínio lógico) colocou esta informação em sentido alegórico.
Mas, qual teria sido então a intenção do evangelista ao afirmar que Isabel era descendente de Arão? Raciocinemos, Isabel significa adoradora de Deus ou obra de YHWH, representando a “intuição”, que está “ligada” ao seu Deus Interno (Divina Presença), o Eu Superior e Divino de cada criatura; e Arão significa “o iluminado”. Então, o texto afirma que a intuição é parenta da iluminação: Zacarias (a personalidade intelectual que já se reconhece “filha de Deus”) unira-se em casamento com Isabel (a intuição) na busca intensa do Supremo Matrimônio, da Perfeita União (“Eu e meu Pai somos Um” -Jesus) entre a criatura e o Criador, a Divina Presença que habita dentro de cada um de nós, tornando-se, assim, um “filho da iluminação” ou “iluminado”.
Capítulo 4
Estando Zacarias a exercer diante de Deus as funções sacerdotais na ordem de sua turma, coube-lhe por sorte, segundo o costume, entrar no santuário do Senhor e queimar o incenso. E toda a multidão estava orando da parte de fora, à hora do incenso. E apareceu a Zacarias um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do incenso. Zacarias, vendo-o, ficou perturbado e o temor o assaltou. Mas o anjo disse-lhe:
- “Não temas, Zacarias, porque tua oração foi ouvida, e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, a quem chamarás João, e terás gozo e alegria, e muitos se regozijarão por causa do seu nascimento, por que ele será grande diante do Senhor e não beberá vinho nem bebida forte; já desde o ventre de sua mãe será cheio de um espírito santo, e converterá muitos dos filhos de Israel ao senhor Deus deles. Ele irá diante do Senhor com o espírito e o poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, e converter os desobedientes, de maneira que andem na prudência dos justos, a fim de preparar para o Senhor um povo dedicado”.
Perguntou Zacarias ao anjo:
- “Como terei certeza disso? Porque eu sou velho e minha mulher já é de idade avançada”.
Respondeu-lhe o anjo:
- “Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado a falar-te e trazer-te estas boas notícias; e tu ficarás mudo e não poderás falar até o dia em que essas coisas acontecerem, porque não deste crédito às minhas palavras, que a seu tempo se cumprirão”.
O povo estava esperando Zacarias e maravilhava-se enquanto ele demorava no santuário. Quando ele saiu, não lhes podia falar, e perceberam que tivera uma visão no santuário; e ele lhes fazia acenos e continuava mudo. Cumpridos os dias de seu ministério, retirou-se para sua casa. Depois desses dias, Isabel, sua mulher, concebeu e ocultou-se por cinco meses, dizendo:
- “Assim me fez o Senhor nos dias em que pôs os olhos sobre mim, para acabar com meu opróbrio entre os homens”.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Lucas, 1:8-25).
Comentário:
O texto de Lucas informa que “coube-lhe por sorte (a Zacarias), segundo o costume, entrar no santuário do Senhor e queimar o incenso”, isto porque, naquela época, as turmas sacerdotais de serviço eram sorteadas a cada semana (conforme 1 Crôn. 24:3-18). As “funções sacerdotais” eram realizadas pela manhã, antes do “sacrifício”, no “santuário” (ou seja, no “Santo” -sala que antecedia o “Santo dos Santos”, local onde só o Sumo Sacerdote podia penetrar e somente uma vez por ano). Essas “funções sacerdotais” consistiam em renovar o braseiro, colocando-se em seguida incenso e óleos perfumados.
Logo que o sacerdote iniciava o rito, as trombetas do templo tocavam e o povo, que se encontrava espalhado pelo ádrio dos homens e das mulheres, se recolhia em prece. É neste momento que, no santuário (ou Santo), à direita do altar do incenso, um anjo aparece a Zacarias. Mas, o que é um “anjo”?... Anjo é uma palavra que, em grego, significa simplesmente “noticiador, arauto, mensageiro, anunciador”. Este termo (anjo) era empregado para designar qualquer mensageiro, encarregado de transmitir um recado. Não importando a sua condição (de encarnado ou desencarnado), podemos dizer que este ser (anjo) é um ser humano, pois é sempre descrito na Bíblia como um homem (sentado, de pé, vestido de branco, etc.). Podemos observar que não se tratava de um ser “etéreo” pois tinha forma e volume, igual à de um homem, e falava. Que o anjo (mensageiro) era um ser (encarnado ou desencarnado) humano, o seu próprio nome indica, pois Gabriel significa, literalmente “Homem de Deus”.
Apareceu o anjo (mensageiro) a Zacarias do lado direito (“as ovelhas ficarão à minha direita e os bodes à minha esquerda” -Jesus) do altar, que ficava do lado sul, onde estava o candelabro de sete velas, símbolo místico da Luz (Divina Presença). E o anjo (mensageiro) anuncia a sua mensagem: Zacarias e Isabel teriam um filho e este se chamaria João (em hebraico YEHOHANAM que significa “Iahô foi favorável”). A forma “Iahô” é uma abreviatura de YHWH/JEOVÁ e é a mesma que deu origem ao vocábulo JÚPITER (IAHÔ-PATER) e também é a mesma que entra na formação da palavra DEUS (D-YAO-S), com o sentido de LUZ (Divina Presença), cujo feminino formou a palavra DIA.
O nascimento de João veio por um fim à esterilidade de Isabel (considerada castigo pelos judeus) e também, sendo o profeta anunciado “grande diante de Deus” era de se esperar que o seu nascimento seria motivo de júbilo para muita gente. Foi anunciado pelo “anjo” que João não beberá jamais vinho ou bebidas fortes (fermentadas), o que demonstra que o menino haveria de ser NAZIREU (ou nazareno), como Jesus; embora o evangelista não tenha se referido a isto, é de se supor que o novo profeta também não poderia cortar o cabelo, pois eram estas as condições do nazireato (vide capítulo 6 do livro bíblico “Números”).
O nazireu era o homem que fazia um voto especial, consagrando-se a Deus, e esse voto foi criado por YHWH por intermédio de Moisés. O menino João (nova personalidade de um espírito que já existia antes do nascimento como filho de Zacarias e Isabel, conf. Jo. 1:6, “Houve um homem chamado João, enviado por Deus”) já era um espírito santificado, pois, desde o ventre materno, o menino (o “filho” de Zacarias e Isabel: “o que vem da carne é carne; o que vem do espírito é espírito” -Jesus) já estava “cheio” (habitado; vivificado) por um espírito (criatura de Deus; que já existia muito anteriormente ao nascimento físico) santo (isto é, já santificado, evoluído).
O versículo 17 deste “passo” evangélico, diz:
- “Ele (João) irá diante do Senhor (Jesus) com o espírito e poder de Elias (reencarnação anterior do mesmo espírito que ora reencarnava com o nome “João”, cuja volta ou “reencarnação” fora profetizada por Malaquias, que escreveu: “Eis que vou enviar Elias o profeta antes que chegue o dia de YHWH (Jesus), grande e terrível, e ele (Elias) converterá o coração dos pais aos filhos, etc.”, conf. Mal. 3:23; note-se que o nome “Malaquias”, em hebraico, também significa “Anjo”), para converter os corações dos pais aos filhos (vide, acima, a profecia de Malaquias), e converter os desobedientes, de maneira que andem na prudência dos justos, a fim de preparar para o Senhor (YHWH/Jesus) um povo “dedicado” (nas coisas de Deus)”.
Que João é a reencarnação do mesmo espírito que “animou ou vivificou” o profeta Elias, o próprio Jesus o confirma (vide Mt. 11:10-14 e Mt. 17:11-13) e tinha como missão preparar os caminhos do Senhor (Jesus), o que fez com o seu batismo (mergulho) de arrependimento (dos erros praticados) para remissão (compensação: “o amor cobre a multidão de pecados” -Jesus) dos pecados (contravenções à Lei de Amor e Harmonia Universais: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo, ou seja, todas as coisas que possuem vida ou Deus-Em-Si, como a si mesmo”).
Zacarias, diante de tão grandes promessas feitas pelo “anjo” pede-lhe uma prova, um sinal, tal como outros profetas anteriormente haviam feito (Abrão, in Gn. 15:8; Gedeão, in Juízes, 6:36-37; Moisés, in Êx. 3;12; Ezequias, in 2Rs. 20:8) e, tal como ocorreu a Zacarias, também foram atendidos. O “anjo”, em resposta, identifica-se como sendo Gabriel (o Homem de Deus), um dos SETE que assistem diante do trono de Deus, ou seja, do trono de YHWH (conf. Tob. 12:15 e Dan. 9:21). E assim, Zacarias, em resposta ao sinal pedido, emudece; porém, além da fala, perde também o sentido da audição, pois é por “sinais” (Lc. 1:62) que lhe perguntarão, mais tarde, qual o nome que porão no menino que nasceu.
Após isso, dá-se a concepção de Isabel, que oculta do público sua gravidez por cinco meses, e permanece louvando a Deus por haver-lhe concedido a graça de um filho.
Capítulo 5
No sexto mês, foi enviado da parte de Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem prometida a um homem que se chamava José, da casa de David, e o nome da virgem era Maria. Aproximando-se dela, disse-lhe:
- “Alegra-te, altamente favorecida, o Senhor é contigo”.
Ela, porém, ao ouvir essas palavras, perturbou-se muito e pôs-se a pensar que saudação seria essa. Disse-lhe o anjo:
- “Não temas, Maria, pois conquistaste benevolência da parte de Deus, e conceberás em teu ventre e darás à luz um filho a quem chamarás JESUS. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai David, e ele reinará no futuro sobre a casa de Jacob, e seu reino não terá fim.”
Então Maria perguntou ao anjo:
- “Como será isso, uma vez que não conheço homem?”.
Respondeu-lhe o anjo:
- “Um espírito santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te envolverá com sua sombra; e por isso o nascituro será chamado santo, Filho de Deus. Isabel, tua parenta, também ela concebeu um filho na sua velhice, e já está no sexto mês aquela que era chamada estéril, porque, vindo de Deus, nada será impossível”.
Disse Maria:
- “Eis aqui a escrava do Senhor: faça-se em mim segundo a tua palavra”.
E o anjo retirou-se.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Lucas, 1:26-38).
Comentário:
Lucas inicia este “passo” informando que o “Homem de Deus” (Gabriel), Seu “mensageiro” (anjo), foi enviado (por Deus) a uma cidade da “Galiléia” (lugar cercado), chamada “Nazaré” (“consagrado”), a uma “virgem” prometida (em casamento) a um homem (personalidade) que se chamava “José” (em grego, “Deus acrescenta” ou “Deus dá por acréscimo de misericórdia”), da casa de “David” (significa, o “Amado”), e o nome da virgem era Maria. Isto se deu seis meses após a concepção de Isabel, porém, a nova “anunciação” do mensageiro não mais ocorre em “Jerusalém” (que fica na Judéia, “louvor a Deus”), mas na Galiléia (que significa, “lugar cercado”), onde morava uma mocinha que estava “noiva”.
Nazaré, até hoje, é uma localidade misteriosa, pois ainda não foi possível situar a sua exata localização. Jamais foi citada no Antigo Testamento e só aparece no Novo Testamento (Evangelhos); nem mesmo algum autor profano jamais citou a existência desta localidade que, até hoje, os estudiosos tentam “localizar”. Sua transcrição para o hebraico é desconhecida e em grego aparece com seis variantes: Nazaré, Nazaret, Nazareth, Nazará, Nazarat, e Nazarath. Tudo indica que este nome (Nazaré) constituía um símbolo que os evangelistas utilizaram para revelar alguma Verdade mais profunda (que escapasse aos olhos dos leigos), encobrindo-a, porém, com o véu da letra (“a letra mata, e o espírito vivifica” -Paulo); isto pode ser compreendido por não constar ter havido, na época, nenhuma cidade real com este nome. Portanto, recorramos à uma interpretação mais profunda, além da letra (que mata o sentido simbólico) para compreendermos “simbolicamente” esse texto, já que “historicamente” é bastante claro e objetivo: tudo indica que “Nazaré” deriva da raiz do hebraico “Nâzir”, que significa “separado, consagrado”, ligando-se ao “nazireato”, instituído por Moisés, conf. Núm. cap. 6), combinando com o título profético dado a Jesus no Antigo Testamento: “Ele será chamado Nazareno”. Portanto, quando se lê “Nazaré da Galiléia”, entenda-se: “lugar sagrado (Nazaré) da “região cercada” (Galiléia), onde é possível “ouvir a mensagem” do “Homem de Deus” (Espírito Essencial/ Eu Superior/ Aquele que é Uno com o Pai e habita em comunhão com a Divina Presença); então, simplificando, temos: “Região cercada (Galiléia) = Meditação”; “Lugar sagrado (Nazaré)= Coração (onde Deus ou Divina Presença habita em nós emprestando-nos a Vida)”.
Lucas insiste em informar que Maria, nesta época, ainda não estava casada, mas já se encontrava “prometida em casamento”; com efeito, entre os judeus o matrimônio só se completava quando a noiva ia morar na casa do noivo, que, só então, se tornava “marido”. Tanto é assim que Lucas só dá a José o título de “pai” quando relata a apresentação de Jesus no Templo (Lc. 2:33, 41, 43 e 48). Porém, segundo os costumes da época, desde que se contratasse o matrimônio (prometer em casamento), a noiva era considerada ligada ao noivo de tal forma que um erro dela era catalogado como adultério (vide Deut. 22:23).
A saudação de Gabriel é objetiva: “alegra-te”. Note-se que os gregos, na saudação, desejavam “alegria”, já os orientais desejavam “paz” (shalôm) e os latinos faziam votos de “saúde” (salve, ave, vale). Em seguida acrescenta o adjetivo “altamente favorecida” (por Deus), que indica alguém que já conquistou, pela realização/busca de Deus em seu coração, a posse de valores permanentes de graça, de perfeição, de beleza, nem tanto física (embora é de crer-se que Maria tenha sido muito bela), mas principalmente moral (daí a designação de “Virgem Maria”=Espírito Virginal, puro, perfeito). E ajunta: “o Senhor está (é) contigo” e Maria perturba-se, sem compreender, a princípio, o elogio vindo da parte de um estranho.
Mas “Gabriel” (o “Homem de Deus” ou a “mente ocupada pelas coisas Divinas”) sempre transmite com grande alegria a Verdade da Presença Divina dentro da criatura: “o Senhor está (é) contigo”, vive dentro de ti, habita em ti, é a Vida (Divina Presença) que pulsa em ti. Quando o homem ouve essas “palavras silenciosas” dentro do coração (lugar sagrado dentro da região cercada/Nazaré da Galiléia), invariavelmente se perturba, e se pergunta:
- “Que palavras estranhas são essas (ouvidas no êxtase da meditação que conduz ao íntimo do coração, onde reside o Pai) dirigidas a criaturas ainda tão cheias de defeitos?”.
A voz íntima (da Divina Presença Em Nós à mente cristianizada, sua “mensageira”, que o transmite ao “homem/personalidade” encarnado que A busca), no entanto, diz a todos:
- “Alegra-te, filho de Deus, és altamente favorecido por Seu Amor, pois Ele habita em ti!”.
Gabriel exorta Maria a não temer, por que ela conquistou a benevolência de Deus. Conquistar benevolência é expressão muito usada no Antigo Testamento com as palavras “achar graça” (Gn. 6:8; Êx. 33:12; Juízes, 6:17). A anunciação da maternidade de Maria é feita com expressões semelhantes às utilizadas para anunciar o nascimento de Ismael (Gn. 16:11) e de Sansão (Juízes, 13:3-5). O nome imposto pelo anjo é JESUS (em hebraico IEHOSHUA=Iahô salva; daí a expressão Jesus Salvador), na previsão de Isaías o nome seria HIMMANU-EL, isto é, “Deus conosco” (“Eu e o Pai somos UM” -Jesus).
Com Zacarias (que representa o intelecto), o anjo se apresenta, porque o intelecto quer saber de tudo, pede credenciais, analisa, critica, julga, submete à razão; enquanto que a intuição (um passo à frente do intelecto e representado, no texto, por Isabel e Maria) não repara no intermediário (o mensageiro): sente a Verdade em suas palavras, não lhe interessando quem a diz, mas o quê diz. É a sintonia com a Centelha (Divina Presença Em Nós) que possibilita à criatura conquistar a benevolência de Deus, e não o que sabe ou o que faz (suas obras).
Tendo conseguido essa sintonia, a criatura pode conceber em seu ventre (ou seja, receber em seu coração) um filho, que é a sua salvação: Jesus, isto é, Iahô (Deus) salva. O nascimento desse filho mais não é do que a “consciência” de que Deus, a Centelha ou Divina Presença Em Nós, existe e sempre existiu dentro de nós; apenas, por estar oculto e não sentido, não tínhamos consciência d’Ele; assim, quando O descobrimos em nós o filho nasce... E o que é o filho? É a representação do homem novo, do homem divinizado ou cristificado, assim como Jesus (o homem/personalidade encarnada) que expressava perfeitamente, portanto sem a menor interferência de seu ego/personalidade, o Cristo (Centelha; Divina Presença) dentro de Si. Esse filho representa uma nova personalidade ou um novo nível evolutivo do espírito imortal em sua caminhada rumo à perfeição.
Naqueles dias, levantando-se Maria foi apressadamente à região montanhosa, a uma cidade de Judá, e entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança deu saltos no ventre dela, e Isabel ficou cheia de um espírito santo, e exclamou em alta voz:
- “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre! Pois logo que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança deu saltos de alegria em meu ventre; bem-aventurada aquela que creu que se hão de cumprir as palavras que lhe foram ditas da parte do Senhor”.
E disse Maria:
- “Minha alma engrandece o Senhor, pois meu espírito alegrou-se em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na pequenez de sua escrava. Pois de ora em diante todas as gerações me chamarão bem-aventurada; porque o Poderoso me fez grandes coisas. Santo é Seu nome, e sua misericórdia se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou poder com seu braço, dissipou os que tinham pensamentos soberbos no coração, depôs os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes, encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos. Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se da misericórdia (como falou a nossos pais) para com Abraão e sua posteridade para sempre”.
E Maria ficou cerca de três meses com ela, depois voltou para sua casa.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Lucas, 1:39-56).
Comentário:
Lucas começa a narrativa deste “passo” evangélico informando que Maria “levantou-se” (de lugares mais baixos, onde permanecia) e “foi apressadamente à região montanhosa” (ou seja, a lugares ainda mais altos que a sua “estatura natural” permitia). É interessante observar que todas as vezes que as Escrituras querem assinalar uma elevação de vibrações, por meio da prece ou da meditação, elas o fazem com a expressão “subiu a um monte”; é importante notar que, nesta ocasião, Maria já trazia em seu ventre o corpo físico em formação de Jesus e, muito provavelmente, era este o fator que a impulsionava para o “alto”.
O texto de Lucas não esclarece “qual” a cidade de Judá a que Maria se dirigiu para encontrar-se com sua parenta Isabel, esposa de Zacarias, porém, uma tradição do século V afirma que foi “Ai’n-Karim”, a sete quilômetros de Jerusalém; também é bom esclarecer que Maria não foi “checar” a informação que recebera de Gabriel com respeito à gravidez de Isabel, pois isto colocaria em dúvida a fé que espontaneamente colocara em suas palavras: Maria foi visitar Isabel para oferecer-lhe sua ajuda, por espírito de humanidade.
Ai’n-Karim ficava bem distante de Nazaré (a atual Nazaré em que a tradição cristã situa como sendo a Nazaré onde Maria viveu e que, misteriosamente, nunca foi citada no Antigo Testamento e muitos duvidam que tenha realmente existido) e esta viagem, de uma cidade à outra, naquele tempo, não podia ser feita em menos de quatro ou cinco dias, e o texto evangélico não oferece a menor informação de como Maria teria se arranjado para se locomover até lá. Teria ido sozinha? Alguém a teria ajudado?
Logo que Maria penetra na residência de seus parentes que moravam distantes Isabel “sente” que o filho em seu ventre “dá saltos de alegria”. Já Rebeca (in Gn. 25:22) ao sentir que seus filhos davam saltos em seu ventre, interpretou como “mau presságio” a “luta dos gêmeos” (Jacó e Esaú) em seu ventre; porém, desta feita, os saltos eram de alegria e Isabel logo fica “cheia de um espírito santo”. Algumas traduções trazem “e Isabel foi cheia do Espírito Santo”, mas, afirma o Prof. Pastorino, cuja tradução estamos acompanhando, que “a língua grega não possuía artigos indefinidos. Quando a palavra era determinada, empregava-se o artigo definido ho, he, to. Quando era indeterminada (caso em que nós empregamos o artigo indefinido), o grego deixava a palavra sem artigo. Então, quando não aparece em grego o artigo temos que colocar, em português, o artigo indefinido: UM espírito santo, e nunca traduzir com o definido: O espírito santo” (cfr. “A Sabedoria do Evangelho” Vol. 1).
Podemos interpretar, então, que Isabel foi “cheia” ou “incorporada” por um espírito santo o quê, em linguagem atual, equivaleria a dizer “por um bom espírito”. Mas, qual seria este espírito, já que no texto ele está indefinido (UM)? Observemos que ela “exclama em alta voz”, ou seja, grita, o que evidencia não ser ela mesma quem fala, mas alguém que fala por ela; se fosse ela mesma não haveria necessidade de alterar a sua voz, mas se expressaria normalmente, como de costume. Indubitavelmente, este alguém que falava por ela era o mesmo espírito que habitaria no corpo físico de seu filho que ainda se encontrava em seu ventre “pulando de alegria”, em gestação: ou seja, Elias (“Ele irá diante do Senhor com o espírito e o poder de Elias” -Lc. 1:17). Grandes teólogos do passado, considerados como “Pais da Igreja”, como Tertuliano, Orígenes, Irineu e Ambrósio, entre outros, também eram desta opinião, chegando a afirmar que “desde esse momento (no ventre materno), o espírito (Elias/João Batista) tinha o uso da razão” (cfr. III, q. XXVII, disp. IV, sect. VII, n.7). Devemos, ainda, ressaltar que o fenômeno mediúnico (comunicação Elias/Isabel) foi inteiramente consciente, pois, após a pergunta que evidencia a humildade própria de um espírito superior, como era o caso de Elias/João Batista (“Como é que me vem visitar a mãe de meu Senhor?” -vers. 43), Isabel continua o discurso informando sobre os “saltos de alegria” da criança em seu ventre e conclui abençoando Maria porque nela se cumpriram as antigas promessas de Yahweh, e também porque ela deu crédito ao anjo que lhe trouxera a notícia de sua gravidez.
A seguir, temos o maravilhoso “Magnificat”, cântico conhecidíssimo em toda a cristandade, entoado por Maria em resposta a Isabel. Este cântico belíssimo reúne várias frases extraídas do Antigo Testamento, principalmente dos Salmos de David, o que nos dá uma boa “dica” sobre a sua autoria espiritual, notadamente se compararmos os versículos 46 e 47 acima transcritos (“Minha alma engrandece o Senhor, pois meu espírito alegra-se em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na pequenez de sua escrava”) com o Salmo 31:7, que diz: “Vibrarei de alegria e gozo por causa de tua bondade, pois olhaste minha miséria”. E quando diz: “Porque o Poderoso (era comum designar a Divindade por um de Seus atributos) me fez grandes coisas”, lembramo-nos de Deut. 7:9, onde se lê: “Yahweh... mantém Sua misericórdia aos que O amam e lhe cumprem Seus mandamentos, até mil (leia-se “muitas”) gerações (entenda-se “reencarnações”)”; observe-se que não se trata absolutamente de “gerações de descendentes” como filhos, netos e bisnetos, etc., pois logo no versículo seguinte, temos: “retribui diretamente aos que O odeiam, não retardará o pago ao que O odeia, retribuir-lhe-á diretamente”. Portanto, concluímos, só pode tratar-se de mil (no sentido de muitos) renascimentos da própria criatura que O ama (O teme) e Lhe cumpre os mandamentos.
Digno de destaque também é a noção correta da diferença entre alma e espírito, de acordo com as mais modernas interpretações, que Maria revela quando diz: “Minha alma engrandece o Senhor, pois meu espírito alegrou-se em Deus meu Salvador”. Também o Apóstolo Paulo, em 1 Tess. 5:23, entre outras, ensina essa diferença quando suplica a Deus que “nos santifique o espírito (pneuma), a alma (psiché) e o corpo (soma)”. Como podemos observar, o “Magnificat” é, todo ele, um cântico sublime à bondade e justiça de Deus que se manifestam no transcorrer das vidas sucessivas, cada um colhendo invariavelmente o “mel” ou o “fel” a que fez jus. Maria afirma que Deus “dispersa” com a força de seu “braço” a soberbia (o orgulho) do coração, derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes, encheu de bens os famintos e despediu (da vida espiritual para uma nova reencarnação) vazios os ricos. Com efeito, quando se teria realizado tudo isto senão em uma nova reencarnação? Negar esta realidade seria negar a própria Bíblia e a força do “braço” (Lei) de Deus.
Capítulo 7
O nascimento do Precursor
Chegando o tempo de dar à luz, Isabel teve um filho. Seus vizinhos e parentes, sabendo da grande misericórdia que o Senhor manifestava para com ela, participavam de seu regozijo. No oitavo dia vieram circuncidar o menino, e iam dar-lhe o nome de seu pai: Zacarias. Sua mãe, porém, disse:
- “Não, mas será chamado João”.
Disseram-lhe:
- “Ninguém há entre teus parentes que tenha esse nome” -e perguntavam por acenos ao pai que nome queria que lhe pusessem. Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu:
- “João é seu nome” -e todos se maravilharam. Imediatamente lhe foi aberta a boca e solta a língua, e começou a falar, bendizendo a Deus.
O temor apoderou-se de todos os seus vizinhos, e divulgou-se a notícia de todas essas coisas por toda a região montanhosa da Judéia; e todos os que delas souberam, as guardavam no coração, dizendo:
- “Que virá a ser, então, esse menino?” -pois na verdade, a mão do Senhor estava com ele. Zacarias, seu pai, ficou cheio de um espírito santo e profetizou, dizendo:
- “Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque veio visitar e trazer resgate a seu povo, e nos suscitou um Libertador poderoso na casa de David seu servo, (como anunciara desde tempos imemoriais pela boca de seus santos profetas), para nos livrar de nossos inimigos e da mão de todos os que nos odeiam; para usar de misericórdia com nossos pais e lembrar-se de sua santa aliança, do juramento que fez a Abraão nosso pai de conceder-nos que, livres da mão de nossos inimigos, o servíssemos sem temor, em santidade e justiça, diante dele, por todos os nossos dias. Sim, e tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás ante a face do Senhor preparando os seus caminhos; para dar a seu povo o conhecimento da salvação, que consiste na rejeição de seus erros, devido ao amor misericordioso de nosso Deus, pelo qual nos visitará o Sol do Alto, para iluminar os que estão sentados nas trevas e na sombra da morte, para dirigir nossos passos no caminho da paz”.
Ora, o menino crescia e se fortificava em espírito, e habitava nos desertos, até o dia de sua manifestação a Israel.
(Evangelho de Jesus Cristo Segundo Lucas, 1:57-80).
Comentário:
Ainda no Evangelho Segundo Lucas (16:16), temos:
- “A lei e os profetas vigoraram até João” -portanto, o nascimento de João Batista, bem como sua vida e obra, encerram o Antigo Testamento. João, através do batismo (iniciação) de Jesus, inaugurou também o Novo Testamento, mas, quem dá prosseguimento ao Novo Pacto entre Deus e os homens é Jesus. Podemos, então, dizer, sem medo de errar, que o Antigo Testamento, permeado pelo sangue dos sacrifícios, jejuns, orações, circuncisões, batismos, dízimos, etc., vigorou de Gênesis até o batismo de Jesus; daí para a frente passa a vigorar o Novo Testamento, a Nova Aliança ou Novo Concerto, onde os preceitos e ordenanças do Velho Testamento perdem autoridade e somente a Lei-do-Amor, preconizada por Jesus e sintetizada no Novo Mandamento, é o Caminho da Verdade que conduz à Vida (Deus) que todos devemos seguir.
Vimos, no presente “passo” evangélico que está em estudo, que João foi circuncidado (cfr. Gn. 17:12; 21:4 e Lv. 12:3) em sua própria casa, daí a presença de Isabel no evento, pois, de outra forma, ela não participaria, pois a mulher só podia sair de casa após transcorridos quarenta dias a contar da data do parto.
No ato da circuncisão, segundo o costume da época, a criança recebia oficialmente o seu nome. Lucas informa que Isabel queria impor o nome de João, o que causou estranheza aos parentes porque não só não era comum a mulher colocar o nome no filho, como também não era comum colocar um nome que não houvesse na família. Os parentes sugerem o nome de Zacarias porque este já era avançado em idade e não seria possível, devido a isto, confusão entre os dois; mas Isabel recusa-se e insiste em colocar o nome de João. Estabelecido o impasse, recorrem a Zacarias para que decida, finalmente, qual o nome que seria imposto ao menino. O fato de perguntarem a Zacarias “por acenos” demonstra que, além de mudo, ficara ele também surdo; não fosse assim e não seria necessário perguntar-lhe “por acenos”. Este escreveu com um estilete numa tabuinha recoberta com cera:
- “João é o seu nome” -colocando um ponto final na discussão.
O evangelista ressalta que, logo após Zacarias decidir-se pelo nome de João, “lhe foi aberta a boca e solta a língua, e começou a falar bendizendo a Deus”; presume-se que também a sua surdez temporária tenha desaparecido. Isto causou grande admiração a todos os presentes e este acontecimento foi noticiado por toda aquela região “montanhosa” da Judéia.
Zacarias, então, livre da mudez, ao constatar que se realizara tudo o que o anjo (mensageiro) lhe dissera, explode em palavras de alegria incontida e de elevação espiritual. O nome que ele e a mulher recusaram-se a colocar no menino (Zacarias) significa “lembrança de YHWH”; os dois, unanimemente, seguindo a recomendação do “anjo” Gabriel (“Homem de Deus”), colocam-lhe o nome de João, que significa “YHWH foi favorável”. O pai, “cheio de um espírito santo”, ou seja, incorporado por um bom espírito, “profetiza”, ou, numa linguagem mais atual, deu uma comunicação mediúnica. Nesta mensagem o espírito comunicante louva a Deus pela era messiânica que se iniciava (versículos 68 a 75) e evidencia o papel do precursor do Messias (versículos 76 a 79). A expressão utilizada pelo espírito:
- “Bendito seja o Senhor Deus de Israel”, a encontramos em três dos Salmos atribuídos a David (41:13; 72:18; e 106:48).
Quando Zacarias afirma, na segunda parte desta mensagem (também chamada “Cântico de Zacarias”), referindo-se a seu filho, que ele será chamado “profeta do Altíssimo”, está repetindo, resumidamente, as mesmas palavras de Malaquias (3:1):
- “Eis que vos envio meu mensageiro, que aplainará o caminho diante de mim”(YHWH/Jesus), e de Isaías (40:3):
- “Uma voz grita: abri, no deserto, o caminho de YHWH”.
Como podemos ver fica bem claro, na comparação dos textos, que Jesus é a encarnação de YHWH e que João Batista é a reencarnação do profeta Elias. Para corroborar esta observação, consultemos o livro do profeta Malaquias (4:5):
- “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia de Yahweh” -Elias reencarnado como João Batista testemunhará ser Jesus a encarnação de YHWH e ensinará o povo no conhecimento da Salvação, que consiste no arrependimento e na remissão de seus erros.
Erros, no campo teológico, são denominados “pecados” ou “quedas”, mas, o vocábulo grego que é utilizado nesta passagem é ainda mais abrangente e exprime uma idéia muito mais ampla, significando “todo e qualquer erro”. A palavra “salvação” que vez por outra encontramos em textos bíblicos significa sempre, em qualquer tradução ou interpretação, a “salvação” ou “libertação” do ciclo reencarnatório; é neste sentido que devemos interpretar as magistrais palavras de Jesus:
- “Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos fará livres”.
Libertando-nos dos pecados (ou erros), estamos automaticamente libertos (ou salvos) do ciclo reencarnatório: deixaremos de ser “filhos de mulher” (da reencarnação) e passaremos a pertencer ao “reino dos céus” (mundo espiritual, libertos da matéria) é assim também que deveremos interpretar as seguintes palavras do Mestre:
- “Dos nascidos de mulher, ninguém é maior do que João Batista; mas o menor no reino dos céus é maior do que ele”.
Lembremo-nos de que João Batista, ainda na reencarnação em que fora Elias, mandara decapitar 400 sacerdotes de Baal, o que o tornou “devedor” da Lei de Causa e Efeito e, portanto, prolongara a sua triste situação de “filho de mulher”; mas, apesar disto, Jesus declara que de todos os sujeitos à Lei da Reencarnação, nenhum era maior do que Elias/João Batista. No entanto, por estar ainda sujeito a esta Lei, o menor daqueles que já haviam se libertado dela era maior do que ele.
“A lei e os profetas vigoraram até João” -declarou Jesus (Lc. 16:16); a partir de João, em que é encerrada a Velha Aliança, começa a maior epopéia de Amor e o maior cântico de Caridade que o mundo já testemunhou: a Doutrina de Jesus!
Capítulo 8
Revelação a José
Ora, a concepção de Jesus Cristo ocorreu desta maneira: sendo Maria, sua mãe, noiva de José, antes que se ajuntassem foi achada grávida de um espírito santo. E José, seu noivo, sendo reto e não querendo infamá-la, resolveu deixá-la secretamente. Tendo, porém, meditado nessas coisas, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos, dizendo:
- "José, filho de David, não temas receber em casa Maria como tua mulher, pois o que nela foi gerado é de um espírito; ela dará à luz um filho a quem chamarás JESUS, porque ele salvará seu povo dos pecados deles".
Ora, tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que dissera o Senhor pelo profeta:
- "Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e ele será chamado Emanuel, que quer dizer: Deus conosco".
Tendo José despertado do sono, fez como o anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua mulher, e não a conheceu enquanto ela não deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Jesus.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Mateus, 1:18-25).
Comentário:
Mateus informa que Maria, quando ainda era noiva de José, isto é, quando era compromissada com este e prometida em casamento, achou-se grávida de um espírito santo.
Como podemos ver em Deut. 20:7 ("E qual é o homem que está desposado com alguma mulher e ainda não a recebeu? Vá, e torne-se à sua casa, para que porventura não morra na peleja e algum outro homem a receba") os judeus faziam nítida distinção entre o noivado e o casamento, sendo que este último significava apenas "coabitar" ou "morar juntos", o que não acontecia durante o noivado; não significava, de forma alguma, que não houvessem copulado.
Então, o que Mateus informa é que, ainda durante o noivado, José verificou que Maria estava grávida. Este fato só pode ter acontecido após a volta de Maria da residência de Zacarias e Isabel, em Ai’n-Karim, para a sua pequena aldeia de Nazaré. Aliás, neste passo acontece uma pequena divergência entre as narrativas de Mateus e Lucas, pois Lucas conta (1:26-27) que "no sexto mês (da gravidez de Isabel), foi enviado da parte de Deus o anjo (mensageiro) Gabriel a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem prometida (em casamento) a um homem que se chamava José, da casa de David, e o nome da virgem era Maria"; para Lucas, portanto, a residência dos noivos (José e Maria) ficava na pequena aldeia de Nazaré. Porém, para Mateus não é assim, pois em 2:23 ele afirma que quando José regressava do Egito (Jesus já tinha aproximadamente cinco anos) para sua casa (Belém), ao saber que Arquelau, filho de Herodes, reinava na Judéia, resolveu ir morar na Galiléia, na cidade de Nazaré, "para que o menino pudesse realizar a profecia de ser chamado nazareno": portanto, para Mateus, Nazaré era um lugar ainda desconhecido de José e de Maria, enquanto que para Lucas, Nazaré era a residência natural dos dois.
Como vemos, a "virgindade" de Maria não é o único fato controverso nas narrativas evangélicas; a menos que o futuro venha a comprovar que Maria engravidou por algum processo de inseminação artificial (como, aliás, a concepção de vários "primogênitos" no A. T. deixa em aberto), fato desconhecido pelos próprios evangelistas, preferimos acreditar que a "virgindade" de Maria era no sentido espiritual, ou seja, tratava-se de um espírito já bastante evoluído, um espírito virginal, sem mácula, puro...
Mateus omite a viagem de Maria à casa de Isabel, onde, Segundo Lucas, foi ela testemunha do nascimento de João; mas José só poderia perceber a sua gravidez quando esta já apresentasse sinais visíveis, lá pelo quarto ou quinto mês. Sendo um homem bom, José não quis infamá-la; isto por que, segundo a lei, os noivos tinham sobre as noivas os mesmos direitos e prerrogativas de maridos. Conforme podemos observar em Deut. 22:20-27, as relações entre os noivos eram semelhantes aos dos já casados, pois:
1-) A noiva infiel devia ser apedrejada, como se fora esposa.
2-) A noiva podia ser despedida com uma "carta de divórcio".
3-) A criança nascida na época do noivado era considerada legítima.
4-) Se o noivo morria, ela era tratada como viúva, devendo, pela lei do "levirato" coabitar com o irmão do noivo, para que tivesse filhos dele.
José, então, entre a possibilidade de difamá-la perante o Sinédrio (ao que parece o filho não era mesmo seu, ou, se o era realmente, deixou-o em dúvida, pois Maria passara três meses fora, em casa de Zacarias e Isabel, e retornara grávida) e repudiá-la com uma "carta de divórcio", optou pelo repúdio, o que poderia ser feito desde que assinasse uma carta perante duas testemunhas, sem nenhum escândalo. Foi então que se manifestou a chamada "mediunidade onírica" de José, confirmada em mais quatro passos, em que um anjo ou espírito bom lhe visita e lhe dá instruções sobre como deveria proceder daí por diante. O versículo 20 diz que "o que nela foi gerado (o corpo do futuro bebê) é de (pertence a) um espírito (o adjetivo "santo" foi acrescentado séculos depois, pois só aparece no texto latino da Vulgata).
Ao voltar atrás em sua decisão de repudiar Maria, José assume, automaticamente, a paternidade legal do bebê que nela estava sendo gerado. Em nenhum dos cinco trechos em que se manifesta a mediunidade onírica de José, Mateus faz menção, a menor que seja, ao nome do espírito comunicante, chamando-o, apenas, "anjo", mas é de se supor que seja o mesmo Gabriel que já havia se comunicado a Zacarias, Isabel e à própria Maria, sem contar os três reis magos, cujo "contato" também se deu via "onírica".
O evangelista cita uma profecia de Isaías que diz:
- "Uma virgem conceberá e dará à luz um filho" -Is. 7:14. O conceito de "virgem" no sentido de a mulher já ter ou não copulado com um homem, no Antigo Testamento, era expresso por duas palavras hebraicas:
1-) Betulân, que especificava a virgindade como certa.
2-) Almân, que exprimia uma suposição, sem, contudo, garanti-la.
Ora, neste texto de Isaías que reproduzimos acima (Is. 7:14), a palavra original do texto hebraico é justamente "almân". Além disso, poderemos verificar em Deut. 22:23, que a noiva, e mesmo a esposa, recém casada, era chamada "ne’arah betulâh". Virgem, portanto, nos textos do Antigo e do Novo Testamentos, designa apenas uma moça ainda não ligada pelo casamento a um homem, nada mais que isso...
Aliás, Maria, quando concebeu, era mesmo virgem, o que acontece com todas as moças que engravidam na primeira relação sexual; em nenhum lugar dos evangelhos está escrito que Maria continuou virgem após a concepção, e o simples uso da razão é suficiente para derrubar este dogma, afinal, no contexto da pureza espiritual de Maria e de sua maravilhosa missão, qual a importância de um simples hímen de carne?!?... Além disso, afirma o evangelista: "e não a conheceu enquanto ela não deu à luz um filho", donde se presume que após ter ela dado à luz o seu filho, a quem pôs o nome de Jesus, ele (José) a conheceu, isto é, passou a ter relações sexuais com Maria.
A profecia de Isaías informa que o menino seria chamado "Himmanu-El", que significa "Deus conosco" (Divina Presença!), exprimindo a grande Verdade de que Deus habita realmente dentro de nós, e está, constante e eternamente, "conosco".
Cumprindo à risca o que dissera o anjo, Maria e José colocam no menino o nome de JESUS (em hebraico YEHOSHUA, que significa YHWH SALVA). Alguns teólogos acreditam ser Jesus a encarnação de YHWH, conf. Is. 60:2, que diz:
- "Em ti nascerá Jeová".
Jeová foi o espírito construtor do planeta Terra, conforme podemos comprovar em Gênesis, de Moisés. No Evangelho de Jesus Cristo Segundo João, temos:
- "Ele estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. Veio entre os seus, e os seus não o receberam" -Jo.1:10-11).
Conforme já temos dito, a linguagem do Antigo Testamento é bastante cifrada e alegórica, sendo-nos impossível, por enquanto, discernir e identificar Jeová/Jesus de outros espíritos que, ao se comunicarem com os médiuns (profetas) também usavam o nome de YHWH, muitas vezes para cometer absurdos inomináveis gerando a aparente incoerência de alguns atos de Jeová, que ora manda perdoar, ora manda matar, nos escritos do Antigo Testamento. Por isso Jesus se referiu aos falsos profetas que foram aclamados pelo seu povo.
Ora, aceitando Jesus (YHWH SALVA) como sendo a encarnação de Jeová, que vem salvar o Seu povo, a profecia de Isaías que afirma que o menino (encarnação de YHWH) seria chamado "Himmanu-El", ou seja, "Deus conosco" ganha uma interpretação objetiva em seu sentido literal, pois sendo Jeová tido como Deus (El), "Deus conosco" tem o mesmo sentido de "Jeová conosco".
Mas, num sentido ainda mais prático e profundo, Jesus, o que seria chamado Himmanu-El porque manifesta a Deus dentro de si fazendo-se Seu representante entre nós (Deus conosco), se declarou como sendo O Caminho que conduz à Verdade que nos leva à Vida (Deus), e afirmou que ninguém chegaria ao Pai senão por Ele, pelo Caminho que Ele nos apresentou, ou seja, pelo Amor a Deus sobre todas as coisas e pelo Amor ao próximo (de qualquer crença, cor, raça ou procedência) como a nós mesmos.
É este o Caminho que trilha aquele que acessou a Deus (Divina Presença) dentro de si.
O nascimento de Jesus
Naqueles dias foi expedido um decreto de César Augusto, para que todo o mundo fosse recenseado. Este recenseamento foi primeiro (antes) do que se fez no tempo em que Quirino era governador da Síria. E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. José também subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à cidade de David, chamada Belém, por ser ele da casa e família de David, para alistar-se, acompanhado de Maria, sua noiva, que estava grávida.
Estando eles ali, completaram-se os dias de dar à luz, e teve um filho primogênito, e o enfaixou e o deitou em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. Naquela região havia pastores que viviam nos campos e guardavam seus rebanhos durante as vigílias da noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor brilhou ao redor deles, e encheram-se de grande temor. Disse-lhes o anjo:
- "Não temais, pois vos trago uma boa notícia de grande alegria, que o será para todo o povo, e é que hoje vos nasceu, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor; e eis para vós o sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada numa manjedoura".
De repente apareceu com o anjo uma multidão da milícia celeste, louvando a Deus e dizendo:
- "Glória a Deus nas maiores alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade".
Quando os anjos se haviam retirado deles para o céu, diziam os pastores uns aos outros:
- "Vamos até Belém e vejamos o que aconteceu, o que o Senhor nos deu a conhecer".
E foram a toda pressa e acharam Maria e José e a criança deitada numa manjedoura; e vendo isso, divulgaram o que se lhes havia dito a respeito desse menino. Todos os que o souberam admiravam-se das coisas que lhes referiam os pastores. Maria, porém, guardava todas essas coisas, meditando-as em seu coração. Os pastores voltaram glorificando e louvando a Deus, por tudo quanto tinham ouvido e visto, como lhes fora anunciado".
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Lucas, 2:1-20).
Comentário:
Vemos que Lucas fornece algumas informações históricas, de onde é possível localizarmos o fato no tempo. Jesus nasceu durante o reinado de Herodes; segundo alguns historiadores, Herodes teria morrido no ano 4 a. C., ou seja, no ano 750 de Roma. Os historiadores Josefo (Antiquit. Jud. 17, 8, 1 e 17, 9, 213) e Bellum (Jud. 1, 33, 1 e 8; 2. 6. 4) informam que a morte de Herodes se deu poucos dias após um eclipse lunar (Antiquit. Jud. 17. 6. 4. parágrafo 187), fato que se deu exatamente, segundo os astrônomos modernos, entre os dias 12 e 13 de março do ano 4 a. C. (conf, Scheirer, 1.c. pág. 416). Portanto, com estas informações históricas de Mateus:
- "Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia no tempo do rei Herodes" -Mt. 2:1, e as de Lucas acima transcritas, é possível concluir, cientificamente, que Jesus teria nascido no ano 7 antes da era cristã, achando-se, portanto, o nosso calendário atual, dito cristão, atrasado em 7 anos na sua contagem do tempo.
Outra informação esclarecedora fornecida por Lucas neste passo evangélico é o recenseamento ordenado por um edito de César Augusto (Otávio) que se iniciou no Egito no ano 10-9 a. C. (conf. Grenfell & Hunt, oxyrinchus papyri, tomo 2, pág. 207-214), que teve prosseguimento na Gália (conf. Dion 53, 22, 5) e na Síria, por Quirino (conf. Corpus Inscript. Lat. 3, 6687) no ano 7 depois de Cristo. O recenseamento a que se refere o evangelista foi anterior ao de Quirino, ou seja, foi realizado por Sentius Saturninus, Legado Imperial na Palestina, de 8 a 6 a. C. (conf. Tertuliano, Patrol. Lat. vol. 2, col. 405, e Schurer, Geschichte des Judischen Volkes, tomo 1, pág. 321). Isto corrobora a hipótese do ano 7 a. C. para o nascimento de Jesus.
Documentos históricos não reforçam a necessidade de recensear-se na cidade de origem (Belém, no caso de José) e, sim, na sede do município onde residissem (a sede do município de Nazaré não era Belém, portanto, se José e Maria residissem mesmo em Nazaré, antes do nascimento de Jesus, era lá que teriam que se recensear). José fez-se acompanhar de Maria (ainda noiva, segundo Lucas; já sua esposa, segundo Mateus) por ser também ela da "casa e família" de David e, com muito maior razão, por estar ela em adiantado estado de gravidez. Na cidade de Belém, Maria dá à luz o seu filho primogênito: Jesus. O fato de ser primogênito não determina que posteriormente Maria não viesse a ter outros filhos, antes, esta expressão tem o objetivo de informar que Jesus era o "Bekor", que pertencia a Deus, devendo-Lhe ser consagrado desde o nascimento (conf. Êx. 13:2 e 34:19).
A seguir o evangelista faz referência aos pastores que estavam "no campo", onde "viviam". Porém, após as grandes chuvas de novembro e já no rigor do inverno, em fins de dezembro, os rebanhos já haviam sido recolhidos aos currais desde novembro. Daí é fácil deduzir-se que o nascimento de Jesus não ocorreu, de fato, em dezembro. Em verdade, somente por volta do ano 354 da era cristã a Igreja de Roma, atual Vaticana, vulgarizou o nascimento de Jesus como tendo ocorrido a 25 de dezembro, para coincidir com a festa pagã de Mitra (natalis invicti solis), o nascimento do Sol invicto ou a entrada do sol no solstício de inverno (no oriente, é claro); nessa época os bispos da Síria e da Armênia acusaram os romanos de "adoradores do Sol" e "idólatras".
Aos pastores apareceram os "anjos" (mensageiros) de uma boa notícia: o nascimento de um Salvador, que é o Cristo Senhor. É a primeira vez que a palavra "Salvador" aparece em o Novo Testamento; Mateus e Marcos não a empregam, Lucas a emprega aqui e em Atos (5:31 e 13:23) e João em 4:42. Entretanto, a palavra "Salvador" é muito freqüente em Paulo; no Antigo Testamento esta palavra se refere invariavelmente a YHWH, corroborando, mais uma vez, a idéia de que Jesus é, de fato, a encarnação de YHWH.
Sobre o versículo 14:
- "Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade" -faz referência à verdadeira paz de espírito que sentem todos aqueles que andam segundo os preceitos de Deus (Divina Presença) na intimidade de seus corações; quanto a isto, Jesus afirmou:
- "Eu vos dou a paz, eu vos deixo a paz; não a paz que o mundo vos dá, mas a paz de Deus" -significando que, mesmo sob as mais intensas provas e sofrimentos, é possível àquele que vive sintonizado com Deus em seu íntimo, sentir-se em paz. Em contrapartida, é claro e explícito que aquele que assim não age jamais experimentará a verdadeira paz...
Logo que a incrível visão (materialização de espíritos angélicos?) desapareceu de diante de seus olhos, os pastores resolveram sair à procura do menino e acabaram por encontrá-Lo sob os cuidados de seus pais. A palavra grega utilizada para exprimir "céu", nesta passagem, é a mesma que se utiliza atualmente para qualificar a "atmosfera", o "ar", significando que as formas materializadas dos "anjos" se dissolveram no "ar", na "atmosfera", ou seja, no "céu".
O evangelista, que escreveu a sua versão do Evangelho a pedido do Apóstolo Paulo, tendo a mãe de Jesus como sua principal fonte de informações, afirma que Maria, tomada de surpresa pelo relato dos pastores, guardava tudo isto "no seu coração". De fato, hoje em dia, muitas correntes espiritualistas afirmam ser o coração a sede da "mente superior" (aquela ligada à Divina Presença em nós), ou seja, da "memória espiritual", e da "memória superconsciente" (da Individualidade Divina ou Ego Profundo do espírito), porque a mente superior e a memória superconsciente são atributos do Eu-Interno, do Cristo de Deus que Em-Nós-Habita, daquilo que neste trabalho denominamos "Divina Presença"; não está longe o dia em que a própria ciência profana se convencerá disso...
Observemos que Jesus "nasceu" numa manjedoura porque não havia lugar para seus pais na hospedaria. Naquele tempo era comum encontrar-se uma manjedoura numa gruta ou mesmo num estábulo interno da habitação, onde, no rigor do inverno, se guardavam os animais; este estábulo consistia numa "puxada" em que podia abrigar-se também pessoas com bastante conforto, e isto ocorria com freqüência quando todos os outros cômodos da casa já estavam ocupados. Porém, é importante relacionarmos o ocorrido com uma experiência mística particular onde o Cristo (Divina Presença) "nasce" num estábulo (residência de animais que pode ser comparado ao corpo físico, residência de células-animais) e é depositado na manjedoura (local onde os animais se alimentam, no corpo físico pode ser comparado ao intelecto, onde o animal-homem se alimenta). Portanto, é na solidão (gruta) do estábulo (corpo físico) que a Divina Presença Em Nós se manifesta.
Capítulo 10
Genealogia
Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão. Abraão gerou a Isaac; Isaac gerou a Jacob; Jacob gerou a Judá e seus irmãos; Judá gerou de Tamar a Farés e a Zará; Farés gerou a Esrom; Esrom gerou a Arão, Arão gerou a Aminadab; Aminadab gerou a Naasson; Naasson gerou a Salmon; Salmon gerou de Raab a Booz; Booz gerou de Ruth a Jobed; Jobed gerou a Jessé; e Jessé gerou ao rei David; David gerou a Salomão, daquela que fora mulher de Urias; Salomão gerou a Roboão. Roboão gerou a Abia; Abia gerou a Asá; Asá gerou a Josafá; Josafá gerou a Jorão; Jorão gerou a Ozias; Ozias gerou a Joatão; Joatão gerou a Acaz; Acaz gerou a Ezequias; Ezequias gerou a Manassés; Manassés gerou a Amon; Amon gerou a Josias, e Josias gerou a Jeconias e a seus irmãos, no tempo do exílio da Babilônia.
Depois do exílio da Babilônia, Jeconias gerou a Salatiel; Salatiel gerou a Zorobabel; Zorobabel gerou a Abiud; Abiud gerou a Eliaquim; Eliaquim gerou a Azor; Azor gerou a Sadoc; Sadoc gerou a Aquim; Aquim gerou a Eliud; Eliud gerou a Eleazar; Eleazar gerou a Matan; Matan gerou a Jacob, e Jacob gerou a José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, o chamado Cristo.
Assim todas as gerações desde Abraão até David são catorze; também desde David até o exílio de Babilônia, são catorze gerações; e desde o exílio em Babilônia até o Cristo, catorze gerações.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Mateus, 1:1-17).
(Ora, o mesmo Jesus, ao começar seu ministério, tinha cerca de trinta anos) sendo filho, como se pensava, de José, filho de Heli, de Matat, de Levi, de Melqui, de Janai, de José, de Matatias, de Amós, de Naum, de Esli, de Nagai, de Maat, de Matatias, de Semei, de Josec, de Jodá, de Joanam, de Résa, de Zorobabel, de Salatiel, de Neri, de Melqui, de Adi, de Cosam, de Elamadan, de Er, de Jesus, de Eliezer, de Jorim, de Matat, de Levi, de Simeão, de Judá, de José, de Jonam, de Eliaquim, de Melea, de Mená, de Matata, de Natan, de David, de Jessé, de Jobed, de Booz, de Sala, de Naasson, de Aminadab, de Admim, de Arni, de Esrom, de Farés, de Judá, de Jacob, de Isaac, de Abraão, de Tará, de Nacor, de Seruc, de Ragaú, de Falec, de Eber, de Sala, de Cainam, de Arfaxad, de Sem, de Noé, de Lamec, de Matusalém, de Enoc, de Jared, de Maleleel, de Cainam, de Enso, de Seth, de Adão, de Deus.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Lucas, 3:23-38).
Se observarmos com atenção as duas genealogias acima transcritas, uma informada por Mateus e a outra por Lucas, verificaremos que existem profundas divergências entre as duas e apenas algumas poucas coincidências de nomes dos antepassados de Jesus.
Os nomes coincidentes nas duas genealogias são os seguintes: Abraão, Isaac, Jacob, Judá, Farés, Esrom, Salatiel, Zorobabel, Aminadab, Naassom, Booz, Jobed, Jessé e David. Todos os outros 61 nomes fornecidos por Lucas e os 26 anotados por Mateus não concordam entre si.
Se levarmos em consideração que Lucas anota a genealogia de Jesus no sentido inverso de Mateus, indo de José (pai de Jesus) até Adão (filho de Deus); e que Mateus começa suas anotações sobre a genealogia de Jesus a partir de Abraão até José (pai de Jesus), ainda assim, teremos apenas 14 concordâncias e nada mais nada menos do que 41 discordâncias. Além do mais, se Jesus não era mesmo filho de José, qual o motivo de se querer provar, através da genealogia de seu padrasto, que Ele era da descendência de David? Se Jesus não era filho de José, Sua descendência de David não pode ser comprovada pela ascendência do padrasto...
Mateus divide a genealogia de Jesus em três séries de 14 nomes cada uma, porém, a terceira série só alcança os 14 nomes se incluirmos na série o nome de Maria. Além disso, se compararmos as duas árvores genealógicas a partir de Abraão até Jesus, verificaremos que Lucas inclui 14 nomes a mais do que Mateus.
Tudo indica que nos versículos 24 e 29 de Mateus houve um equívoco do copista, pois trazem repetidos na mesma ordem os nomes de Matat e Levi; Júlio Africano (Patrologia Graeca, vol. 22 col. 896) e Ambrósio (Patrologia Latina. vol. 15 col. 1594), assim como o manuscrito C, não trazem esta repetição.
Podemos ainda acrescentar que, na verdade, as séries de 14 gerações apontadas por Mateus não condizem com a realidade, pois de Abraão (1.921 a. C.) até David (1.078 a. C.) passaram-se 843 anos, o que corresponde a cerca de 28 gerações; de David (1.078 a. C.) ao cativeiro de Babilônia (606 a. C.) passaram-se 472 anos, ou seja, cerca de 15 gerações; e do cativeiro de Babilônia até Jesus passaram-se 600 anos, isto é, cerca de 20 gerações. Podemos observar, ainda, que Mateus suprimiu diversos nomes que constam das “listas oficiais” dos Rabinos e mesmo de diversos textos bíblicos do Antigo Testamento.
Alguns exegetas, para diminuir o impacto dessas óbvias discordâncias entre os dois evangelistas, afirmam que Lucas anota a genealogia de Jesus a partir de Maria, sua mãe (ao invés da genealogia de José, seu pai), porém, continua sendo um mistério o motivo que levou o evangelista a omitir, em sua lista, o nome de Maria... Pensamos que se o evangelista omitiu o nome de Maria é porque a genealogia apresentada não é dos ascendentes desta e, além do mais, por que Mateus apresentaria a árvore genealógica de José se ele sabia que Jesus não era filho deste? Isto prova que Mateus pensava que Jesus era mesmo filho de José. E se a genealogia apresentada por Lucas também é a de José, chegamos à mesma conclusão... Se, porém, a genealogia apresentada por Lucas é a de Maria, resta-nos duas dúvidas:
1º-) Por que ele omitiu o nome mais importante de sua lista (Maria) para que tivéssemos certeza que ele pensava que Jesus não era mesmo filho de José?
2º-) Por que Mateus apresenta a genealogia de José se era fato conhecido por todos os cristãos da época que Jesus não era filho de José?
Bem, se hoje em dia é tarefa quase impossível elaborar uma árvore genealógica estendendo-a para além de nossos bisavós, e, em raríssimos casos, aos tataravós, imaginem há dois mil anos atrás, quando não haviam cartórios de registros e nem mesmo papéis à disposição dos interessados. Entendemos que Mateus sabia muito bem contar os anos necessários para obter-se uma geração e não se enganaria ao elaborar as três séries de 14 gerações cada uma; é óbvio que ele intentou passar para a posteridade algum ensinamento oculto por “detrás” do véu da letra, ensinamento que a “vaidade” de muitos sábios e “pseudo-sábios” impediria de ver, pois é justamente no Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Mateus que encontramos estes sábios ensinamentos atribuídos por ele a Jesus:
- “Não deis o que é santo aos cães, nem atireis pérolas aos porcos” (Mt. 7:6), e
- “Obrigado, Pai, por revelar estas coisas aos pequeninos (humildes) escondendo-as dos sábios” (Mt. 11:25).
O importante mesmo, neste texto evangélico, é notarmos que do primeiro homem (Adão, criado simples e ignorante), ao último homem, Jesus (o Alfa e o Ômega, o modelo a ser seguido pela humanidade, o Filho do Homem ou produto mais perfeito a que chegou a Humanidade), encontramos ricos e pobres, reis e plebeus, virtuosos e pecadores, justos e injustos, damas e meretrizes, senhores e escravos, como a indicar a “escada de Jacob” que leva a criatura da ignorância à sabedoria, da simplicidade ao virtuosismo e ao Amor de um verdadeiro e digno do nome de “filho de Deus”.
Afinal, se passarmos à uma interpretação dos nomes dos Hebreus citados na genealogia de Mateus, chegaremos à conclusão de que, embora mais sucinta, é também ela portadora de belíssima lição, pois começa com Abraão (ABRAHAM), que significa “pai da multidão”, tal qual Adão também o é; além disso, se dividirmos este nome em A-BRAHM teremos o radical de BRAHMA, o deus dos hindus, e se o dividirmos em AB-RHAM teremos o significado de PAI RHAM, o conhecido deus RÁ dos egípcios.
O segundo grupo de 14 gerações da genealogia fornecida por Mateus é encabeçada por DAVID ou “o bem-amado”, segundo a interpretação literal deste nome; David começou sua história como pastor (de ovelhas) e terminou como rei; simboliza o homem ainda escravo do mundo exterior (instinto e emoções), mas que, mediante grande esforço, se conscientiza de que não é corpo físico (matéria) e, sim, um ser espiritual.
A terceira série de 14 gerações (“cativeiro de Babilônia”) chega já no final da “era de David”, quando este já reinava (sobre seus instintos, numa interpretação mais profunda). É quando o homem, já desperto e consciente de sua situação de espírito em evolução, sente-se cativo em seu corpo físico, a verdadeira “torre de Babel”; sente-se enclausurado tal como um pássaro numa gaiola e passa a buscar e ansiar pela sua liberdade que só virá com o pleno conhecimento de si mesmo, quando ele se tornar no timoneiro de sua jornada evolutiva; aí, então, se libertará de sua prisão e se tornará digno de adentrar na Terra Prometida ou Plano Espiritual, já livre das experiências reencarnatórias. Atingido este degrau, ele poderá afirmar, com verdadeira segurança, “Eu e meu Pai somos Um!” porque viverá eternamente ligado e ungido (Messias) à Divina Presença de Deus Em Si, bússola eterna e roteiro luzidio de sua evolução.
Capítulo 11
Completados os oito dias para ser circuncidado o menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido no ventre de sua mãe.
Quando se completaram os dias da purificação segundo a lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor, (como está escrito na lei do Senhor:
- “Todo primogênito macho será consagrado ao Senhor”), e para oferecer um sacrifício, segundo o que está dito na lei do Senhor:
- “Um casal de rolas ou dois pombinhos”.
Havia em Jerusalém um homem chamado Simeão, homem esse justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel, e estava sobre ele um espírito santo, pelo qual espírito santo lhe fora revelado que não morreria antes de ver o Cristo do Senhor.
E com o espírito foi ao templo; e quando os pais trouxeram o menino Jesus, para fazer por este o que a lei ordenava, Simeão tomou-o nos seus braços e louvou a Deus, dizendo:
- “Agora tu, Senhor, despede em paz teu escravo, segundo tua palavra, porque meus olhos já viram a salvação que preparaste ante a face de todos os povos; luz para revelação aos gentios, e glória de teu povo de Israel”.
Seu pai e sua mãe maravilharam-se do que dele se dizia. E Simeão os abençoou e disse a Maria, mãe do menino:
- “Este é posto para queda e levantamento de muitos em Israel, e para sinal de contradição, (e também uma espada traspassará tua própria alma), para que os pensamentos de muitos corações sejam revelados”.
Havia também uma profetisa, de nome Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser (era ela de idade avançada, tendo vivido com seu marido sete anos, desde a sua virgindade) viúva de oitenta e quatro anos, que não deixava o templo, mas adorava noite e dia em jejum e orações. Esta, chegando na mesma hora, deu graças a Deus e falou a respeito do menino a todos os que esperavam o resgate de Jerusalém.
Quando se tinham cumprido todos os preceitos de acordo com a lei do Senhor, regressaram para a Galiléia, para a sua cidade de Nazaré.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Lucas, 2:21-39).
Vemos neste passo a preocupação de Lucas em fornecer informações detalhadas sobre os primeiros dias de Jesus na carne; de fato, é o único evangelista que pesquisou mais detidamente a infância do Mestre. Interessante notar que em suas anotações Lucas afirma peremptoriamente que “completados os oito dias para ser circuncidado o menino, deram-lhe o nome de Jesus”; portanto, Lucas não garante que ele tenha, de fato, sido circuncidado, apenas diz que por aquela época é que lhe deram o nome de Jesus. Em meio a tantos detalhes da vida do Mestre no início de Sua encarnação na Terra, Lucas acrescenta que deram-lhe o nome de Jesus, conforme instruções anteriores do “anjo” antes que fosse concebido no ventre de sua mãe. E aqui está mais uma pérola de grande valor oculta àqueles que não têm olhos de ver e que percebem apenas a letra que mata, em detrimento do espírito que vivifica, no dizer de Paulo. De fato, o apóstolo dos gentios afirma que Jesus é apenas o nosso irmão mais velho, ou seja, “o primogênito entre muitos irmãos” (Rom. 8:29), e Lucas, grande discípulo do apóstolo da gentilidade, sendo ele próprio, Lucas, gentio (estrangeiro) por ser grego de nascimento, deixa claro a existência dos espíritos antes mesmo de serem gerados no ventre de suas mães, esclarecendo, para os que gostam de enxergar, a existência da vida antes do nascimento em um corpo físico; e a ressurreição de Jesus completa a lição, revelando também a vida depois da morte do corpo físico, deixando claro que a vida como espírito encarnado é apenas uma das muitas estações que o espírito percorre em sua viagem evolutiva.
Porém, a circuncisão, palavra que significa “cortar em redor” traz em si, também, um grande ensinamento, pois indica que aqueles que já se encontram “despertos” para a vida espiritual (antigamente dizia-se que a criança recém-nascida abria os olhos no oitavo dia), têm necessidade de “cortar em redor” de si todas as excrecências e todo apego às coisas passageiras e ilusórias; é necessário destacar-se de todas as pré-ocupações que nublam nosso contato íntimo com a Divina Presença em nossos corações; é preciso que aprendamos a ter como se não tivéssemos, possuir sem ser possuído, usar como de empréstimo, gerir como em mordomia, utilizar como administrador que prestará contas, tendo sempre em mente que “nada trouxemos para este mundo e, sem dúvida, nada dele podemos levar” (1 Tm. 6:7).
Os dias da purificação, referida por Lucas, é a famosa “quarentena”, ou seja, os quarenta dias seguintes ao parto. Diz assim o texto bíblico: “todo macho que abrir a vulva será chamado santo para o Senhor” (Êx. 13:2 e 12), daí a necessidade da apresentação de Jesus ao templo, para cumprir a lei do Antigo Testamento. Porém, o que nos traz esta passagem simples e poética? Traz-nos, sem sombra de dúvida, a certeza de que o nascimento de Jesus foi um nascimento normal, como qualquer outro, não havendo a virgindade nem durante e nem após o parto, como querem alguns; de outra forma, Maria estaria dispensada das exigências da lei.
Após o despertamento da criatura para com a realidade da Divina Presença Em Si, a Centelha Divina, que habita em seu coração, (no oitavo dia, isto é, após um ciclo completo de 7) há a circuncisão (“cortar ao redor” de si todos os apegos e desejos possessivos e egoístas) e, depois, a “purificação” de todas as coisas inservíveis que se acumularam à sua aura durante as suas muitas reencarnações até chegar a este ponto; só então o “novo homem”, a “nova personalidade recém-nascida” poderá ser “apresentada” ao Senhor e a Ele consagrada como o “filho primogênito” do Cristo Interno ou Divina Presença que habita em cada um de nós e nos induz, mesmo inconscientemente, à evolução espiritual para nos tornarmos, realmente, “filhos” de Deus. Esta apresentação do novo “Filho do Homem” ou substrato mais íntimo e perfeito da Humanidade, ao Entheos (En=interno; Theos=Deus) é acompanhado de uma oferta simbólica (um casal de rolas ou de dois pombos jovens, para os pobres, ou, um cordeiro, para os ricos -conf. Lev. 12:8), ou seja, sua parte animal, instintiva, que deve ser sacrificada e oferecida como exaltação à sua Divina Presença; tudo isto se dá no Templo Íntimo do homem desperto, ou seja, no santuário (Templo) do seu coração (Jerusalém=Cidade da Paz) onde habita o Cristo Interno, o Entheos ou Divina Presença; a partir deste momento ele se torna um nazireu (vide Núm. 6) ou “consagrado” ao Senhor. Daí por diante o homem, mesmo encarnado, passa a viver no espírito, pelo espírito e para o espírito por toda a infinita eternidade que o aguarda nos tempos do porvir.
Em seguida o evangelista fala a respeito de um certo Simeão que tinha sobre ele (incorporado mediunicamente a ele) um espírito bom ou santo que lhe revelou que não desencarnaria sem ver o Cristo de Deus, que se manifestaria plenamente em Jesus. E diz: “e com o espírito foi ao templo”, ou, em outras palavras, “o espírito foi nele para o templo”, isto é, foi ao templo “impelido” pelo espírito que o acompanhava. E, sob a atuação deste espírito, entoa um belíssimo cântico dizendo-se escravo da Divina Presença que nele habitava e que em Jesus haveria de se manifestar com muito maior plenitude por ser Ele um espírito infinitamente mais evoluído; depois faz profecias sobre o que deveria acontecer ao menino e sua mãe. A evolução de Simeão é revelada no texto bíblico quando o evangelista lhe situa como “de idade provecta”, assim também como à profetisa (médium) Ana que aparece em seguida na cena da apresentação do menino ao templo; esta vivia em jejuns e orações (como um nazireu), era de idade provecta (era evoluída, desperta espiritualmente). Era médium (profetisa) e percebeu de pronto a identidade de quem ali se encontrava (Jesus) e passa a pregar a todos o aparecimento d’Aquele que haveria de manifestar plenamente o Cristo Interno ou Divina Presença em todos os seus pensamentos, sentimentos, palavras e ações, e que fora tão ansiosamente aguardado pelo povo sofredor (alusão às personalidades que viveram na treva da ignorância, mas que aguardavam ansiosamente pela Luz Crística Em Si).
Interessante, também, observar o significado dos números neste passo evangélico: Ana, a profetisa, representa a “intuição” que estivera “casada” (com o “intelecto”) por sete anos (um ciclo completo) desde a sua virgindade (antes de sua “iluminação”), e depois enviuvara (apartara-se do “intelecto” ou “personalidade” e voltara-se para o seu “interior” à procura da Divina Presença Em Si). Ana, a “intuição”, quando “conheceu” o Cristo (Divina Presença), tinha oitenta e quatro anos, isto é, “doze” períodos de “sete” anos; não deixava o templo (onde habita a Divina Presença), mas adorava noite e dia em jejum e orações (esforçava-se “dia” e “noite” para manter o contato interno com o Cristo-Íntimo).
Lucas finaliza a narração deste passo dizendo que, após a apresentação do menino Jesus no templo em Jerusalém, os pais retornaram a Galiléia e à sua cidade de Nazaré.
12
A visita dos magos
Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia no tempo do rei Herodes, vieram do oriente alguns magos a Jerusalém, perguntando:
- "Onde está o recém-nascido Rei dos Judeus? Porque vimos seu astro no oriente e viemos adorá-lo".
O rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e com ele toda Jerusalém. E convocando todos os principais sacerdotes, os escribas (e os anciãos) do povo, perguntava-lhes onde havia de nascer o Cristo. E eles lhe disseram:
- "Em Belém da Judéia, porque assim está escrito pelo profeta: E tu Belém, terra de Judá, não és de modo algum o menor entre os lugares principais de Judá, porque de ti sairá um condutor que há de pastorear meu povo de Israel".
Então Herodes chamou secretamente os magos e deles indagou com precisão o tempo em que o astro havia aparecido. E enviando-os a Belém, disse-lhes:
- "Ide informar-vos cuidadosamente acerca do menino, e quando o tiverdes encontrado, avisai-me para que eu também vá adorá-lo".
Os magos, depois de ouvirem o rei, partiram; e eis que o astro que viram no oriente os guiou até que, vindo, parou sobre o lugar onde estava o menino. Ao avistarem o astro, ficaram grandemente alegres. E entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe; e prostrando-se o adoraram; e abrindo seus cofres, fizeram-lhe ofertas de ouro, incenso e mirra. E recebendo (eles) a resposta no sono, que não voltassem a Herodes, seguiram por outro caminho para sua terra.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Mateus, 2:1-12).
Comentário:
Vimos no capítulo anterior a narrativa de Lucas e Mateus sobre os primeiros dias de Jesus na carne e podemos perceber que há várias discordâncias e muitas omissões nos fatos narrados pelos dois evangelistas. Vejamos, sucintamente, algumas delas:
1. Lucas e Mateus concordam com o nascimento em Belém, porém, Lucas relata o retorno imediato à sua residência em Nazaré logo após a quarentena de Maria e a apresentação de Jesus ao templo. Mateus situa a ida a Nazaré bem mais tarde, após a fuga e o retorno do Egito.
2. Mateus ignora a homenagem dos pastores ao Menino Jesus; a circuncisão; a purificação de Maria; a apresentação do menino ao templo; e o encontro deste com os dois profetas: Simeão e Ana.
3. Lucas ignora ou omite em sua narrativa a homenagem dos reis magos ao menino Jesus; o massacre das crianças ordenado por Herodes; e a fuga para o Egito.
Se a fonte de Lucas foi Maria, como explicar a omissão de fatos tão importantes? E por que Mateus teria ignorado a homenagem dos pastores ao menino Jesus? Isto só pode ser explicado se considerarmos que cada evangelista tinha o seu próprio esquema que visava transmitir a mensagem de como alcançar a Comunhão Íntima com Deus (Divina Presença) dentro de nossos próprios corações, e a ele se manteve fiel, sendo, para eles, a transmissão dessa mensagem muito mais importante do que a simples transliteração dos fatos históricos acontecidos na vida de Jesus. Mateus busca atingir o seu objetivo detendo-se na narração de alguns fatos que julgou importantes para transmitir a mensagem que pretendia, e Lucas buscou na narração de outros fatos transmitir a mensagem a que se propunha e, se formos interpretar particularmente os fatos narrados por cada um desses evangelistas, veremos que os dois atingiram o seu objetivo: Mateus conduz o seu leitor por caminhos mais acidentados e sofridos (magos, massacre, fuga), e Lucas por caminhos mais tranqüilos, celestiais e místicos (anjos, leis, templo, profetas).
Mergulhemos um pouco mais profundamente na análise dos fatos narrados pelos dois evangelistas. Observemos que, para Mateus, Jesus nasceu em Belém e aí ficou até a posterior fuga para o Egito, não havendo a viagem de Jesus com seus pais para Jerusalém, para apresentação ao templo, conforme preceituava a lei Mosaica. Porém, Mateus oferece importantes informações ao declarar que Jesus nasceu "no tempo do rei Herodes", o qual veio a falecer no início do ano 4 a. C.
Os magos eram sábios que a tradição popular elevou à categoria de "reis". Segundo os historiadores gregos Heródoto e Xenofonte, eram altos sacerdotes que se ocupavam principalmente de medicina, astronomia (astrologia) e ciências divinatórias. Existem exegetas que consideram que eles vieram da Pérsia, outros, por terem sido astrólogos, julgam mais provável que tenham vindo da Caldéia. Porém, para a Palestina, a Mesopotâmia (Pérsia e Caldéia) ficava ao norte, e, ao "oriente", ficava a Arábia; os presentes que trouxeram também atestam que vieram da Arábia: Isaías (60:10) cita o ouro e o incenso de Sabá; Jeremias (6:20) fala do incenso da Arábia; a mirra (resina do Balsamodendron) também provinha da Arábia. Alguns Pais da Igreja que viveram na Palestina, como Justino, Orígenes e Epifânio, também supunham que os magos teriam vindo da Arábia, embora outros Pais da Igreja acreditaram terem eles vindo da Pérsia.
Quanto ao número (3?) e seus nomes, são desconhecidos. Foi Beda (escritor inglês, 673 a 735 d. C.) quem os chamou de Gaspar, Melchior e Baltazar. A tradição da igreja latina os limita a três por causa dos presentes, mas nas igrejas sírias e armênias julga-se que eram doze; porém, tudo não passa de conjecturas.
Também não há segurança quanto à data da chegada desses magos; como procuravam por um recém-nascido, deduz-se que se trata de menos de um ano a partir do nascimento de Jesus; a ordem de Herodes, mandando sacrificar todas as crianças de 2 anos para baixo também faz supor a mesma coisa.
Quanto ao "astro" que os magos haviam visto no "oriente", temos algumas observações importantes a fazer; alguns julgam tratar-se de um cometa, o que não é possível pois os cometas não desaparecem para reaparecer mais tarde. Um astrônomo alemão de nome Kepler observou, em 1.603, uma conjunção de Júpiter ("Deus Pai") com Saturno ("Avançado em dias"; "evoluído"; "virgem" ou "virginal") no mês de dezembro. Logo a seguir, na primavera, Marte aproximou-se desses dois planetas e, posteriormente, no outono, surgiu uma estrela nova, "de grande brilho" (Centelha de Luz/Cristo), entre esses três planetas. Kepler supôs que o mesmo fato teria ocorrido na época do nascimento de Jesus, fez extensos cálculos matemáticos e concluiu, depois de exaustivos estudos, que no ano 747 de Roma (ano 7 a. C.) Júpiter e Saturno se reuniram na constelação de Peixes (lembremo-nos de que, nessa época, a Terra estava a sair da constelação de Áries para entrar na constelação de Peixes, como agora está saindo da constelação de Peixes para entrar na constelação de Aquário, recuando sempre de um signo a cada dois mil anos. Recordemos ainda que o símbolo bíblico na época de Abraão a Jesus era o "cordeiro", e, a partir de Jesus passou a ser o "peixe", freqüentemente utilizado pelos primeiros cristãos para identificar-se). Portanto, na constelação de Peixes, veio unir-se a Júpiter e Saturno o planeta Marte na primavera de 748 de Roma (6 a. C.). Para um estudo ainda mais minucioso, recomendamos que se leia a obra de Kepler, intitulada Opera Omnia, Frankfurt, 1.858, tomo 4, pág. 346 e seguintes.
É de conhecimento geral entre os estudiosos dos povos antigos que os caldeus eram muito bons astrônomos, tanto que sobre eles escreveu Cícero (De Divinatione, I, 19): "Os caldeus observam os sinais do céu, anotam os cursos das estrelas com seus números e movimentos... e possuem em seus registros observações seguidas durante 470.000 anos". E Diodoro de Sicília (II, 31) atesta que esses registros tinham 473.000 anos seguidos. É muito fácil agora, depois de todas essas informações, concluir que os magos, vindos de suas terras longínquas, sabiam que essa conjunção astral revelava o nascimento de um grande Ser, o Rei dos judeus, não lhes sendo difícil localizar o Seu nascimento na Palestina, porque Peixes era justamente o símbolo peculiar àquele país. Em maio do ano 747 de Roma (ano 7 a. C.) os magos, alertados por aquela primeira conjunção astral, prepararam-se para aquela longa viagem até a Palestina, devendo ter chegado a Jerusalém nos primeiros meses do ano de 748. E exatamente de março a maio desse ano, aos dois planetas Júpiter e Saturno uniram-se Marte, Vênus (a "estrela da manhã", que simboliza o "amanhecer" de uma nova era, a Era de Peixes) Mercúrio e o Sol, o que fez os magos "reencontrarem" o "astro do Messias" ao saírem de Jerusalém. Fica, então, como época mais provável para o nascimento de Jesus o ano 747 de Roma, ou seja, o ano 7 antes da era cristã.
Segundo a interpretação usual, os presentes dos magos representam: o ouro, o reconhecimento de Sua realeza; o incenso, o reconhecimento de Sua divindade; e a mirra o reconhecimento de Sua humanidade. Logo após as homenagens ao Rei (espiritual) nascido em terras da Judéia ("louvor", "culto exterior"), os magos recolheram-se e consultaram os oráculos (realizaram uma sessão mediúnica), "e recebendo a resposta" do espírito a quem haviam consultado no sono (ou transe?) para não voltar a Herodes, resolveram regressar à sua terra por outro caminho, o que fez com que Herodes mandasse sacrificar as crianças.
13
Fuga para o Egito
Depois de haverem partido, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, dizendo:
- "Levanta-te, toma contigo o menino e sua mãe, e foge para o Egito, e fica aí até que eu te chame; pois Herodes há de procurar o menino para matá-lo".
José levantou-se, tomou de noite o menino e sua mãe e partiu para o Egito, e ali ficou até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que dissera o Senhor pelo profeta:
- "Do Egito chamei a meu filho".
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Mateus, 2:13-15).
Comentário:
Mateus, diferentemente de Lucas, traça no roteiro dos primeiros anos da vida de Jesus na carne uma viagem ao Egito. E, simplesmente, afirma que José, tal qual os reis magos, encontrou-se em sonhos com um "anjo" (mensageiro) do Senhor que ordenou-lhe tomar o menino e sua mãe e fugir para o Egito a fim de livrar-se daqueles que procurariam matá-lo. Fenômenos mediúnicos à parte é interessante notar como um homem rude como José, que era carpinteiro de profissão, deu crédito aos seus sonhos e, ainda de noite, acordou a mulher e o filho e pôs-se a caminho de uma terra distante. Quantos hoje em dia fariam o mesmo? E quantos, ao tomarem a mesma atitude de José, não seriam chamados de loucos? Bem, se José não tivesse dado crédito aos seus sonhos, muito provavelmente o menino Jesus teria sido morto ainda no berço e o mundo não teria conhecido o Mestre de Nazaré.
O Egito distava cerca de 250 milhas de Belém da Judéia e esta distância era percorrida em 6 dias de viagem, a maior parte deste trecho era percorrido em terras desérticas.
Já no Antigo Testamento, alguns personagens bíblicos se refugiaram no Egito: Jeroboatão, que pretendia o trono do rei Salomão; Jeremias, o profeta; Onias IV, fundador do templo israelita de Leontópolis; e muitos outros, fizeram o mesmo.
É interessante, também, observar que Mateus não fornece nenhuma informação sobre as condições que José, Maria e o menino percorreram um caminho tão longo e inóspito, porém, alguns evangelhos tidos como "apócrifos" oferecem alguns comentários sobre o trajeto: Pseudo-Mateus, cap. 18 a 24; pseudo-Tomé, texto latino, cap. 1; Evangelho Árabe da Infância, cap. 10 a 25. Não se sabe o local exato onde se hospedaram Jesus e seus pais no Egito, uma tradição copta afirma terem habitado no Cairo, a capital do Egito; porém, nada de certo há nisto. É muito estranho que Lucas não tenha narrado a ida de Jesus para o Egito, pois se até os evangelhos apócrifos narram esta passagem e se a maior informante de Lucas foi a mãe de Jesus...
Mateus afirma que Jesus e seus pais ficaram no Egito até a morte de Herodes; a história nos informa que Herodes faleceu sete dias antes da páscoa judaica (março-abril do ano 4 a. C.), ou, mais precisamente, no ano 750 de Roma. Como sabemos que Jesus nasceu no ano 747 de Roma, ou ano 7 antes de nossa era, chamada cristã; se Herodes faleceu no ano 750 de Roma (4 a. C.) e se Jesus, Maria e José, como informa o evangelista, viveram no Egito até a morte de Herodes, presume-se que Jesus teria vivido no Egito por cerca de 3 anos, informação que coincide com alguns evangelhos apócrifos, como o pseudo-Tomé, texto latino, cap. 4; pseudo-Mateus, cap. 26; Evangelho Árabe da Infância, cap. 25 e 26.
A frase a que Mateus faz referência: "Do Egito chamei meu filho", encontra-se no texto hebraico de Oséas (11:1).
É muito comum no Evangelho de Jesus Cristo Segundo Mateus as citações de textos e versículos do Antigo Testamento, pois o principal objetivo desse apóstolo do Mestre era convencer os judeus a respeito de Jesus, isto é, queria ele provar aos seus conterrâneos, mediante várias citações do texto antigo da lei, que Jesus era o Messias tão esperado pelo povo; porém, essas citações nem sempre são fiéis ao texto original, palavra por palavra... Muitas vezes ele faz uso apenas do "sentido" das palavras do Antigo Testamento, modificando o texto original, fato aliás comum, porém com menos incidência, também nos outros evangelistas quando citam textualmente versículos do Antigo Testamento. São Jerônimo, in Patrologia Latina, vol. 22, col. 576, diz que "eles procuravam o sentido, não as palavras" e "não cuidavam da ordem e das palavras, quando as coisas eram compreensíveis".
Alguns teólogos modernos são contra as citações de versículos bíblicos isoladamente, alegando que esses versículos necessitam ser analisados no contexto bíblico; esquecem-se eles de que os próprios evangelistas citavam, anotavam e comentavam os versículos destacando-os do contexto bíblico e esclarecendo o seu real sentido à luz das novas interpretações.
14
A morte dos inocentes
Herodes, vendo-se iludido pelos magos, ficou irado, e mandou matar todos os meninos em Belém e em todo o seu termo, de dois anos para baixo, conforme o tempo que tinha com precisão indagado dos magos.
Então cumpriu-se o que foi dito pelo profeta Jeremias:
- "Ouviu-se um clamor em Ramá, choro e grande lamento: Raquel chorando a seus filhos, e não querendo ser consolada porque eles se foram".
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Mateus, 2:16-18).
Comentário:
Vemos, na seqüência de nossos estudos, que o rei Herodes cansou de esperar pelo retorno dos magos e resolveu ele mesmo "encontrar" o menino e matá-lo, ainda que para isso precisasse matar junto com Ele todas as crianças de sua mesma idade; e, para que o menino não escapasse do prematuro martírio, aumentou em alguns meses a idade que deveria ter àquela data e consumou o ato que ficou conhecido na história como "o massacre dos inocentes". Mas... será que eram mesmo inocentes? Não afirmaria Jesus mais tarde que o que matasse pela espada haveria de morrer pela espada?
A grande maioria dos espiritualistas "sabe" que não há acaso no Universo e, muito menos, nos acontecimentos da existência de qualquer pessoa. Diz a lei da física que "a toda ação corresponde uma reação" e, portanto, até mesmo a ciência hodierna sabe que no Universo não existem "acasos".
Mas... se não existem "acasos" e nem "injustiças" no Universo e, muito menos, na existência de qualquer pessoa, como se dá o controle das "ações" que geram "reações"? Bom, Jesus afirmou que "a cada um será dado de acordo com suas obras" e "não cai uma folha de uma árvore sem que o Pai o permita" e, ainda, "todos os fios de cabelos de vossas cabeças estão contados"; portanto, podemos concluir que o controle de nossas ações é bem criterioso.
Existe uma lei, chamada "Lei de Causa e Efeito", que funciona automaticamente dando "a cada um de acordo com suas obras"; por isso não é possível, como afirmou Jesus, "colher-se uvas de espinheiros, nem espinhos de videiras". Esta lei também está escrita no Antigo Testamento (Êx. 21:23-25), onde é conhecida por "Lei de Talião", e diz: "vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe". Na verdade, o massacre dos inocentes estava previsto pela Lei de Causa e Efeito que se cumpriu naquele momento da vida na carne de alguns espíritos que estavam em débito com ela.
Mas, quantas eram essas crianças que sucumbiram diante da dureza de coração do rei Herodes? E por que João Batista, apenas 6 meses mais velho que Jesus não foi vítima deste massacre? É isto que veremos agora.
Existem alguns cálculos estatísticos que asseguram que não foram muito mais do que 20 crianças. E o que fizeram essas crianças para merecerem tão horrendo castigo? Algumas revelações espirituais indicam que essas crianças eram a reencarnação dos homens que, obedecendo ordens de Elias, degolaram os 450 sacerdotes de Baal junto à torre de Kishon (I Reis, 18:40 e 19:1). Já dissemos, em capítulos anteriores, que João Batista foi a reencarnação do profeta Elias; e Elias, o autor intelectual da chacina dos sacerdotes de Baal, também morreria degolado, ou melhor, decapitado, só que em idade adulta, com plena consciência do seu martírio e, portanto, com muito maior sofrimento do que as crianças que, mesmo sem terem "consciência" do que ocorria, não escaparam à espada pela sua participação, embora menor, na escandalosa chacina dos sacerdotes de Baal.
Como bem afirmou Jesus: "o escândalo é necessário, mas ai daquele por quem o escândalo vier", porque se torna "devedor" da Lei de Causa e Efeito e "a lei não passará até que se pague o último ceitil"...
E o rei Herodes, era tão cruel assim? Segundo a história, Herodes mandou assassinar seu genro, seus filhos Alexandre e Aristóbulo, sua esposa Mariana e, pouco antes de sua morte (apenas 7 dias) mandou assassinar outro filho seu, Herodes Antípater, para que este não lhe herdasse o trono. E, para se certificar de que haveria lágrimas no seu funeral, deixou uma ordem para que, no dia de sua morte, assassinassem no anfiteatro de Jericó todos os homens mais notáveis da cidade... Mas, este espírito, que reencarnou naquela época como rei Herodes, muito sofreu e se redimiu em reencarnações posteriores, chegando a ser um herói da fé e da caridade que o mundo venera sob o nome de São Vicente de Paulo (conforme revelação do espírito Irmão X pelo médium Francisco Cândido Xavier).
É a Lei de Causa e Efeito, lavando nossas imperfeições e curando nossas chagas espirituais... Louvado seja o Criador que nos destinou a todos à perfeição!
A frase de Jeremias (31:15) é uma livre citação de Mateus que "força" uma relação entre um fato e outro, mas que, em verdade, nada tem a ver com o chamado "massacre dos inocentes".
15
Regresso do Egito
Mas, tendo morrido Herodes, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, dizendo:
- "Levanta-te, toma contigo o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel, pois já morreram os que procuravam tirar a vida do menino".
Levantando-se, tomou o menino e sua mãe e voltou para a terra de Israel. Tendo ouvido, porém, que Arquelau reinava na Judéia, em lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá; e avisado em sonhos, retirou-se para os lados da Galiléia, e foi morar numa cidade chamada Nazaré, para cumprir o que foi dito pelos profetas:
- "Ele será chamado nazoreu".
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Mateus, 2:19-23).
Comentário:
Vemos, aqui, que após três anos vivendo no Egito, juntamente com sua família, José ainda continuava fazendo uso de sua mediunidade onírica para conduzir-se na vida. É, então, avisado em "sonho" (transe mediúnico?) por um "anjo" (espírito desencarnado que lhe traz uma mensagem) que Herodes havia morrido e lhe ordenara que voltasse à terra de Israel.
José, como sempre, obedece sem fazer perguntas e, segundo Mateus, intenta voltar à cidade de Belém de Judá. Por que Belém? Por que, para Mateus, Belém era o local onde nasceram, cresceram e viveram José e Maria até o dia em que tiveram que fugir para o Egito com o menino Jesus. É flagrante, neste passo evangélico, a discordância entre os evangelistas Mateus e Lucas, pois, para Lucas, José e Maria já viviam em Nazaré antes da gravidez de Maria e, para Mateus, somente após a volta do Egito é que eles "resolvem" ir para a Galiléia residir numa cidade chamada "Nazaré". Mateus apresenta este detalhe como um fato novo, para ele a cidade era até então desconhecida de ambos (José e Maria), e apresenta até uma justificativa para irem habitar numa cidade estranha: "para cumprir o que foi dito pelos profetas: ele será chamado nazoreu"; observemos que ele não diz "nazareno" e, sim, "nazoreu". Mas, o que é "nazoreu"? Nazoreu ou nazireu significa "consagrado a Deus", conf. Núm., capítulo 6.
Antes de ir para Nazaré, José "ouviu dizer" que Arquelau reinava na Judéia, em lugar de seu pai Herodes; José temeu ir para lá porque Arquelau mandara matar 3.000 judeus por terem estes se oposto ao seu reinado. O historiador Josefo (Ant. Jud. XVII, 9, 1) informa que, à morte de Herodes, tinha Arquelau 18 anos e os judeus se opuseram à sua escolha para reinar; revoltado por não terem deposto o sumo-sacerdote Joasar, em represália, mandou matar 3.000 judeus. José, temeroso em ir morar na Judéia, na sua cidade de Belém (segundo Mateus), recorre mais uma vez à sua mediunidade onírica e é instruído a ir "para os lados da Galiléia", a uma cidade chamada Nazaré. É interessante notar que, de acordo com a narrativa de Mateus, Maria e José, até este momento, não conheciam Nazaré. A palavra "nazareno" é utilizada quatro vezes por Marcos e duas vezes por Lucas; Mateus emprega duas vezes "nazoreu", Lucas a emprega uma vez, João a emprega três vezes, e em Atos dos Apóstolos, também escrito por Lucas, a encontramos sete vezes.
Por volta do ano 60 d. C., os cristãos eram chamados "nazoreus" (At. 24:5). O Talmud denomina Jesus o NOZRI, e chama os cristãos NOZRIM, palavras que derivam da raiz "NASRAT" que significa "consagrado" (a Deus).
Quanto à profecia citada por Mateus como justificativa bíblica para transferirem sua residência de Belém para Nazaré: "ele será chamado nazoreu", verificamos que, segundo os mais competentes exegetas e estudiosos da lei antiga, não há nenhuma profecia que diga que o Messias seria chamado "nazareno" ou "nazoreu". Em Isaías (11:1) existe uma frase que diz: "do tronco de Jessé sairá um rebento, e de suas raízes sairá um renovo (renovo=nezêr) que frutificará. E o espírito de YHWH se deterá nele".
Como Mateus apresentou, em sua genealogia, a Jesus como o último rebento (o renovo), talvez tenha elaborado essa aproximação e a colocado em seu texto indicando que Jesus, além de "nazoreu" (consagrado a Deus) era também o "renovo" (reformador) da fé judaica; porém, essa evidente "manipulação" de expressões e profecias do A. T., freqüentemente utilizada por Mateus para convencer os judeus de que Jesus era o Messias ("Ungido") prometido, não deixa de ser um tanto forçada...
Aprofundemos um tanto mais a interpretação deste texto, além do véu da letra, e veremos que depois de viver algum tempo no isolamento próprio daqueles que galgaram as "alturas" espirituais, intransponíveis para todos aqueles que ainda vivem na "personalidade", o "homem novo" ou "Individualidade" que efetuou a sua ligação íntima com o Deus-Interno, necessita voltar à sua "terra", para o convívio com os seus "parentes", ou seja, necessita voltar às suas atividades diárias a fim de colocar em prática tudo o que aprendeu com o seu Mestre-Interno. Porém, o convívio com a massa ignorante e materialista, representada na simbologia bíblica com o termo "Judéia", ou seja, "aqueles que adoram a Deus com ritos e cultos exteriores" e que possuem um "rei" terrível, simbolizado por Arquelau (arché + laós = "chefe do povo"), ainda não é aconselhável a quem não esteja suficientemente maduro e firme nos novos propósitos. Por isso, o "intelecto" (simbolizado por José) resolve ir para a "Galiléia" (jardim fechado; horto florido) e fixa residência em "Nazaré" (lugar sagrado) onde considera ser mais seguro a si e à sua família (Maria=intuição e o filho=homem novo).
A vida de oração e meditação, sintonizados com a Divindade que habita em seu coração (Galiléia), junto ao Pai que está em "secreto" no lugar mais sagrado (Nazaré) de si mesmo, é a principal característica de todos aqueles que efetuaram a re-ligação e o contato íntimo com Deus-Em-Si.
16
Visita ao templo
E o menino crescia e fortificava-se, enchendo-se de sabedoria, e a benevolência de Deus estava sobre ele.
Seus pais iam anualmente a Jerusalém, pela festa da Páscoa. Quando o menino tinha doze anos, subiram eles, conforme o costume da festa; e findos os dias da festa, ao regressarem, ficou o menino Jesus em Jerusalém, sem que o soubessem seus pais. Mas estes, julgando que ele estivesse entre os companheiros de viagem, andaram caminho de um dia, procurando-o entre os parentes e conhecidos; e não no achando, regressaram a Jerusalém à procura dele.
Três dias depois o encontraram no Templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os; e todos os que o ouviam, muito se admiravam de sua inteligência e de suas respostas.
Logo que seus pais o viram, ficaram surpreendidos, e sua mãe perguntou-lhe:
- "Filho, por que procedeste assim conosco? Teu pai e eu te procuramos aflitos".
Ele lhes respondeu:
- "Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devia estar no que é de meu Pai?".
Eles, porém, não compreenderam as palavras que ele dizia. Então desceu com eles e foi para Nazaré e estava-lhes sujeito. Mas sua mãe guardava todas essas coisas em seu coração. E Jesus progredia em sabedoria, em maturidade e em benevolência (amor) diante de Deus e dos homens.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Lucas, 2:40-52).
Comentário:
Voltando a comentar o Evangelho de Jesus Cristo Segundo Lucas, vemos que este evangelista não faz qualquer citação à visita dos magos com suas ofertas ao menino Jesus, à fuga para o Egito, ao massacre dos inocentes e ao regresso do Egito. Para Lucas, estas passagens narradas por Mateus simplesmente não aconteceram, pois ele as ignora completamente.
Mateus, como já vimos, coloca a residência de José e Maria em Nazaré somente após o retorno do Egito, quando Jesus já tinha por volta de 3 anos de idade; e Lucas coloca José e Maria no cenário nazareno já desde a concepção por ocasião da visita do "anjo" Gabriel à virgem Maria.
Um detalhe também interessante é o fato de Lucas narrar que o menino Jesus "crescia e fortificava-se" desenvolvendo-se, concomitantemente, também em sabedoria; isto quer dizer que Jesus desenvolvia-se intelectualmente à medida que crescia, não era possuidor de sabedoria total infusa, mas a adquiria aos poucos à medida que crescia. Alguns autores de gabarito, como Cirilo de Jerusalém (Patrol. Graeca, vol. 75, col. 1332) e Tomás de Aquino (Summa Theologica, III, 9. XII, a. 2) também pensavam desta maneira, e sustentavam a opinião de que como "homem" (personalidade humana) Jesus progrediu segundo leis naturais, crescendo seu conhecimento concomitantemente com o corpo.
Segundo a lei mosaica (Êx. 23:14-17; 34:23 e Deut. 16:16), todos os homens que chegassem à puberdade deveriam visitar o templo de Jerusalém três vezes por ano: na Páscoa, no Pentecostes e na festa dos Tabernáculos; porém, a puberdade só chegava, naquele tempo, aos quinze anos, quando o homem se tornava realmente "israelita" ou "bar mishevâh" (filho do preceito). Esta obrigação não incluía as mulheres e Jesus, aos doze anos, ainda não estava obrigado ao preceito.
Jesus, possuidor de grande inteligência, não era vigiado de perto pelos seus pais que confiavam plenamente nas suas atitudes. A festa da Páscoa tinha a duração de sete dias e, ao final das festividades, seus pais retomaram caminho de um dia para Nazaré sem darem pela falta do menino. Somente quando armaram o acampamento para passarem a noite é que notaram sua ausência e procuraram-no inutilmente entre parentes e conhecidos. Retornaram a Jerusalém e continuaram procurando-o infrutiferamente até que, no terceiro dia, encontraram-No no templo conversando com os mestres e doutores da lei mosaica. Seus pais, tanto quanto seus interlocutores, se admiraram da forma como ele se comportava naquele ambiente, pela inteligência de suas perguntas e perspicácia de suas respostas.
Neste momento, Maria faz a Jesus a única referência a José, narrada nos evangelhos, dando-lhe o título de "pai":
- "Teu pai e eu...".
A resposta de Jesus é incisiva e esclarecedora não permitindo qualquer dúvida sobre sua intenção de questionar a preocupação, para ele indevida, de seus pais terrenos, pois, para ele, era lógico que Ele somente ali deveria estar:
- "Não sabíeis que eu deveria estar..."; e o evangelista não se esquece de alertar que "seus pais" não compreenderam o sentido da resposta que Ele lhes dava, acenando com isto para um significado muito mais profundo do que o véu da letra pode revelar.
E "desceram" novamente para Nazaré, desta vez de "olho" no menino Jesus que já começava a surpreendê-los com suas atitudes; e sua mãe "memorizava" tudo isto em seu coração. E Jesus continuava progredindo em sabedoria (intelectualmente), em maturidade (psíquica e emocional) e em benevolência/amor (moral/espiritualmente) diante de Deus e dos homens.
Tentemos agora uma interpretação mais profunda deste texto que já é bastante claro: José, nome que significa "Deus acrescenta", era da casa de David, que significa "o Amado"; ora, o que Deus acrescenta ao amado (Sua Criação) é, no gênero humano, o "intelecto", que o diferencia dos outros animais; José, então, para nós, significará "o intelecto". Maria, esposa de José, simboliza a "intuição" por estar ligada (esposa) ao intelecto (José). O intelecto e a intuição "sobem" (vibratoriamente) a Jerusalém (que significa "Cidade da Paz"); transportam-se, portanto, do plano material e penetram vibratoriamente no plano espiritual. A Páscoa ("passagem" de um plano a outro) dura sete dias (7 é um número perfeito que simboliza um ciclo completo) e, no retorno à sua casa (ocupações do mundo físico, material), percebem que "perderam" o contato com o Cristo Interno (Divina Presença) e passam a procurá-Lo entre parentes e conhecidos (exteriormente, em rituais ou cultos externos; ou, internamente, em outro órgão do corpo físico), mas não O encontram. Retornam a Jerusalém (sobem vibratoriamente à Paz no reino do Espírito) e, após três dias (depois de algum tempo) o encontram no templo (lugar sagrado).
A idade de Jesus (12 anos) tem a ver também com os doze signos do zodíaco ou doze eras solares (carneiro, peixes, aquário, etc), cada era é composta de 2.150 anos; o Cristo Interno (Divina Presença), portanto, já havia percorrido meio ano solar (uma volta completa do Sol pelas doze casas zodiacais), ou 6 meses solares (seis significa uma etapa anterior a um ciclo completo). Quando seus pais (intelecto/intuição) o encontram conversando de "igual para igual" com os mestres e doutores (que também ainda não estão prontos, pois eram "iguais", ou seja, também faltava-lhes uma etapa para atingir o ciclo completo), a intuição o repreende por não tê-la acompanhado aos interesses mundanos e reclama da dificuldade que teve para reencontrá-Lo, mas Sua resposta é esclarecedora:
- "Onde mais deveria estar, senão no lugar mais sagrado de ti mesma, tratando dos interesses de meu Pai?".
Portanto, a idade de Jesus nesta passagem é apenas simbólica significando uma etapa anterior ao início de Sua missão como "Canal" da "Divina Presença de Deus-Em-Si" quando Ele conversava com os principais doutores (versados) da Lei (de Deus) de "igual para igual"; a partir do próximo passo evangélico já encontraremos Jesus no início de Sua missão pública, quando completou-se o ciclo e Ele já estava definitivamente preparado para desempenhar o Seu papel divino entre os homens.
17
Ministério do precursor
No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, Herodes tetrarca da Galiléia, seu irmão Filipe tetrarca da região da Ituréia e Traconites, e Lisânias tetrarca de Abilene, sendo sumos sacerdotes Anás e Caifás, veio a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto.
Ele percorreu toda a circunvizinhança do Jordão, pregando o mergulho da reforma mental para a rejeição dos erros, como está escrito no livro das palavras de Isaías:
- "Voz do que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas; todo o vale será aterrado e todo o monte e outeiro será arrasado, os caminhos tortos far-se-ão direitos e os escabrosos, planos, e todo homem verá a salvação de Deus".
(Evangelho de Jesus Cristo Segundo Lucas, 3:1-6).
Naqueles dias apareceu João Batista pregando no deserto da Judéia:
- "Reformai vosso pensamento, porque se aproxima de vós o reino dos céus".
Porque é a João que se refere o que foi dito pelo profeta Isaías:
- "Voz do que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas".
Ora, o mesmo João usava uma veste de pêlo de camelo e uma correia em volta da cintura; e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.
Então ia ter com ele o povo de Jerusalém, de toda a Judéia e de toda a circunvizinhança do Jordão. E eram por ele mergulhados no rio Jordão, confessando seus erros.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Mateus, 3:1-6).
Princípio da Boa-Nova de Jesus Cristo.
Conforme está escrito no profeta Isaías:
- "Eis aí envio o meu anjo ante a tua face, que há de preparar o teu caminho. Voz do que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas" -apareceu João Batista no deserto, pregando o mergulho da reforma mental para a rejeição dos erros.
E saíam a ter com ele toda a terra da Judéia e todos os moradores de Jerusalém, e eram por ele mergulhados no rio Jordão, confessando seus erros. Ora, João usava uma veste de pêlo de camelo e uma correia em volta da cintura, e comia gafanhotos e mel silvestre.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Marcos, 1:1-6).
Comentário:
Analisando estes passos evangélicos acima transcritos, verificamos que Lucas esclarece que aquilo que ele narraria em seguida dar-se-ia no 15º ano do reinado de Tibério César. Ora, Tibério assumiu o título de "César" e começou de fato a "reinar" no dia 19 de agosto de 767 de Roma, ou seja, no ano 14 de nossa era. Como já sabemos que Jesus nasceu no ano 7 a. C., se somarmos 7 a 14, teremos 21, que era a idade que Jesus tinha quando Tibério assumiu o reinado de Roma; portanto, "no décimo-quinto ano do reinado de Tibério César" Jesus tinha exatamente 36 anos de idade; devemos considerar também a possibilidade de Jesus ter, à esta época, 35 anos, pois, como o ano na Síria era contado a partir de 1º de outubro, é provável que tenham considerado como primeiro ano do reinado de Tibério César o período de 19/08/0014 a 01/10/0014, pouco mais de um mês e meio; porém, era assim a contagem de tempo naquela época. Basta ver o caso de Jesus que foi martirizado na Sexta feira e no Domingo de Páscoa, bem cedinho, já não estava mais no túmulo, e a tradição diz que ressuscitou no terceiro dia. Segundo esta contagem de tempo, que é muito mais correta do que a contagem oficial que diz que ele foi crucificado aos 33 anos, atual, Jesus teria morrido com 37 ou 38 anos de idade, no ano 783 de Roma (ano 30 de nossa era que erra em sete anos o ano do nascimento de Jesus).
Vejamos, agora, a questão do "batismo" pregado por João. Conforme já vimos na "Introdução" deste trabalho, a palavra "batismo" é homônima da palavra "mergulho", isto é, estas duas palavras têm o mesmo significado. João não pregava um batismo (ou "mergulho") de "arrependimento", como trazem algumas traduções, e, sim, um batismo de "reforma mental", pois a palavra grega "metánoia", geralmente traduzida por "arrependimento", tem o sentido muito mais amplo e preciso de "reforma mental" (metá e nous), ou, "mudança na maneira de pensar"; não é, portanto, simplesmente um arrependimento no sentido de "chorar o mal que praticou", mas a "modificação radical dos pensamentos", da mente e do comportamento: uma autêntica "reforma" íntima ou mental.
Mas, por que um "mergulho" no rio Jordão poderia significar esta reforma mental com conseqüente mudança de comportamento? Bem, em primeiro lugar, o "mergulho" nas águas não deixa de ser um "banho" e os judeus adotavam os "banhos de purificação" ou "ablução" em três ocasiões:
1-) Em caso de lepra (Lev. 15:1-33);
2-) Após as relações sexuais (Lev. 15:1-33); e
3-) Após tocar em um cadáver (Lev. 11:24-27).
Eram muito populares também, à época de Jesus, os "batismos" de iniciação dos "gentios" (estrangeiros) pagãos convertidos ao judaísmo (Rito de Hillel); os Essênios, escola religiosa à qual muitos exegetas dizem haver pertencido João Batista e Jesus, também adotavam o "mergulho" para "iniciação" de novos membros. Porém, a encarnação de Jesus na Terra marcou a entrada do Sol no sígno de Peixes e inaugurou a Era de Peixes para a humanidade terrena; neste sentido, seus seguidores "mergulhavam" na água como fazem os peixes para simbolizar a mudança mental que neles ocorria, deixando o sacrifício do "cordeiro"(símbolo da era anterior, a de áries, que durou desde Abraão até João Batista) para agradar a Deus com sacrifícios e cultos exteriores, para adentrar na Era de Peixes, oferecendo-se a si mesmos (os vícios e paixões próprios de sua parte animal) como sacrifício agradável a Deus: era esta a "reforma íntima ou mental" que o batismo de João propunha.
João vivera no deserto, retirado entre os essênios dos quais guarda as características, inclusive o hábito de "iniciar" pela água. "Veio a João a palavra de Deus", isto é, veio-lhe a inspiração do Alto. Apenas para simplificar a questão, economizando linhas, vamos classificar o homem em três partes principais:
1-) A "Centelha" (que chamamos "Divina Presença Em Nós"), de substância Divina, que habita, vivifica e ilumina a todas as criaturas e coisas existentes no Universo criado);
2-) O "Espírito", criado pela Centelha, a essência mais íntima de tudo o que existe no Universo criado, aquilo que é "habitado, vivificado e iluminado" pela Centelha;
3-) A "Personalidade" física e transitória... Assim como o "Espírito" é filho da Centelha (Jesus a chamava "Pai"), a "Personalidade" é filha do Espírito enquanto este está sujeito à chamada "Roda da Reencarnação", ou seja, enquanto este ainda é "filho de mulher", conforme dizia Jesus.
Assim, temos que o "Alto" da personalidade é o espírito, e o "Alto" do espírito é a Centelha Divina; portanto, "veio a João (personalidade do espírito encarnado) a palavra de Deus (Centelha/Divina Presença/Pai) por inspiração do "Alto" (espírito, que está jungido permanente e eternamente à Centelha).
Importante, também, observar que Mateus (e somente Mateus) emprega constantemente a palavra "reino dos céus" (31 vezes que nos demais evangelistas aparece como "reino de Deus". Ambas as expressões se equivalem, isto é, têm o mesmo significado. Acontece que o "nome de Deus" (YHWH, uma abreviação que significa "Aquele que foi, é, e será" ou seja, "o Eterno", que Jesus chamava de "Pai" porque é na Centelha que a Criação se origina, sustém e existe, e que nós chamamos "Divina Presença") era um nome "impronunciável" entre os judeus, inclusive um dos dez mandamentos mosaicos ordena "não tomar o Seu santo nome (YHWH) em vão"; como Mateus escrevia para os judeus, com a intenção de "provar" que Jesus era o Messias ("Ungido") anunciado pelo Antigo Testamento, ele evitava esta palavra (YHWH/o Eterno/Deus), substituindo-a por "céus", o que, no final das contas dá no mesmo, porque tanto "Deus" (YHWH/Pai/Centelha/Divina Presença) como os "céus" representam o "Alto" de cada um de nós.
A profecia citada neste passo evangélico é de Isaías (40:3); Lucas se alonga um pouco mais e transcreve Isaías 40:3-5, porém, omite a primeira parte do versículo 5, que diz:
- "E a glória de YHWH (Divina Presença) se manifestará e toda carne (todo homem) juntamente o verá (testemunhará)".
Marcos se "engana" e cita no versículo 2 deste passo de seu evangelho, sob o nome de Isaías, o texto de Malaquias (3:1) que revela ser João a reencarnação de Elias e, depois, emenda a citação de Isaías. A descrição das vestes de João Batista descrevem exatamente o traje habitual de Elias, conforme se pode ver em II Reis, 1:7-8; os essênios também se vestiam e se alimentavam da mesma forma e tinham por hábito não cortar o cabelo nem a barba, de acordo com os "nazireus" (Núm. 6) consagrados a Deus.
A palavra do "Alto" (Deus-Íntimo) que vem a João (personalidade do espírito encarnado) é para que "iniciasse" os que já estavam prontos para adentrarem na Nova Era (Peixes, na época) através de um "mergulho" nas águas do rio Jordão, que simbolizava, na verdade, um "mergulho" em si próprios para que modificassem a anterior maneira de agir na Era que findava a fim de viverem em consonância com a Nova Era que iniciava.
18
Instruções de João Batista
Mas vendo João que muitos fariseus e saduceus vinham ao seu mergulho, disse-lhes:
- "Geração de víboras, quem vos recomendou que fugísseis da ira vindoura? Dai, pois, frutos dignos de vossa reforma mental. E não queirais dizer dentro de vós mesmos: 'Temos como pai a Abraão'; porque vos declaro que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores; toda a árvore, pois que não dá bom fruto, é cortada e lançada ao fogo".
(Evangelho de Jesus Cristo Segundo Mateus, 3:7-10).
Dizia, então, às multidões que saíam para ser mergulhadas por ele:
- "Geração de víboras, quem vos recomendou que fugísseis da ira vindoura? Dai, pois, frutos dignos de vossa reforma mental e não comeceis a dizer dentro de vós: 'Temos como pai a Abraão'; porque vos declaro que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores: toda árvore, pois, que não dá bom fruto, é cortada e lançada ao fogo".
Perguntava-lhe o povo:
- "Que havemos então de fazer?".
Respondeu-lhes:
- "Aquele que tem duas túnicas, dê uma ao que não tem; e aquele que tem comida, faça o mesmo".
Foram também publicanos para serem mergulhados e perguntaram-lhe:
- "Mestre, que havemos de fazer?".
Respondeu ele:
- "Não cobreis mais do que aquilo que vos está prescrito".
Perguntaram-lhe também uns soldados:
- "E nós, que havemos de fazer?".
Respondeu-lhes:
- "A ninguém façais violência, nem deis denúncia falsa; e contentai-vos com o vosso soldo".
(Evangelho de Jesus Cristo Segundo Lucas, 3:7-14).
Comentário:
Observemos que a frase que Lucas afirma ter sido dita "às multidões", Mateus, mais específico, assegura ter sido dita aos fariseus e saduceus; notemos que os essênios, terceiro grupo religioso do panorama judaico e ao qual muitos afirmam ter João pertencido, não é citado por ele. Mas, quem eram, afinal, os fariseus e os saduceus? Façamos um breve resumo:
a-) Fariseus: O historiador Josefo (Bell. Jud. 2, 8, 14; e Ant. Jud. 13, 5, 9 e 13, 10, 5-6; 17, 2, 4 e 18, 1, 2 e 4) e também a Mishna (conf, Schürer, Gestichte des Jüdischen Volkes, 2, págs. 384-388. Leipzig, 1.898) nos informam a respeito desta seita que, à época de Jesus possuía cerca de seis mil seguidores. Seu nome primitivo parece ter sido hassidim (os piedosos), mas entre si se tratavam como haberim (os companheiros). Os adversários os chamavam depreciativamente "fariseus" (pherusin) que significa "os separados". Tratava-se da separação das coisas e pessoas "impuras", ou seja, dos pagãos e dos judeus infiéis, que não davam muita importância às observâncias legais.
Além de obedecer rigorosamente à Torah (o pentateuco mosaico), seguiam à risca a Mishna (tradição selecionada pelos escribas, compreendendo tanto a tradição jurídica (halacha) quanto a histórica (hagada). Quanto às suas crença, acreditavam:
• Na sobrevivência dos espíritos após a morte, tanto dos bons quanto dos maus;
• Na ressurreição (ou seja, na reencarnação) dos justos, segundo as idéias de Platão; mas só os bons reencarnavam em novos corpos, conforme lemos em Josefo (Bell. Jud., 2, 8, 14) que era fariseu: "as almas são imortais; as almas dos justos passam, depois desta vida, em outros corpos, e as dos maus sofrem tormentos que duram sempre";
• No livre-arbítrio, embora não total, mas limitado pelo "destino" em certos pontos.
A separação, levada ao exagero, tornou os fariseus um grupo antipatizado. Além disso, tendo perdido a sinceridade inicial e cedendo às fraquezas humanas, levaram a observância às coisas externas, muito atentos a que fossem vistos e aplaudidos pelos homens. Daí terem passado à história como protótipos dos que dão valor apenas às exterioridades, sem nenhum aprofundamento, e como sinônimo de hipócritas (esta palavra significa literalmente "ator", ou seja, aquele que representa ser o que não é (crites=escondido; hipo=debaixo de uma personalidade que não é a sua). Com efeito, além das 613 prescrições do código "mosaico", havia numerosas outras tradições que escravizavam os fariseus. Vários tratados do Talmud e o 6º seder, assim como o último, intitulado Teharôth da Mishna, compreendendo 12 tratados, enumeram as "infrações" possíveis. O receio de errar paralisava-lhes o espírito, e a religião tornava-se mesquinho formalismo. O homem passava a julgar-se um justo por suas próprias forças, obra de suas mãos, porque jejuavam às segundas e quintas-feiras e cumpriam a lei... Isso os levava à presunção, ao amor próprio, ao orgulho, fomentando de fato a hipocrisia, por se julgarem muito melhores e superiores aos outros.
b-) Saduceus: Seu nome é provavelmente originário de Sadoc, sumo sacerdote da época de David (2º Sam. 8:17). Mais partido político do que religioso, era constituído de personagens importantes, influentes e não muito numerosos, que organizaram, em 200 A. C., um senado (gerousía), que tinha autoridade sobre toda a nação. Um século depois, sob Alexandre (77-68 a. C.), os fariseus conseguiram introduzir-se nesse conselho, que passou a denominar-se "Sinédrio". Os fariseus opunham-se aos saduceus porque estes acatavam com subserviência as dominações estrangeiras, desde que não perdessem sua influência política; porque só aceitavam a lei escrita, recusando as tradições; porque não admitiam a sobrevivência do espírito, nem os anjos, ensinando que a alma morria com o corpo (Josefo, Bell. Jud., 2, 8, 14 e Ant. Jud. 18, 1, 4); porque ridicularizavam os rituais tão queridos aos fariseus, embora fossem mais rigorosos que eles nos julgamentos, exigindo pena do talião, para mostrar-se inflexíveis no cumprimento da lei.
Lucas era gentio (estrangeiro), grego de nascimento, e não conhecia bem as tradições judaicas, o que não acontecia com Mateus que, além de conhecer bem essas tradições por ser judeu, dedicou o seu evangelho justamente aos seus conterrâneos, por isso ele esclareceu com propriedade que aquelas palavras de João Batista eram dirigidas aos dois grupos religiosos dominantes na época.
João os denomina "geração (filhos) de víboras" e alerta que sua condição de "filhos" (descendentes) de Abraão não os livraria da "ira vindoura" (conseqüências de suas ações, pela Lei de Causa e Efeito) e exorta-os a produzirem bons frutos (obras dignas) que testifiquem a sua "reforma mental", deixando claro que o simples "arrependimento" com "lágrimas e palavras" ditas "da boca para fora" de nada lhes adiantaria. Mas, por que "filhos de víboras"? Porque, arraigados à lei antiga, eram "filhos do pecado de Adão e Eva" e, portanto, filhos da "serpente" que "enganou" Eva, levando-a a cometer o "pecado" da desobediência a YHWH culminando na expulsão dos dois (intelecto e intuição) do Paraíso (convívio consciente com a Divina Presença Em Si). Como "víboras" (filhos da "Serpente") estavam "condenados" a morder o calcanhar da mulher ("filhos de mulher", segundo Jesus) e ter suas cabeças (lembranças de vidas anteriores) esmagadas por ela e sua descendência; nem mesmo sua condição de "filhos de Abraão" os livraria desse carma. Vamos explicar melhor: os "filhos de Abraão" são aqueles que ainda estavam vibratoriamente identificados à "Era de Áries", imediatamente anterior à Era de Peixes, cujo símbolo era o sacrifício do "cordeiro", ou seja, estavam ainda arraigados aos cultos e sacrifícios "externos" para agradar a Deus; não estavam aptos ainda à "reforma mental" exigida para adentrarem na "Era de Peixes", que Jesus veio inaugurar tendo João como precursor, cujo preceito máximo é o sacrifício de si mesmo como "culto" interno para agradar a Deus (YHWH/Centelha ou Divina Presença em nossos corações).
Então, os fariseus e saduceus (descendentes da serpente) eram os "religiosos" da época e João, como precursor de Jesus, inaugurava o tempo dos "descendentes da mulher (intuição)" que haveriam de "esmagar a cabeça" dos "filhos da serpente", muito embora haveriam de ser mordidos por elas em seus calcanhares, ou seja, estavam ainda sujeitos à Lei da Reencarnação. E o próprio Jesus atesta isto quando diz:
- "Dos filhos de mulher, nenhum é maior do que João Batista, mas o menor no reino de Deus é maior do que ele"; isto porque João, embora já fosse "filho de mulher", ainda estava preso à Lei de Causa e Efeito por haver mandado decapitar cerca de 400 sacerdotes de Baal quando estava reencarnado como Elias, o tesbita, por isso, como João Batista, ele também foi decapitado ("Quem com ferro fere, com ferro será ferido" –Jesus). É claro que quem ainda tem contas a saldar com a "lei" ainda não entrou no "reino de Deus" (é necessário estar com as vestes brancas, livre de qualquer carma a ser depurado, para entrar no "reino de Deus"), isto é, ainda não se "uniu" à essência Divina em seu íntimo mais íntimo ("Eu e o Pai somos Um" –Jesus).
Quem conhece a senda da evolução espiritual não se admira de João haver dito "destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão", e, de fato, suscita. Abraham significa: Ab=Pai, Rham=multidão; Abraham, portanto, significa "pai da multidão". E todo ser humano (filho do "pai da multidão") já passou, na fieira eterna da evolução espiritual, pelo reino mineral, entre outros.
"Toda árvore, pois, que não dá bom fruto, é cortada e lançada ao fogo" da purificação; este "fogo" é a Lei de Causa e Efeito que obriga à criatura "sofrer" as conseqüências de suas ações. Este é o "fogo purificador" com o qual Jesus batiza (inicia); é por isto que Jesus disse que não veio trazer "paz" à Terra, pois veio "convencer" às criaturas a se "sujeitarem" às conseqüências de suas ações nefastas que os tornou devedores perante a Lei de Causa e Efeito, com o sacrifício de si mesmos, ao invés de fugir dela escondendo-se atrás de sacrifícios e cultos "exteriores" (Era de Áries) para agradar a Deus e abrandar sua ira (Lei). É por isso que se diz que no "inferno" (que significa "região inferior") tem fogo; porém o inferno ou "vale de lágrimas onde há choro e ranger de dentes" é aqui mesmo, na Terra, ou em outros mundos tão inferiores quanto ela.
A essência da pregação de João pode ser comparada com Is. 58:7, que diz:
- "Dividir o pão com o faminto, abrigar os pobres sem teto, vestir os nus, não furtar-se aos deveres diante dos irmãos".
É na prática do "Amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo" que a criatura resgata seus débitos perante a "Lei" e avança da Era de Áries (culto exterior) para a Era de Peixes (sacrifício de si mesmo). É este, portanto, o convite que Jesus, o Mestre de todos os mestres, veio fazer a todos os homens da Terra há dois mil anos passados... A Era de Aquário (posterior à de Peixes) já se faz visível no horizonte planetário, porém, poucos dos que se dizem realmente cristãos estão aptos a adentrá-la.
19
Anúncio do Messias
Estando o povo na expectativa e discorrendo todos em seus corações a respeito de João, se porventura não seria ele o Cristo, disse João a todos:
- "Eu na verdade vos mergulho com água, mas vem aquele que é mais poderoso que eu, e não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias: ele vos mergulhará no Espírito santo e no fogo: a sua pá ele a tem na sua mão para limpar sua eira e recolher o trigo no seu celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível".
Assim, pois, com muitas outras exortações, anunciava a Boa Nova ao povo.
(Evangelho de Jesus Cristo Segundo Lucas, 3:15-18).
- "Eu na verdade vos mergulho em água para a reforma mental; mas aquele que há de vir depois de mim é mais poderoso do que eu, e não sou digno de levar-lhe as sandálias; ele vos mergulhará no Espírito santo e no fogo; a sua pá ele a tem na sua mão e limpará bem a sua eira; e recolherá seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível".
(Evangelho de Jesus Cristo Segundo Mateus, 3:11-12).
E ele pregava:
- "Depois de mim vem aquele que é mais poderoso que eu, diante do qual não sou digno de abaixar-me para desatar-lhe a correia das sandálias. Eu vos mergulhei na água, mas ele vos mergulhará no Espírito santo".
(Evangelho de Jesus Cristo Segundo Marcos, 1:7-8).
Comentário:
Este passo evangélico nos fala de coisas verdadeiramente maravilhosas; vamos por etapas.
Lucas informa o "motivo" das explicações de João: é que o povo aguardava ansiosamente a vinda do Messias que, segundo se esperava, haveria de libertar os judeus do jugo romano. João, então, passa a fazer uma síntese de sua missão e a fornecer algumas das características d’Aquele que "viria" após ele. Realmente, no plano histórico, Jesus "veio" após João, pois este é seis meses mais velho (encarnou primeiro) do que Jesus; em Jo. 1:15-18, o Batista dá o seu primeiro testemunho sobre o seu primo, Jesus Cristo:
- "Eis aquele de quem eu dizia: O que vem depois de mim é maior do que eu, porque existia antes de mim. De sua plenitude (Crística) todos nós recebemos, e graça por graça (como dom de Deus), porque a lei (de talião) foi dada por Moisés ("olho por olho, dente por dente"), mas a graça (Dom que nos permite ser um com o Cristo, como o Cristo é Um com Deus) e verdade (de sermos "filhos" do Deus Interno/Centelha ou Divina Presença) vieram por Jesus (o que manifestou o) Cristo. Ninguém jamais viu Deus. O Filho Unigênito (a Centelha) que está no seio do Pai (no caso, o "Pai" da Centelha é o "Verbo" que promana de Deus) é que O revelou (através da personalidade física encarnada de Jesus)".
Neste passo, João confirma aquele primeiro testemunho a respeito de Jesus e, mais uma vez, reconhece a superioridade (maior) de seu primo Jesus:
- "Aquele que há de vir depois de mim é mais poderoso que eu, diante do qual não sou digno de abaixar-me para desatar-lhe a correia das sandálias"; e confirma o que ele mesmo, João, disse através do êxtase de Isabel quando ainda estava no ventre de sua mãe e recebeu a visita de Maria:
- "Apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança deu saltos no ventre dela, e Isabel ficou cheia de um espírito santo (um bom espírito; o próprio João), e exclamou em alta voz (como em uma incorporação mediúnica): "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre!" (Lc. 1:41-42).
João explica que sua "missão" é "mergulhar na água para reforma mental" (iniciar os que já se encontram preparados a entrar na Era de Peixes), mas o que viria após ele, maior e mais poderoso do que ele porque já existia "antes" dele (portanto, muito mais evoluído espiritualmente do que ele) mergulharia no Espírito santo e no fogo (os tornaria aptos a adentrar na Era de Aquário, a Era do Espírito). João exclama que "ele tem a pá na sua mão e limpará bem a sua eira; e recolherá seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível".
Muito bem, antes de nos aprofundarmos um pouco mais em nossos estudos, vamos esclarecer alguns ângulos para que a compreensão do evangelho (boa nova) não fique prejudicada: É correto afirmar: "Sidarta Gautama, o Buda"; Buda significa "o desperto; o acordado; o iluminado pela mente vigilante". E Jesus é o Messias (o "Ungido") que manifestou plenamente em Si (em seu interior) o Cristo (a Centelha ou Divina Presença) com o qual Ele é Um. Então, é correto também afirmar: "Jesus, o Cristo", que significa : "Jesus, o que manifestou plenamente o Cristo em si"; pois todos nós trazemos dentro de nós o Cristo, mas ainda não conseguimos manifestá-Lo plenamente, como o fez Jesus, devido às nossas imperfeições morais e espirituais.
Esclarecido isto, concluímos que o Verbo (Vibração Original de natureza Divina) teve Sua origem em Deus (o Imanifestado); o Verbo (Som, Respiração, Pulsação ou Vibração Divina) é "Pai" da Luz (Centelha), pois é n’Ele que a Divina Presença tem Sua origem e se expande criando todo o Universo físico, material, manifestado; a Centelha é, portanto, por Sua vez, "Pai" de toda a Criação, pois a Centelha "é a Luz que ilumina e vivifica a todo homem", sendo, segundo o Evangelho de João, a própria "Vida" na qual todos nós existimos: a "Centelha" é o Espírito (que está na essência) santo que a tudo empresta vida com Sua Divina Presença. Para que isto possa ser melhor compreendido, vamos repassar:
- No aspecto Divino, o Ser Imanifestado é o primeiro aspecto d’Aquilo cujo conjunto conhecemos por "Deus", é, neste sentido, o "Pai" do "Verbo" (Vibração Original que gera a Vida), segundo aspecto ou "Filho Unigênito" (Única Emanação) do Ser Imanifestado que é, portanto, Seu "Pai"; o terceiro aspécto de Deus é o "Espírito Santo" ou "Vida", que a tudo ilumina, vivifica, santifica e diviniza com Sua Divina Presença na essência de todos os seres da Criação.
No aspecto físico da Criação, ou seja, no Universo manifestado pela tríade Divina, a "Centelha" é "Pai" do espírito, pois que este é gerado n’Ela (por isso muitas religiões do mundo adoram a Deus em Sua forma feminina, como os hindus por exemplo, entre outros); o "Filho" é o espírito que n’Ela tem a sua origem e, em termos de conjunto, é unigênito, porque todos são criados à sua imagem e semelhança, em condições de igualdade, embora, em termos de "Individualidade" não o seja; o "Espírito Santo" são os "Espíritos" que já se santificaram na União Íntima com o Único Santo, Deus, ou seja, a Divina Presença em sua própria essência.
Aí está, portanto, esclarecida a questão da "Santíssima Trindade" ou dos "Três Aspectos" Divinos tanto em Sua origem (Deus), quanto no Universo material (Criação): são dois níveis de entendimento desta questão tão controversa e mal explicada pelas religiões vigentes. Para exemplificarmos, vamos colocar, no nível Divino, a seguinte comparação: o "Pai" ou primeiro aspecto da Santíssima Trindade seria o "Pensador"; o "Filho" ou Logos, o "Verbo" ou segundo aspecto da Santíssima Trindade, por ser uma "Emanação" do primeiro aspecto, seria "O Pensamento"; e o "Espírito Santo" ou terceiro aspecto da Santíssima Trindade", a Vida onde tudo "existe", a Centelha Divina ou Divina Presença, em seu conjunto, seria "O Ser Pensado". Desta forma, compreendemos que a "dualidade" Jesus/Cristo traz a pá em Sua mão, pois é o "dono" da Terra comparada a uma "eira" (Jesus, o "dono" do planeta Terra; o Cristo, dono do "corpo" físico da Terra ou "substância material" do Universo; por isso se diz na Bíblia que o homem foi feito do "barro da terra". Eira é uma extensão de terreno liso e duro onde se colocam os cereais para "debulhá-los" e "limpá-los"; este planeta é uma "eira" onde a palha (os vícios, os erros e paixões) é separada do trigo (as boas ações). Num sentido ainda mais profundo, a "palha" são as "personalidades" que são "queimadas" no sofrimento para que de seu "interior" saia o "trigo", o espírito em sua essência mais íntima para que este seja "mergulhado" no fogo crístico e passe a ser Um com Ele.
João, neste passo, representa a personalidade; por isso ele mergulha na água (reencarna na matéria) a fim de promover uma "reforma mental" em seu espírito. Jesus representa o Espírito na sua essência mais íntima (pura), a Individualidade surgida na comunhão deste com Deus-Em-Si; por isso Ele mergulha no Espírito Santo e no fogo (mergulha o "espírito" na parte mais sagrada ou "santa" de si mesmo, a Divina Presença).
A Era de Peixes, que simbolizou o "sacrifício das personalidades", teve em João o seu precursor e em Jesus (a personalidade física da Individualidade em comunhão íntima com Deus) o seu iniciador, foi um intróito para a Era de Aquário, a Era do Espírito ou da "Individualidade" unida ao "Pai", a época em que o Espírito há de mergulhar no Cristo Íntimo e ser "Um" com Ele!
Todos aqueles que anseiam pela sua união íntima com o Pai na intimidade do seu coração necessita passar pela reencarnação (mergulho na água) a fim de promover a uma "reforma mental" em seu espírito para, posteriormente, poder mergulhar no fogo (da purificação espiritual) e, consequentemente, no Espírito Santo (ou Deus-Em-Si).
20
Respostas de João
Este é o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas, para perguntar-lhe:
- "Quem és tu?".
Ele confessou e não negou, e confessou:
- "Eu não sou o Cristo".
Perguntaram-lhe eles:
- "Quem és então? És tu Elias?".
Ele respondeu:
- "Não sou".
- "És tu o Profeta?".
Respondeu:
- "Não".
Disseram-lhe pois:
- "Quem és? Para que possamos dar resposta aos que nos enviaram. Que pensas de ti mesmo?".
Ele replicou:
- "Eu sou a voz do que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor" -como disse o profeta Isaías.
Ora, eles tinham sido enviados pelos fariseus. Perguntaram-lhe também:
- "Por que então mergulhas se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o Profeta?".
Respondeu-lhes João:
- "Eu mergulho na água; no meio de vós está quem vós não conheceis, aquele que vem depois de mim, ao qual não sou digno de desatar a correia das sandálias".
Isto passou-se em Betânia, além do Jordão, onde João estava mergulhando.
(Evangelho de Jesus Cristo Segundo João, 1:19-28).
Comentário:
No capítulo anterior vimos as explicações que João Batista dá ao "povo" resumindo o teor de sua missão; agora vemos, narrado por João Evangelista, que fora discípulo do Batista, que houve uma "delegação oficial" composta por sacerdotes (saduceus, que representavam a autoridade) e levitas (o clero encarregado da polícia do templo de Jerusalém) que foi à presença de João, tendo o evangelista como uma das testemunhas oculares, pedir-lhe satisfações sobre o seu procedimento. João, o evangelista, provavelmente presenciou a visita desta "comitiva oficial" ao Batista, e narrou este acontecimento na sua versão do Evangelho.
A "delegação" enviada pelo Sinédrio foi logo perguntando: -"Quem és tu?"; nesta pergunta subentendia-se o que realmente queriam perguntar: "És o Cristo?". Em seguida, interrogam: - "És tu Elias?"; e depois arrematam com a terceira inquirição: - "És tu o Profeta?". Portanto, a comitiva oficial enviada pelo Sinédrio queria saber:
1-) Se João era o Cristo.
2-) Se João era Elias.
3-) Se João era o Profeta.
Isto porque os judeus aguardavam pela vinda (no caso de Elias, a volta) destes personagens. A vinda do Messias (o "Ungido", significa "aquele que manifesta em si o Cristo) já estava profetizada desde Gênesis 3:15; mas para que o Cristo viesse era preciso que antes ocorresse a "volta" de Elias ("eis que envio meu mensageiro, ele há de preparar o caminho diante de mim" –Mal. 3:1; e "eis que vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor; ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais" –Mal. 4:5-6). Se João não era o Cristo, o Sinédrio queria saber se ele era Elias (o que confirma a crença na reencarnação), pois isto revelaria que estava próxima a vinda do Senhor; diante das negativas de João, perguntam, então, se não seria ele o Profeta ("Iahweh, teu deus, suscitar-te-á do meio de ti (povo), dentre teus irmãos, um Profeta igual a mim (Moisés): escutai-o" –Deut. 18:15); João nega ser esse Profeta que, posteriormente, Pedro (Atos, 3:22), Estêvão (Atos, 7:37) e o próprio povo judeu (João, 6:14 e 7:40) atestam ser Jesus (a Individualidade unida a Deus-Íntimo) este Profeta.
João responde negativamente às três perguntas do Sinédrio; mas, se o próprio Jesus revela ser João Batista a reencarnação de Elias ("se quereis compreendê-lo, ele mesmo (João) é Elias que tinha que vir" –Mt. 11:14; "declaro-vos que Elias já veio... e os discípulos entenderam que lhes falara a respeito de João Batista" –Mt. 17:11-13 e Mc. 9:13), por que ele o negou? João viveu longo tempo no deserto, como Elias; vestia um manto de pelo de camelo, como Elias; usava um cinto de couro, como Elias; e, o que era bem mais grave, se João não fosse Elias significava, implicitamente, que Jesus também não era o Messias.
Mas, por que teria João negado ser ele Elias? É São Gregório Magno (Homilia VII in Evangelium Patr. Lat. 7. 76, col. 1100) quem responde: "Em outro local (Mt. 11:13-14), sendo o Senhor interrogado pelos discípulos quanto à vinda de Elias, respondeu: Elias já veio, e se quereis sabê-lo é João que é Elias. João, interrogado, diz o contrário: eu não sou Elias... É que João era Elias pelo espírito que o animava, mas ele não era Elias em pessoa (fôra Elias em outra reencarnação, nesta reencarnação não era Elias). O que o Senhor diz do espírito de Elias, João o nega da pessoa (personalidade)". Como vemos, embora o espírito seja o mesmo, a personalidade muda a cada reencarnação; diz a Bíblia: "o homem (a personalidade) morrerá uma só vez" (Heb. 9:27), mas o espírito reencarna vezes sem conta.
Ao final deste passo tão esclarecedor, o evangelista informa que isto se deu em "Betânia" além do Jordão (não era, portanto, a mesma Betânia de Marta e Maria); Orígenes (um dos Pais da Igreja), que conhecia bem aquela região, quis retificar os manuscritos para "Betabara", para conformar a narrativa à realidade mas a tradição conservou "Betânia" além do Jordão. Certamente, o evangelista João também conhecia muito bem aquela região e sabia que "Betânia" não ficava "além" do Jordão... que "além" do Jordão não havia nenhuma "Betânia"... Porém, são justamente esses "passos" que parecem ser incoerentes com a realidade e que lançam muitos à descrença que trazem, "além do véu da letra", um ensinamento muito mais profundo que a "aparência" exterior parece indicar... São esses ensinamentos que estão destinados à compreensão apenas dos que têm "olhos de ver" e "ouvidos de ouvir"... Então João não sabia que Betânia não ficava além do Jordão? Claro que sabia! Interpretemos o significado oculto da parábola e peçamos à Divina Presença em nós que nos ilumine o espírito para que possamos compreender a mensagem oculta, "além do véu da letra", que o evangelista pretendeu transmitir.
Na profecia de Malaquias podemos ver que Jesus é, de fato, a encarnação de YHWH: "Eis que envio meu mensageiro (João), ele há de preparar o caminho diante de mim (YHWH)" -Mal. 3:1.
Muitos interpretam a profecia de Moisés (in Deut. 18:15), "Iahweh, teu deus, suscitar-te-á do meio de ti, dentre teus irmãos, um Profeta igual a mim: escutai-o", como sendo uma indicação de que João Batista e Elias são reencarnações posteriores do mesmo espírito que reencarnou como Moisés devido ao "igual a mim"; realmente, Moisés foi o grande mensageiro de YHWH e João Batista o de Jesus, porém, a aparição dos espíritos de Elias e Moisés a Jesus no monte Tabor, por ocasião da "transfiguração", coloca por terra essa teoria. Entendemos que se o Profeta é o próprio Jesus, como vimos acima, e Jesus simboliza para nós, como temos dito, o Espírito Puro, sem manchas, unido à sua essência divina, esta profecia afirma que Deus (a essência divina jungida a YHWH, a mesma que encarnou em Jesus) fará surgir do meio de nós (de nossa essência), dentre nossos irmãos, ou seja, das personalidades anteriores e posteriores a esta que ora encarnamos, um Profeta (uma encarnação do Espírito Puro desvestido de ego ou personalidade) igual a mim (YHWH/Jesus): escuta-o (segui-o).
Numa interpretação mais profunda desse passo evangélico, devemos levar em conta que:
a-) João representa o intelecto ainda voltado ao exterior de si mesmo ou a personalidade ainda presa à roda da reencarnação (por isso ele é, no dizer de Jesus, "filho de mulher");
b-) O Profeta representa a Individualidade espiritual voltada para dentro de si mesma ("homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás a Deus e o Universo"), unida à própria essência que é Deus;
c-) O Cristo é a Vida, a Luz ou a Divina Presença, nossa essência, onde fomos gerados e existimos.
João, portanto, a personalidade exterior, afirma, com razão, não ser o Cristo nem o Profeta, dizendo:
- "Eu mergulho na água (reencarno); no meio de vós (seres da criação) está quem vós não conheceis (o Cristo Interno, a Divina Presença), aquele que vem depois de mim (aquele que se manifesta depois que a "personalidade" é vencida), ao qual não sou digno de desatar a correia das sandálias (porque a Divina Presença é o terceiro aspecto de Deus e a personalidade é transitória)".
A profecia de Malaquias (4:5-6), "eis que vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor; ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais", significa que o objetivo da reencarnação é "harmonizar" o homem diante da lei de causa e efeito, "convertendo" as reencarnações anteriores às posteriores e as posteriores às anteriores, diante da lei; somente após isto é que a criatura conhecerá o "grande e terrível dia do Senhor", isto é, somente após esta "reforma mental" é que o Cristo Interno se manifestará em nossos corações.
O próprio João Batista, ao término das indagações da comitiva oficial, indignado, revelou aos fariseus do Sinédrio que o "Messias" (o que revela o Cristo Íntimo) já estava no meio (íntimo) deles (criaturas) e que brevemente (após cumpri-se o tempo necessário) se manifestaria.
21
O Mergulho de Jesus
Depois veio Jesus da Galiléia ao Jordão ter com João, para ser mergulhado por ele. Mas João objetava-lhe:
- "Eu é que preciso ser mergulhado por ti, e tu vens a mim?"
Respondeu-lhe Jesus:
- "Deixa por agora; porque assim nos convém cumprir toda a justiça".
Então ele anuiu. E Jesus, tendo mergulhado, saiu logo da água; e eis que se abriram os céus e viu o espírito de Deus descer como pomba sobre ele, e uma voz dos céus disse:
- Este é o meu filho amado, com quem estou satisfeito".
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Mateus, 3:13-17).
Naqueles dias veio Jesus de Nazaré da Galiléia, e foi mergulhado por João no Jordão. Logo ao sair da água, viu os céus se abrirem e o espírito, como pomba, descer sobre ele. E ouviu-se uma voz dos céus:
- "Tu és meu Filho amado, estou satisfeito contigo".
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Marcos, 1:9-11).
Quando todo o povo havia sido mergulhado, tendo sido Jesus também mergulhado, e estando a orar, o céu abriu-se e o espírito santo desceu como pomba sobre ele em forma corpórea, e veio uma voz do céu:
- "Tu és meu Filho amado, estou satisfeito contigo".
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Lucas, 3:21-22).
No dia seguinte, viu João a Jesus que vinha a ele e disse:
- "Eis o Cordeiro de Deus que tira o erro do mundo! Este é o mesmo de quem eu disse: Depois de mim vem um homem, que começou antes de mim, porque existia primeiro que eu; eu não o sabia, mas para que ele fosse manifestado a Israel é que eu vim mergulhar na água".
E João deu testemunho, dizendo:
- "Vi o Espírito descer do céu como pomba e permanecer sobre ele. Eu não o sabia, mas aquele que me enviou para mergulhar na água, disse-me: Aquele sobre quem vires descer o Espírito e ficar sobre ele, esse é o que mergulha num espírito santo".
E eu vi e testifiquei que ele é o Escolhido de Deus.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo João, 1:29-34).
Comentário:
Ensinamentos profundos nesta narração do "mergulho" de Jesus. Alguns exegetas situam este fato no ano 29 (782 de Roma), cerca de dois a três meses antes da Páscoa; Jesus teria, por essa época, perto de 35 anos de idade.
Lucas (3:23) diz:
- "Ora, o mesmo Jesus, ao começar seu ministério, tinha cerca de trinta anos"; porém, esta indicação serve apenas para atestar que Jesus já tinha a "idade legal" (30 anos) para dar início à sua vida pública.
Santo Irineu, in Patrologia Graeca, Vol. 7, col. 783 e seguintes, diz que por ocasião do "batismo" tinha Jesus 30 anos; no início de sua missão, 40 anos; e à sua morte, 50 anos. Baseia-se, como fundamento de suas afirmações, em motivos místicos e em Jo. 8:57. Igrejas orientais comemoram, desde o 4º século, o "mergulho" de Jesus a 6 de janeiro, mesma data em que comemoram a visita dos reis magos (conf. Duchesne, Origenes du culte chrétien, 4ª edição, págs. 263 e 264).
A localidade exata do "mergulho" de Jesus parece ter sido nas cercanias de Jericó, na margem ocidental (direita) do Jordão. Por que Jesus teria passado pelo "mergulho" do Batista? O próprio João, recusando-se de início a fazê-lo, fez-lhe esta pergunta; Jesus respondeu que era necessário para que se cumprisse toda a justiça, ou, melhor dizendo, para que se cumprisse "com justeza" a lei ou as profecias. De fato, o Precursor preparou-lhe o caminho até este momento, daí por diante Jesus começa a sua missão; mas era necessário que o Batista atestasse "com segurança" que era Jesus o Messias, e isto ele o faz após o "mergulho" de Jesus, quando afirma:
- Eu não o sabia, mas aquele que me enviou para mergulhar na água, disse-me: "Aquele sobre quem vires descer o Espírito e ficar sobre ele, esse é o que mergulha num espírito santo".
Portanto, Jesus submeteu-se ao "batismo" de João para que este o identificasse com toda a segurança. Mas, quem é que enviou João para mergulhar na água? Com certeza o próprio Jesus (YHWH) antes do reencarne de João, e se foi antes do nascimento de João vem a provar a pré-existência do espírito antes do nascimento; se aconteceu com João, acontece com todos os homens. Aqui temos, portanto, confirmada a pré-existência da alma.
Mateus, Marcos e Lucas não presenciaram este fato porque não foram discípulos de João; mas registraram em suas anotações que, após o mergulho, desceu "o espírito de Deus", "o espírito", e "o espírito santo", respectivamente, como "pomba", sobre Jesus; e fazem referência a uma "voz do céu" que teria afirmado:
- "Este é meu filho amado, com quem estou satisfeito" (segundo Mateus), ou:
- "Tu és meu Filho amado, estou satisfeito contigo" (segundo Marcos e Lucas).
De quem teria sido esta voz? Por que o chama "filho", indagamos: de "alguém" ainda superior a Jesus? Teria sido a voz de seu "guia" ou "mentor" espiritual? Uma coisa é certa: não foi o Deus-Pai quem disse isto, porque Deus-Absoluto não é antropomórfico, não é uma "figura" com atributos humanos; além do mais, em qual idioma falaria Deus?
A "pomba" sempre simbolizou a "paz". O "espírito" desceu não "como" pomba, mas em "forma" de pomba, isto é, não era uma pomba, mas lembrava a sua forma. O "Espírito" desceu sobre Jesus sem forma (o Espírito puro não possui forma material); no seu movimento de descida era como uma luz que se movimentava, por isso, neste movimento, a luz lembrava uma pomba branca com suas asas abertas. Desceu sobre Jesus e nele permaneceu. João Evangelista, que era discípulo do Batista e deve ter presenciado a cena, não diz nada sobre a "voz" que vinha do céu (ou era a "pomba" que falava?), mas confirma a descida de um "Espírito" sobre Jesus e afirma que foi este o sinal para que o Batista identificasse o Messias.
É lógico que João e Jesus se conheciam, pois Maria e Isabel eram parentes (primas?) e as famílias mantinham laços de intensa amizade. porém, como Jesus esteve fora dos 13 aos 35 anos e João havia se retirado para viver no deserto, é provável que não haviam se visto nos últimos anos. De qualquer forma, parece bastante claro que João, embora conhecesse Jesus (a tradição diz que eram primos), não sabia, ou não tinha certeza absoluta que ele era o Messias, fato que só ficou esclarecido após o "batismo" de Jesus.
No "megulho" de Jesus temos um ensinamento sutil, verdadeiro "alimento" para o espírito, visível aos que têm olhos de ver e audível aos que têm ouvidos de ouvir. Vejamos: temos aqui uma tríade:
• João, a personalidade;
• Jesus, a individualidade ou o espírito na sua essência mais íntima;
• Cristo, a Centelha Divina, Deus-Interno ou Divina Presença em nós.
João mergulha na matéria (a personalidade que reencarna ou mergulha no líquido amniótico); Jesus mergulha no fogo e no espírito santo (a individualidade que se une, torna-se Um, com a Centelha Divina, seu Pai). O "mergulho" na água (matéria) para a "reforma mental" leva à Individualidade ("convém que Ele, a Individualidade, cresça, e que eu, a personalidade, diminua" -João), e o "mergulho" da Individualidade no "fogo" (Deus é Luz) e no espírito santo (só Deus é Santo) leva à Centelha Crística em nós ("Eu e o Pai somos Um" -Jesus).
O Apóstolo Paulo compreendeu muito bem a finalidade deste "mergulho" da personalidade na Individualidade, e da Individualidade em Cristo-Em-Nós, porque escreveu:
- "Todos quantos fostes mergulhados em Cristo, vos revestistes de Cristo" (Gál. 3:27); "não sou mais eu (a personalidade) que vive: é Cristo (Centelha ou Divina Presença) que vive em mim" (Gál. 2:20); "agora Cristo (Divina Presença) será engrandecido em meu corpo (personalidade), quer pela vida, quer pela morte, pois para mim o viver é Cristo, e o morrer (da personalidade) é lucro" (Fil. 1:20-21); "por isso nós, de agora em diante, não conhecemos a ninguém segundo a carne (a personalidade); ainda que tenhamos conhecido a Cristo (a Centelha) segundo a carne (manifestando-se através de uma personalidade, em nós ou em Jesus), agora, contudo, já não O conhecemos (identificamos) desse modo; se alguém está em (jungido a) Cristo, é nova criatura (além da personalidade); passou o que era velho e se fez (se construiu de) novo" (2Cor. 5:16-17); "pois morrestes (na personalidade) e vossa vida está escondida (oculta) com Cristo (Divina Presença) em Deus" (Col. 3:3). E Pedro, na mesma linha de compreensão, aconselha: "santificai Cristo (a Centelha ou Divina Presença, o Deus-Íntimo) em vossos corações" (1Pe. 3:15).
Quem realizou o "mergulho" dentro de si (Personalidade/Individualidade/Centelha), ostenta a "pomba" da "paz" interior em todos os seus pensamentos, sentimentos, palavras e ações, e passa a ser um autêntico "Filho" de Deus, como no dizer de Jesus:
- "Bem aventurados os pacificadores, (Pacificadores=Filhos da Paz), porque serão chamados Filhos de Deus" -Mt. 5:9.
Portanto, o objetivo de todos nós que estamos na carne, vivendo na personalidade exterior, é o mergulho íntimo em nossa essência espiritual, nossa Individualidade jungida ao Cristo de Deus Em-Nós, para que possamos nos revestir de perfeição e exteriorizar em todos os nossos pensamentos, sentimentos, palavras e ações a paz dos justos e o amor dos salvos; este processo dá-se através da "reforma mental" proposta simbolicamente pelo batismo de João, passa pelo batismo no fogo e no espírito santo, proposto por Jesus e termina na nossa "divinização" pessoal e íntima, pois quem é consciente de que o "Divino" habita em si e O manifesta em todos os seus pensamentos, sentimentos, palavras e ações, torna-se "divino" também. É este o real significado da assertiva de Jesus: - "Eu e o Pai somos Um"; e é este também o correto significado do depoimento de Paulo: "Já não sou eu quem vive, mas é o Cristo que vive em mim".
22
Tentação de Jesus
*Ruach Kadosch
Então foi levado Jesus pelo espírito ao deserto para ser posto à prova pelo adversário - E tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome.
Chegando o tentador, disse-lhe:
- "Se és filho de Deus, dize que estas pedras se tornem em pães".
Mas Jesus respondeu:
- "Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que sai da boca de Deus".
Então o adversário o levou à cidade e o colocou sobre o pináculo do templo, e disse-lhe:
- "Se és filho de Deus, lança-te daqui abaixo, porque está escrito: A seus anjos ordenará a teu respeito, e eles te susterão em suas mãos, para não tropeçares em alguma pedra".
Tornou-lhe Jesus:
- "Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus".
De novo o adversário o levou a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e o apreço deles, e disse-lhe:
- "Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares".
Respondeu-lhe Jesus:
- "Vai para trás, antagonista, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele darás culto".
Então o adversário o deixou; e eis que vieram os anjos e o serviam.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Mateus, 4:1-11).
Cheio de um espírito santo, voltou Jesus do Jordão e foi levado com o espírito ao deserto, durante quarenta dias, sendo experimentado pelo adversário. E nada comeu nesses dias; mas, passados eles, teve fome. Então lhe disse o adversário:
- "Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se torne em pão".
Respondeu-lhe Jesus:
- "Está escrito que não só de pão viverá o homem".
E levando-o a uma altura, mostrou-lhe num relance de tempo todos os reinos habitados. Disse-lhe o adversário:
- "Dar-te-ei o domínio absoluto e o apreço deles, porque eles me foram entregues e os dou a quem eu quiser; se tu, pois, me adorares, tudo será teu".
Respondeu Jesus:
- Está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele darás culto".
Então o levou a Jerusalém e o colocou sobre o pináculo do templo e lhe disse:
- Se és filho de Deus, lança-te daqui abaixo, porque está escrito: "Aos seus anjos ordenará a teu respeito para te guardarem" e "eles te susterão nas mãos para não tropeçares em alguma pedra".
Respondendo, disse-lhe:
- Dito está que não tentarás ao Senhor teu Deus.
Tendo o adversário acabado toda sorte de tentação, apartou-se dele até ocasião oportuna.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Lucas, 4:1-13).
Imediatamente o espírito o impeliu para o deserto, e ali ficou quarenta dias tentado pelo antagonista; e estava com as feras e os anjos o serviam.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Marcos, 1:12-13).
Comentário:
Então Jesus foi levado pelo espírito (qual espírito? O mesmo que desceu em forma de pomba e permaneceu sobre Ele?) ao deserto para ser posto à prova pelo adversário. É muito interessante e esclarecedora esta passagem; Lucas diz que "Jesus voltou do Jordão (após o mergulho) cheio de um espírito santo e foi levado com o (com esse) espírito ao deserto", Jesus, foi, então, conduzido "sob a influência" desse espírito, o que é o mesmo que dizer "incorporado" por esse espírito. Lucas esclarece que o espírito (sujeito indeterminado) era "santo", isto é, "são" no sentido de não ser doente (contaminado pelo mal), portanto, um "bom espírito" ou um espírito "puro" (livre de contaminações).
Existem em "O Novo Testamento" várias referência a espíritos, às vezes aparece de forma indeterminada ("um espírito"; "espírito impuro"; etc.). Vejamos o significado de alguns destes termos:
• Espírito santo = espírito sadio, bom, iluminado; designa sempre um espírito em escala evolutiva superior a nós;
• Demônio = desígna sempre um espírito desencarnado, de homem ou mulher, podendo ser bom (guia), mediano (familiar) ou um espírito perverso (obsessor). A literatura grega é farta de exemplos dos três tipos muito embora os dois primeiros sejam os mais comuns, porém, nos evangelhos, a palavra "demônio" (em grego "daimon=espírito") é sempre associada a espíritos maus, perversos, recalcitrantes no erro;
• Espírito sofredor = designa o espírito desencarnado sofrendo, mas esforçando-se por melhorar;
• Espírito impuro = isto é, atrasado, não evoluído ainda e que se obstina no erro;
• Anjo = é um espírito humano desencarnado, já iluminado (são ou santo) que tem missão especial: é um mensageiro, um encarregado de tarefa especial junto aos homens, por isso é chamado "anjo".
Em seguida, continua Marcos, impelido pelo espírito, foi Jesus para o deserto; este "deserto" não foi localizado até hoje. A tradição cristã o situava no "Monte da Quarentena" (Dzebel Karantal) a 4 kms a nordeste da moderna Jericó, lugar êrmo e cheio de grutas naturais. O "deserto", segundo informam as Escrituras, era o local preferido dos espíritos atrasados (cfr. Mt. 12:43; Lc. 11:24; Is. 13:21 e 34:14; Bar. 4:35 e Tob. 8:3). Jesus se dirigiu ao "deserto" para ser tentado pelo "adversário" (segundo Mateus e Lucas), ou pelo "antagonista" (segundo Marcos); e lá permaneceu 40 dias e 40 noites (cerca de 5 luas: minguante, nova, crescente, cheia e minguante novamente) em jejum absoluto... Mas, por que quarenta? Certamente há um simbolismo neste número, pois o encontramos repetidas vezes no Antigo e no Novo Testamento: o dilúvio dura quarenta dias (Gn. 7:17); Moisés jejua no Sinai, por duas vezes, durante quarenta dias de cada vez (Deut. 9:9 e 9:18); os israelitas ficaram 40 anos a peregrinar pelo deserto (Núm. 14:33); Elias jejua 40 dias (I Reis, 19:8); David e Salomão reinam durante 40 anos cada um (I Reis, 2:11 e 11:42); Jesus permanece durante 40 dias na Terra após a ressurreição; etc.
Falemos um pouco a respeito de "Satanás", o "tentador": esta palavra, em hebraico, aramaico e mesmo em grego, significa, literalmente, "o opositor", "o antagonista", "o adversário", ou seja, aquele ou aquela "pessoa (persona) que se opõe". A palavra "diabo", em grego, exprime "separação em duas ou mais direções" e tem o sentido de "desunir", "separar", donde derivam outros termos como: "intrigar", "acusar", "caluniar", "opor-se".
A palavra "tentador", utilizada por Marcos, em grego é um verbo que só se conjuga no presente e no aoristo (passado indefinido), e tem o sentido de "experimentar", "tentar", "por à prova"; no particípio tem o sentido de "o tentador". Portanto, "tentador" é sinônimo de "Satanás" ("o antagonista") e Diabo ("o adversário); os três epítetos: "antagonista", "adversário" e "tentador" referem-se à "personalidade ou persona", pois é esta que "se opõe" à "união" entre a Individualidade (Espírito) e o Deus-Interno (Divina Presença); é esta (a personalidade) que, pela encarnação, estabelece a separação, a divisão, a desunião entre as criaturas, e que se opõe à espiritualização: a personalidade egóica, exterior, é o "adversário" e "antagonista" da evolução, que tenta (coloca à prova) o homem para que volte (reencarne) sempre à (em+a=na) matéria.
O Espírito (de Deus/Divina Presença/Cristo Em-Nós) é um só em todos ("um só Espírito há" -Ef. 4:4; "há um só Deus e Pai de todos" -Ef. 4:6); o objetivo da evolução é expandir ao máximo a consciência e, portanto, tornar-se consciente de Deus Em-Nós e Em-Tudo, porque Deus é Consciência ("para que sejam Um comigo, assim como sou Um contigo, Pai" -Jo. 17:22). Somente a personalidade (o que se opõe a Deus-Em-Nós) está sujeita à morte ("a morte foi aniquilada pela vitória" -Is. 25:8; "onde está, ó morte, tua vitória?" -Os. 13:14; "onde está ó morte o teu aguilhão? O aguilhão da morte é a queda (o erro, a perda de "sintonia" com o Deus-Íntimo), e a força da queda é a lei (da evolução)" -I Cor. 15:54-55).
As "tentações", pela ordem especificada por Mateus, são de três naturezas:
Discute-se, nos meios teológicos, se o "diabo" carregou Jesus em suas mãos, para levá-lo a Jerusalém, colocando-o sobre o pináculo do templo; e se O transportou carregando-O para o cume da montanha; e pergunta-se qual seria essa montanha "de onde se viam todos os reinos do mundo"... As soluções oferecidas por aguns comentadores do Evangelho são lamentáveis do ponto de vista do bom senso. Acreditamos que a explicação não esteja na "letra" e sim no "espírito", ou seja, no sentido global das "tentações".
Em Mateus, no final do episódio, Jesus utiliza uma expressão autoritária: "retira-te, antagonista"... as mesmas palavras dirigidas a Pedro, quando este se opunha à revelação dos sofrimentos pelos quais Jesus haveria de passar (Mc. 8:33).
Após o "adversário" ser afastado pela resistência do Mestre, os "anjos" apresentaram-se para servi-Lo. Porém, Marcos acrescenta em suas anotações um importante pormenor: Jesus, no deserto, "estava com as feras" e com os anjos, que O serviam. Na Palestina da época, as feras que perambulavam eram chacais, lobos, raposas, gazelas e, menos provavelmente, hiena, panteras e leopardos.
Aprofundemos um tanto mais nossos comentários sobre esta passagem:
Após a Individualidade (representada no texto por Jesus, o espírito puro) haver realizado o Sublime Encontro ou haver efetuado o Mergulho no Fogo ("batismo de fogo"; Mergulho no Cristo Íntimo), é ela levada para consolidar essa "união" no "deserto", onde permanece em oração e meditação, ou seja, retirada. Realmente, só no isolamento podemos conseguir uma fixação de vibrações em faixas tão delicadas de freqüência tão elevada. Qualquer distração faria fugir a sintonia. E o burburinho ocasionaria a distração. Por isso, quando o Momento Sublime se apresenta, o discípulo (personalidade transmutada ou iluminada) é levado pelo Espírito (sua própria Individualidade) ao isolamento, onde viverá em oração e meditação. Isso ocorria muito entre eremitas e cenobitas em tempos idos. Hoje ainda é freqüente no Oriente (Índia e Tibet) embora menos comum no ocidente, onde existe, porém, nos conventos dos Trapas.
O "deserto" exprime um lugar "sem habitantes". O planeta Terra é de fato um local em que não são vistos os "espíritos". Nesse sentido, é um deserto de espiritualidade, muito embora seja densamente habitado por criaturas físicas. Qualquer espírito elevado, que saia de seu "habitat" natural no mundo dos espíritos e venha à Terra, penetra realmente num deserto de espiritualidade e, como diz Marcos, "vive entre as feras" (criaturas indóceis, selvagens, não domesticadas) embora "os anjos o sirvam", ou seja, os "espíritos" bons jamais o deixem abandonado e, num outro aspecto, os anjos (mensageiros) representam também seus sentidos já apurados, que o mantém em sintonia com sua Individualidade e, através desta, com o Cristo-Íntimo.
23
Os primeiros discípulos
*Ruach Kadosch
Ora, o mesmo Jesus, ao começar seu ministério, tinha cerca de trinta anos.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Lucas, 3:23).
No dia seguinte João estava outra vez com dois de seus discípulos e, olhando para Jesus que passava, disse:
- Eis ali o Cordeiro de Deus.
Ouvindo dizer isto, os dois discípulos seguiram a Jesus. Voltando-se Jesus e vendo-os a segui-lo, perguntou-lhes:
- Que buscais?
Disseram-lhe:
- Rabbi (que quer dizer Mestre) onde moras?
Respondeu ele:
- Vinde e vereis.
Foram, pois, e viram onde morava, e ficaram aquele dia com ele; era mais ou menos a hora décima.
André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João falar e que seguiram a Jesus. Ele procurou ao alvorecer seu irmão Simão e lhe disse:
- Encontramos o Messias (que quer dizer Cristo). - E o levou a Jesus. Olhando para ele, disse Jesus:
- Tu és Simão, o filho de Jonas: tu serás chamado Cefas (que significa Pedro).
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo João, 1:35-42).
Comentário:
Observemos que Lucas não afirma categoricamente que Jesus tinha, a essa época, exatos trinta anos de idade; diz ele que Jesus tinha, ao começar seu ministério, "cerca de trinta anos". Isto porque, pela lei judaica, era indispensável que alguém, ao iniciar sua vida pública e ser, portanto, responsável por seus próprios atos, quer civis, quer religiosos, tivesse, pelo menos trinta anos de idade. Lucas, então, com este apontamento, informa que Jesus já possuía a idade legal e era, portanto, responsável por seus próprios atos.
Porém, estes acontecimentos se deram no ano 782 de Roma (ano 29 de nossa era) e como Jesus nasceu nasceu no ano 747 (7 a.C.), tinha, nesta ocasião, exatos trinta e cinco anos de idade. Observemos, também, que João é o evangelista que mais recorre aos números, isto é, preocupa-se em fornecer informações acompanhadas de números (de horas, de dias, de anos, de coisas, etc.) e esta preocupação com os números chega ao clímax com o Apocalipse. No passo que estamos estudando ele informa que o fato que está narrando se deu à hora décima, isto é, às 16 horas; essa informação da hora é comum em João, pois, além do trecho acima, ele a repete em 4:52, 18:28, 19:14 e 20:19. Estamos fazendo estas observações sobre as anotações de João porque o seu evangelho é conhecido como o evangelho esotérico ou místico precisamente por causa da freqüente presença da numerologia em seus escritos e também por causa da sua insistência em definir Deus como Amor Presente em todas as Suas criaturas.
João faz uma interessante seqüência de "no dia seguinte", vejamos:
Para que ninguém se pergunte por que pulamos do 5º dia para o 7º dia se o texto bíblico informa que os acontecimentos após o 5º dia se deram "no terceiro dia", esclarecemos que, na época, eles contavam como sendo o primeiro dia o próprio dia em que estavam e não daí há vinte e quatro horas como é costume hoje em dia... Por exemplo: Jesus morreu às três horas da tarde da "sexta feira" e ressuscitou "no terceiro dia", nas primeiras horas do domingo; pela contagem atual não se passaram nem dois dias, ou seja, nem 48 horas, mas, pela contagem da época, passaram-se "três dias": a sexta feira, a partir de 15 horas (1º dia); o sábado, o dia todo (2º dia); e, embora nas primeiras horas da manhã de domingo Jesus já houvesse ressuscitado, contam como 3º dia. Voltando ao texto de João, verificamos que, a cada 7 dias, ele começa e termina um ciclo onde pretende transmitir um conhecimento "oculto sob o véu da letra", visível apenas aos que têm "olhos" de ver e compreender.
Jesus inaugura o seu ministério público aceitando de pronto dois discípulos que lhe chegam vindos de João, o batista. A tradição acredita que o segundo discípulo, cujo nome é omitido pelo evangelista, seja ele próprio, pois em todo o seu evangelho ele "jamais" faz qualquer referência a si mesmo. Prestemos atenção na pergunta de Jesus quando percebe que está sendo seguido e observado:
- "Que desejais?".
Bom, se a pergunta é compatível com a intenção de quem deseja esclarecer uma situação inusitada, observemos a resposta que os candidatos a discípulos deram a esta pergunta:
- "Mestre, onde moras?".
Os dois homens responderam com uma pergunta que não colabora em nada para elucidar a situação; afinal, saber onde Jesus morava era tudo o que queriam? E a resposta de Jesus é ainda mais enigmática:
- "Vinde e vereis".
Aliás, nenhum dos evangelistas jamais informou onde Jesus morava. Num "passo" é informado que Jesus (para nós a "Individualidade" ou "espírito" em sua essência original) reside com os pais: José (o "intelecto" iluminado) e Maria (a "intuição"). Em outro "passo" subentende-se que mora com a mãe (a intuição) e os irmãos (o espírito é o "primogênito" e as personalidades que assume nas várias reencarnações são comparadas a "irmãos" ou "primos"); depois, ainda, informam que mora com Pedro e sua família (Simão, ou Shim’on, significa "YHWH ouviu" ) e Pedro (pedra, rocha) simboliza os que interpretam as "Escrituras" à letra, levados pela emoção. Isto tudo porque Jesus (o espírito/a Individualidade) não tem residência no plano físico ou material; porém, sempre pode ser encontrado na "casa" de José (personalidade), de Pedro (personalidade), etc.
A palavra "Messias" só é encontrada duas vezes em "O Novo Testamento", as duas vezes é citada por João (neste passo e em 4:25); em ambas as vezes o evangelista se apressa em explicar que "Messias" significa "o Cristo". De fato, Messias significa "o ungido (para uma missão)" e Cristo significa "o ungido (untado ou impregnado de divindade)".
Vamos nos aprofundar um pouco mais na interpretação deste passo narrado por João. Vimos que Lucas informa que "o mesmo Jesus, ao começar seu ministério, tinha cerca de trinta anos" e que João faz questão de anotar que, ao aceitar seus primeiros discípulos, o dia estava em sua "décima" hora. Isto porque trinta = 3 X 10, ou seja, o tempo necessário para o desenvolvimento da personalidade, segundo as antigas tradições judaicas (o número 10 exprime o "início" da atividade exterior e o 3 os apectos ou forma de manifestação de Deus). Então, Jesus (a Individualidade ou espírito em sua essência mais pura) inicia sua atividade pública à "décima" hora quando tinha "cerca de trinta anos"...
Vimos também que "João" significa "o intelecto iluminado" e veremos agora que "André", o primeiro discípulo, significa, literalmente, "homem". Como João, o evangelista, não fornece o nome do segundo discípulo, que acredita-se tratar-se dele próprio, vamos interpretar que a "personalidade" (intelecto iluminado, João, voltado para o aspecto interior de si mesmo) percebe que o discípulo, ou sua personalidade ainda voltada para os aspectos exteriores da vida (André=Homem), chegou a determinado degrau evolutivo e o "entrega" aos cuidados de sua natureza mais íntima, a "Individualidade" (Jesus), para que continue seu aprendizado, e exclama:
- "Convém que Ele cresça e que eu diminua!".
O discípulo (André=Homem, voltado para o aspecto exterior de si mesmo) percebe a insinuação de João (o intelecto voltado para o interior de si mesmo) e seu desprendimento, e volta-se, sem titubear, para a Individualidade (Jesus, que representa a individualidade ou espírito, em sua essência mais íntima) perguntando-Lhe:
- "Onde moras?".
Faz esta pergunta porque sabe que a sede (morada) da "personalidade" (João) é o "intelecto"; e sabe também que o intelecto, para ter todo esse desprendimento sem ciúme e sem vaidade a ponto de apresentar-lhe um "mestre" superior a si mesmo, já está iluminado e suficientemente esclarecido nas grandes verdades; dirige-se, então, à Individualidade (aspecto mais interno de si mesmo, seu espírito essencial ou mônada) e lhe pergunta "onde mora" porque ignora a sede (morada) desse novo nível de consciência.
A resposta, é claro, jamais poderia ser o nome de uma rua e nem o número de uma casa porque a Individualidade não tem sede (morada) no mundo físico, porque ela habita na "Consciência", que é Deus. Daí poder Jesus dizer: "as raposas têm seus covis e os pássaros seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça" (Mt. 8:20). No plano físico, só a personalidade exterior (André=Homem) é situada e tem casa com endereço certo (no intelecto).
Então, nesse caso, vimos que a resposta de Jesus é perfeita: "vinve e vede", isto é, aproximai-vos de mim (Individualidade) e vereis qual meu pouso (a Consciência/Cristo Interno/Divina Presença). E o discípulo (homem exterior=André) foi e "viu" sua elevação espiritual; penetrou no "Jardim Sagrado" (Nazaré da Galiléia) de si mesmo, dentro do próprio coração e ali permaneceu, em meditação, todo aquele dia.
24
Volta à Galiléia
No dia seguinte, resolveu (Jesus) ir à Galiléia e encontrou Filipe, e disse-lhe:
- Segue-me!
Ora, Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro. Filipe encontrou Natanael e declarou-lhe:
- Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei e os profetas falaram, Jesus filho de José, o de Nazaré.
Perguntou-lhe Natanael:
- De Nazaré pode vir coisa boa?
Respondeu-lhe Filipe:
- Vem e vê.
Vendo Jesus Natanael aproximar-se, disse dele:
- Eis um verdadeiro israelita, em quem não há engano!
Perguntou-lhe Natanael:
- Donde me conheces?
Respondeu Jesus:
- Antes de Filipe chamar-te, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira.
Replicou-lhe Natanael:
Rabbi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!
Disse-lhe Jesus:
- Por dizer-te que te vi debaixo da figueira, crês? Verás coisas maiores que estas. - E acrescentou. - Em verdade, em verdade vos digo, que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.
(Evangelho de Jeus-Cristo Segundo João, 1:43-51).
Comentário:
No dia seguinte (5º dia da sequência, conf. exposto do capítulo anterior), Jesus e seus três novos discípulos (João, André e Pedro) tomaram o caminho da Galiléia, ao norte da Palestina. André, cujo nome significa "homem", depois de passar a noite com Jesus, procura, ao alvorecer, seu "irmão" Pedro, que significa "pedra, rocha" e representa aqueles que interpretam a Escritura "literalmente" e se deixam conduzir pela "emoção", portanto, pra nós, Simão Pedro significará "a emoção", "o homem emotivo" ou o "corpo emocional" ("irmão" do "homem").
Pois bem, André ( o "homem") é o primeiro, em todo o Novo Testamento, a chamar Jesus de "Rabbi" que era o título oficial reservado aos Doutores da Lei, mas que também se aplicava por delicadeza ou para demonstrar admiração por alguém mais sábio; Rabbi tinha, portanto, o significado de "mestre"; este mesmo título lhe é outorgado, agora, por Natanael, que acrescenta ainda mais dois títulos: "Filho de Deus" (Divino) e "Rei de Israel" (o Messias tão ansiosamente esperado). Lembremos que Jesus significa, em nosso estudo, a "Individualidade" ou "espírito" em sua essência mais íntima e pura (a mônada), unido ao Deus-Interior ou Divina Presença Em Si; pois bem, Jesus e seus três primeiros discípulos encontraram mais um: Filipe, que significa "o espírito que se liberta da matéria por intervenção Divina (a intuição)" (do hebraico "Phaltiel"=o que recebe a "libertação de El", cfr. 2Sam. 3:15). Filipe, então, "contata" um outro discípulo: Natanael, que significa "dom de Deus". Para prosseguirmos em nossos estudos, vamos repisar que Filipe (o que é liberto da matéria por intervenção divina) significará, para nós, "intuição", que entra em "contato" e "convoca" também o "dom de Deus" (Natanael) para "discípulo" (auxiliar) da Individualidade (Jesus); muito bem, o "dom de Deus" (Natanael) significará, para nós, o "intelecto" (pois é este o dom de Deus que diferencia o homem dos outros animais). Portanto, temos que a "Individualidade" (Jesus), acompanhada de seus discípulos (auxiliares) André (homem) e seu irmão Pedro (corpo emocional), e João (que significa "Deus foi favorável"), "encontram" Filipe (a intuição) que "contata" o intelecto (Natanael). Observemos que a "adesão" da "intuição" (Filipe) é imediata, e esta vai "convencer" o intelecto (Natanael), que, num primeiro momento, duvida, analisa, raciocina e julga (como é próprio de sua natureza), perguntando:
- "De Nazaré (lugar sagrado ou consagrado) da Galiléia (jardim fechado=coração) pode vir coisa boa?".
Segundo informações do próprio evangelista (Jo. 21:2), Filipe era natural da cidade de Caná da Galiléia (hoje Kefr-Kenna), que dista 8 quilômetros da pequena aldeia de Nazaré ("lugar consagrado" no interior do "jardim fechado"=Galiléia) onde residiam os "pais" de Jesus (Individualidade). Parece, pela descrição do evangelista, que Natanael ("intelecto") já conhecia Jesus ("Individualidade"), porque Filipe ("intuição"), ao fazer referência daquelele "de quem Moisés escreveu na Lei e os profetas falaram", cita o nome familiar "Jesus, filho de José", acrescentando, "o de Nazaré"; estas informações deveriam significar alguma coisa para Natanael (intelecto), senão Filipe (intuição) não o faria. E Natanael (intelecto), provavelmente sabendo de quem se tratava, pergunta: "e de Nazaré pode sair algo de importante?". Filipe (intuição), agora reticente nos detalhes, simplesmente convida-o a verificar por si próprio: Natanael (intelecto) aceita e vai. O nome "Natanael", daqui por diante, não mais aparece em o Novo Testamento; por isso os comentaristas o identificaram com "Bartolomeu", que significa "o filho de Tolmai", que passa ser citado sempre ao lado de Filipe (o intelecto sempre ligado à intuição) em todas as listas dos apóstolos (Mt. 10:3; Mc. 3:18; Lc. 6:14).
Façamos uma pequena revisão dos assuntos abordados até este passo: José (o "intelecto" iluminado) desposa Maria (a "intuição") e, juntos, dão nascimento a um "filho" (Jesus=Deus salva, que representa a "Individualidade" essencial, ou mônada, jungida ao Cristo Interno ou Divina Presença: "Eu e o Pai somos Um"). O recém nascido (expressa "fragilidade") corre perigo de vida porque seus inimigos "procuram matá-lo" ainda no berço, por isso foge (se refugia) com seus "pais" (intuição e intelecto) para o Egito (estrangeiro; lugar "distante" de seus "amigos" e "parentes"). Depois de alguns anos retorna para a sua terra (para os seus, para a vida social comum), mas troca a "Judéia" (louvor a Deus através de cultos exteriores; religião da massa) pela "Galiléia" (jardim fechado, religião do íntimo) e passa a habitar em "Nazaré" (lugar sagrado), e ali cresce e se fortalece "em sabedoria, em maturidade e em benevolência (Amor) diante de Deus (Divina Presença) e dos homens (personalidade)" -Lc. 2:40.
Aos "doze" anos, portanto, na metade de seu potencial "real" (pois o "ano solar" ou ciclo completo do sol em torno do eixo da galáxia é de 25.800 anos) seu "conhecimento" já se iguala e até transcende ao conhecimento dos doutores do Templo de Jerusalém (Jerusalém=Cidade da Paz), onde "todos os que o ouviam, muito se admiravam de sua inteligência e de suas respostas" - Lc. 2:47.
Na sua "maioridade" (cerca de trinta anos=idade legal), quando ultrapassou a metade do ano solar que simboliza um ciclo evolutivo para o espírito, passa pelo "mergulho" (no líquido amniótico) de João (personalidade), ou seja, passa por um novo nascimento ou encarnação, mas o espírito de Deus (Centelha/Divina Presença) dirige-lhe os passos; e ele (a Individualidade=Espírito Puro) vai habitar o deserto (de espiritualidade=vida física) onde vive em jejum (do contato íntimo intenso e permanente com sua Divina Presença) por quarenta dias e quarenta noites (longo período, simbolizado por "6 luas"), tentado pelo "antagonista" (personalidade), convivendo com as feras (espíritos ainda endurecidos e recalcitrantes), porém servido pelos "anjos" (Espiritualidade Superior de onde provinha).
Depois de derrotar o "antagonista" (o domínio da personalidade), Jesus (a Individualidade unida à sua contraparte divina), à hora décima, ou seja, assim que conclui a etapa anterior, começa a "atrair" discípulos (suas próprias personas e sentidos, candidatos à realização interior); é dever do "candidato" vencer várias etapas internas. Assim , o homem comum, candidato ao mergulho íntimo (no espírito e no fogo) é comparado a André (o homem), o "outro" (o próprio evangelista que narra o que viu e sentiu, por isso o chamaremos "sensação"), Pedro (emoção), Natanael (intelecto) e Filipe (intuição, intermediária entre a Individualidade/Jesus e o intelecto/Natanael).
Continuemos a analisar este "passo" evangélico: Filipe (a intuição) convida Natanael (o intelecto); este, agindo como autêntico intelecto, primeiramente critica com menosprezo ("pode sair de Nazaré algo que seja bom?"), depois, levado à presença da Individualidade no mais íntimo de seu ser (Jesus), rende-se profundamente impressionado. A frase que o conquistou: "antes que Filipe te chamasse, eu te vi sob a figueira" é, aparentemente, inexpressiva e inadequada para convencer a quem quer que seja, principalmente o intelecto que só se rende a coisas palpáveis, após pesquisas minuciosas; porém, existe profundo significado esotérico por trás dessas palavras: A "figueira" representa a floração interna das qualidades morais e espirituais, isto é, a evolução em si mesma, a transmutação da seiva interior da árvore nas flores da perfeição, não abertas para o exterior, mas inclusas ou fechadas em si mesmas, florescendo para o íntimo.
A figueira, abundantíssima em toda a bacia mediterrânea (e portanto também na Palestina) aparece citada 56 vezes nas Escrituras (37 no Antigo e 19 em O Novo Testamento). Árvore que não produz frutos, mas apenas flores (embora "flores" inclusas) era muito apreciada e tida como símbolo de abundância. Suas flores tinham grande utilidade: como alimento dos mais delicados e saborosos, e como medicamento (usado como cataplasma em antrazes, úlceras e abcessos) com efeito curativo. A árvore floresce na primavera em grande profusão.
De modo geral a figueira é citada ao lado da vinha, da oliveira e da romã, com expressão esotérica. A figueira representa a floração interna das qualidades morais e espirituais, isto é, a evolução em si mesma, a transmutação da seiva interior da árvore nas flores da perfeição, não abertas para o exterior, mas inclusas ou fechadas em si mesmas, florescendo para o íntimo. A vinha simboliza a sabedoria espiritual (como afirmavam: in vino véritas: no vinho, a verdade). A romã representa a fecundidade sexual e sua conseqüência natural: o desenvolvimento mental. A oliveira exprime a paz, quer a externa, quer sobretudo a interna e profunda.
A figueira, uma das árvores mais antigas no conhecimento da humanidade, aparece desde as primeiras páginas da Bíblia. No profundo simbolismo do episódio adâmico, segundo o Gênesis (3:7), Adão e Eva cobriram suas partes sexuais com folhas de figueira (tradição conservada até hoje pelos pintores e escultores sacros). O significado dessa idéia é que a parte material (animal) é superada (coberta) pelo aprimoramento da pujante força espiritual representada pela folha da figueira.
A expressão "sentar-se sob a figueira e sob a vinha", ou seja, preparar-se interiormente pela aquisição da Virtude e da Sabedoria é empregada em 1 Reis, 4:26; em Miquéias, 4:4; em Zacarias, 3:10 e em 1 Macabeus, 14:12, para simbolizar a Virtude e a Sabedoria que haverá na "época missiânica", isto é, no momento em que o homem se encontrará com o Messias ou Cristo Interno.
A frase de Jesus teve, portanto, sentido profundo, quando afirmou que, antes de ser avisado pela intuição, já ele (Divina Presença) percebera o intelecto (Natanael) "sentado sob a figueira", ou seja, buscando ansiosamente o encontro com seu Eu (sua Essência, Individualidade ou Mônada), aspirando ao contato - por meio do florescimento das virtudes - com o Cristo Interno, o Filho de Deus (sua contraparte Divina), o Rei da Humanidade (Israel).
O intelecto que tem boa vontade, e desejo sincero de evoluir, cede sempre diante da realidade, vencido e convertido.
Mas Jesus acrescenta que ele e os companheiros veriam o "céu aberto", ou seja, penetrariam o segredo do "Reino dos Céus" que se abriria para eles, em seus corações (e sobre eles, em suas mentes iluminadas), e, nesse encontro, seus (próprios) espíritos, os "anjos de Deus", subiriam e desceriam em contatos sucessivos (mente iluminada/coração evangelizado), iluminando o Filho do Homem (a personalidade encarnada), o "espírito" liberto totalmente do jugo da matéria.
A expressão hebraica "filho de...", exprime o possuidor da qualidade da palavra que se lhe segue: "filho da paz" é o pacífico; "filho do estrangeiro" é o estrangeiro; nessa interpretação, "filho do homem" é o homem ou a personalidade reencarnada. No entanto, embora em alguns passos possa interpretar-se assim (por exemplo: "Deus não é como um homem que mente, nem como o filho do homem que muda", Núm. 23:19), nem sempre essa expressão se conservou com esse sentido. Na época mais recente do profetismo, o significado foi se elevando, passando a designar algo de especial.
Observamos assim que Daniel (7:13) descreve a visão que teve do "Filho do Homem que vinha sobre as nuvens do céu". Isaías fala: "feliz o Filho do Homem que compreende isto" (56:2). Jeremias afirma que "o Filho do Homem não habitará a Iduméia" (49:18) nem Asor (49:33) nem Babilônia (50:40 e 51:43), significando que não terá participação com os pecadores. Ezequiel só é chamado por YHWH de "Filho do Homem" (em todo o livro de Ezequiel, 92 vezes). O sentido dessa palavra, se foi restringindo até assumir o significado que, na época de Jesus, já se havia firmado: era o Homem que já se havia libertado do ciclo rencarnatório (samsara). Nesse sentido, "Filho do Homem" se opunha a "Filho de Mulher", que representava o homem ainda sujeito às reencarnações, ainda não liberto da necessidade de (re)nascer através da mulher.
O "Filho do Homem" é, portanto, o Espírito que já concluiu sua evolução no reino humano, e que portanto se tornou o "produto do homem", o "fruto perfeito da humanidade". Não mais necessita encarnar, mas pode fazê-lo, se o quiser. Não está preso ao "ciclo fatal" (kyklos anánke): vem quando quer. São os grandes Manifestantes da Divindade, os Mensageiros, os Profetas, os Enviados, os Messias, que descem à carne por amor à humanidade a fim de trazer revelações, de indicarem o caminho da evolução, exemplificando com sua vida de dores e sacrifícios, a estrada da libertação, que eles já percorreram, e que agora apenas perlustram para mostrar, como modelos, o que compete ao homem comum fazer por si mesmo. É o caso de Krishna, Buddha, Moisés, Ezequiel, Jesus, Maomé, Ramakrishna, Bahá'u'lláh e outros.
Em o Novo Testamento encontramos o título "Filho do Homem" aplicado por Jesus a ele mesmo na seguinte proporção: em Mateus, 31 vezes; em Lucas, 25 vezes; em Marcos, 14 vezes; em João, 12 vezes; apenas em João 12:34 o título lhe é dado pelo povo. No entanto, Jesus não o aplica a mais ninguém. E dá-nos ele mesmo a definição do que entendia por essa expressão, quando diz: "ninguém subiu ao céu, senão aquele que desceu do céu, a saber, o Filho do Homem" (Jo. 3:13), ou seja, só aquele que já subiu ao céu (que já se libertou da Terra, das reencarnações) é que, ao descer à Terra reencarnado, pode ser chamado "Filho do Homem", como era o seu caso. Esse (o Filho do Homem) tem conhecimento próprio, adquirido pela experiência pessoal, do que se passa nos planos superiores à humanidade reencarnada, e portanto pode falar com autoridade.
Não sendo mais "Filho de Mulher", mas "Filho do Homem", podia ele dizer que João Batista era o maior entre os "Filhos de Mulher", ou seja, entre aqueles que ainda estão sujeitos à reencarnação pela Lei do Carma. João era, realmente, o maior entre os presos à "roda de Samsara"; mas o menor dos já libertos, era superior a ele; e Jesus era Filho do Homem, já liberto.
Interessante observar que, no resto do Novo Testamento, a expressão "Filho do Homem" aplicada a Jesus (que assim se denominava) só é encontrada na boca de Estêvão (Atos, 7:56) e em dois passos do Apocalipse (1:13 e 14:14). Explica-se o fato porque, fora da Palestina, sobretudo entre os gentios, a expressão podia ser interpretada ao pé da letra, e, portanto, traria sentido ridículo à pregação dos apóstolos sobre a pessoa de Jesus.
25
As bodas de Caná
No terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de Jesus, e foram convidados também Jesus e seus discípulos para o casamento. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus disse-lhe:
- Eles não têm mais vinho.
Respondeu-lhe Jesus:
- Que (importa isto) a mim e a ti, mulher? Ainda não chegou minha hora.
Disse sua mãe aos serviçais:
- Fazei o que ele vos disser.
Ora, estavam ali colocadas seis talhas de pedra, das que os judeus usavam para as purificações, e continha cada uma duas ou três metretas. Disse-lhes Jesus:
- Enchei de água as talhas.
Eles as encheram até a borda. Então lhes disse:
- Tirai agora e levai ao presidente do banquete.
E eles o fizeram. Quando o presidente do banquete provou a água tornada em vinho, não sabendo donde era (mas o sabiam os serviçais, que haviam tirado água), chamou o noivo e disse-lhe:
- Todo homem põe primeiro o bom vinho, e quando os convidados se embriagaram então lhes apresenta o mais recente; mas tu guardaste o bom vinho até agora.
Jesus fez esta primeira demonstração em Caná da Galiléia, e manifestou sua doutrina, e seus discípulos acreditaram nele.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo João, 2:1-11).
Comentário:
Ensinamentos maravilhosos para os que já aprenderam a se libertar do "véu" da letra. Observemos que João continua a fornecer indicações de números: "no terceiro dia", "6 talhas de pedra", "de 2 a 3 metretas". Passemos à interpretação: o que os antigos (gregos e romanos) classificavam como "no terceiro dia" é o mesmo que hoje classificamos como "dois dias depois"; para não nos alongarmos muito, como já explicamos em capítulo anterior, passemos a um exemplo capaz de tirar quaisquer dúvidas: Jesus morreu na sexta feira, e ressuscitou "no terceiro dia", isto é, "dois dias depois", no domingo.
O casamento ocorre em Caná "da Galiléia" (para distinguir de outra Caná, a de Aser), terra natal de Natanael (que simboliza, em nossos estudos, o "intelecto"); não se sabe "quem" se casou e qualquer suposição seria ociosa improbabilidade. Sabe-se que Maria era "convidada" com autoridade até sobre os serviçais e que Jesus só estava ali por causa de sua mãe (e não o contrário). As festas das "bodas" duravam uma semana (7 dias) e os convites eram distribuídos quase que indistintamente: TODOS os amigos e conhecidos da família eram convidados; por isso, muitas vezes, acontecia de "falhar" as "previsões" de comida e bebida, problema que algum parente ou amigo mais chegado logo tratava de solucionar. Maria, que representa para nós, como já vimos em capítulos anteriores, a "intuição" previu que o vinho acabaria e comunicou a Jesus (a "Individualidade") porque sabia que ele era a pessoa indicada para resolver mais rapidamente o problema (já houvera Ele feito isso antes?), impedindo que o fato se tornasse um escândalo. Jesus responde que aquele não era um problema deles (da "Individualidade" e da "intuição") e que o problema acontecera porque ainda não chegara a hora (e por isso não lhes importava) dele (da Individualidade) se manifestar.
Como no caso da resposta de André a Jesus ("Onde moras?"), a resposta de Jesus a Natanael ("Antes que Filipe te chamasse, eu te vi sob a figueira..."), esta resposta de Jesus a Maria, que à primeira vista parece ser uma negativa, também não expressa, no sentido literal, toda a abrangência de seu significado mais profundo; tanto é que Maria não "interpreta" a resposta de Jesus como uma negativa e dá "ordens" aos "serviçais" para que façam tudo o que Ele mandar. E o próprio comportamento de Jesus, tomando providências para resolver a situação, contradiz a interpretação literal...
Aprofundemos nosso estudo: As talhas (tinas ou tonéis feitos de pedra) não eram apropriados para guardar vinho; eram utilizados para as abluções (banhos purificadores) rituais dos israelitas; nelas os judeus lavavam as mãos, os pés, os pratos, etc. Cada talha continha de duas a três metretas; como cada metreta era de 39,294 litros, cada talha podeia guardar de 75 a 120 litros de água (as seis talhas juntas podiam conter de 450 a 720 litros). Observemos que o número seis (conforme já estudado anteriormente) corresponde a "uma etapa anterior" ao número sete, e o sete (o setenário) é o número sagrado que simboliza a totalidade e a completude das manifestações de Deus na Natureza (sete notas músicais simbolizadas no "som" ou "Verbo"; sete cores básicas simbolizadas na "luz" do arco-íris; sete dias da semana, etc.). Portanto o 6, simbolicamente, exprime "insuficiência" ou a falta de uma "etapa" para completar-se um ciclo. Por falar em números, lembremo-nos que João, que gosta de transmitir ensinamentos utilizando-se de números, situou a narrativa das Bodas de Caná (só narrada por ele nos evangelhos) no sétimo dia (um ciclo completo) de uma seqüência que teve o seguinte desenvolvimento:
• 1º dia ou etapa: A resposta de João Batista (que representa a "personalidade" que busca a iluminação e a união com a "Individualidade": -"Convém que Ele cresça e que eu diminua") aos emissários do Sinédrio (o "Conselho" intelectual) exprimindo sua pureza e sintonia interna;
• 2º dia ou etapa: A apresentação de Jesus (a "Individualidade") aos discípulos, pelo Batista (a "personalidade");
• 3º dia ou etapa: Os "discípulos" (sentidos) de João (personalidade) seguem a Jesus (Individualidade): caracteriza o abandono da personalidade para confiar-se plenamente à Individualidade;
• 4º dia ou etapa: A emoção (Simão), que teve o nome mudado para "pedra" (referência às pedras ou "tábuas" da lei e à interpretação "literal" desses ensinamentos), simbolizando a característica básica da Era de Peixes: a "emoção" na interpretação da lei ("pedra");
• 5º dia ou etapa: A "Individualidade" e os "discípulos" (sentidos da personalidade candidata à união íntima com Deus-Interno) se retiram para o "jardim fechado" (Galiléia); na Galiléia, juntam-se a eles mais "dois" discípulos: a "intuição" (Filipe) e o "intelecto" (Natanael);
• 6º dia ou etapa: Meditação do ser (a Individualidade) com todos os seus veículos (discípulos);
• 7º dia ou etapa: As bodas (ou "casamento") do "espírito" (personalidade) com o "Espírito" (Individualidade).
Observemos a importantíssima atuação da "intuição" (Maria) neste acontecimento: um casamento na terra natal de Natanael, que simboliza, para nós, o intelecto.
É de se ressaltar também a "seqüência" ou "crescimento" por que passa o discípulo (candidato) até chegar ao "casamento" (união definitiva: "O que Deus uniu o homem não separe") do "espírito" (personalidade transitória do "eu" encarnado ou ainda sujeito à "roda da reencarnação") com o próprio "Espírito" ou essência monádica (Individualidade) eterna e imortal. A primeira fase é denominada "André" (que significa "Homem" comum); a seguir desenvolve a "sensação" (o "outro"); depois a "emoção" (Pedro); a seguir o "intelecto" (Natanael); culminando com a "intuição" (Filipe).
Interpretemos o que, de fato, ocorreu neste evento: A Individualidade serviu-se de talhas de "pedra" (exprime a interpretação literal das Escrituras: Moisés recebeu os Mandamentos gravados em "pedras", conf. Êx. 24:12; 31:18; etc.); mandou que os serviçais (sentidos da personalidade) as enchessem de água (simboliza a interpretação "alegórica" dessas mesmas Escrituras, o "sentido oculto" extraído da "letra" ou "pedra": Moisés "feriu" a "pedra" e dela saiu "água", conf. Êx. 17:6); e transformou-a em "vinho" (é a Sabedoria Profunda, o "sentido simbólico" ou "místico e espiritual", que inebria os sedentos da Verdade, e que alegra o coração (mente) da criatura (Salmo, 104:15) juntamente com a música, a mais sublime das artes (Ecli. 40:20). Quando a doutrina (interpretação das Escrituras) não é pura, Isaías a denuncia com essas palavras: "o teu vinho está misturado com água" -Is. 1:22. Jesus (a Individualidade), através de Maria (a intuição) delega a tarefa de encher as talhas de pedra (as Escrituras) com água (interpretação alegórica) aos serviçais (à personalidade e seus sentidos "auxiliares"), e somente quando estão bem cheias (até a "borda"), os transforma em "sabedoria" (vinho) e "Verdade" (interpretação "simbólica", "mística", "espiritual") e revela-lhes o que há de oculto na Palavra Sagrada. O "presidente do banquete" é o "intelecto" que prova, analisa, julga e, finalmente, aprova a qualidade do "vinho" ou doutrina que expressa em si a Sabedoria e a Verdade Divinas.
26
Expulsão dos exploradores
Depois disso, desceu ele a Cafarnaum com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e não ficaram ali muitos dias.
Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas, e também os cambistas sentados; e tendo feito um azorrague de cordéis, expulsou a todos do templo, as ovelhas e os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas e virou as mesas.
E disse aos que vendiam as pombas:
- Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai uma casa de negócio.
Então se lembraram seus discípulos de que está escrito:
- "O zêlo de tua casa me devorará".
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo João, 2:12-17).
Jesus entrou no templo, expulsou todos os que ali vendiam e compravam, derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam as pombas, e disse-lhes:
- Está escrito, minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de salteadores.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Mateus, 21:12-13).
E chegaram a Jerusalém. Entrando ele no templo, começou a expulsar os que ali vendiam e compravam, e derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam as pombas, e não permitia que ninguém atravessasse o templo levando qualquer objeto, e ensinava dizendo:
- Não está escrito que minha casa será chamada casa de oração para todas as nações? mas vós a fizestes um covil de salteadores.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Marcos, 11:15-17).
Tendo entrado no templo, começou a expulsar os que ali vendiam, dizendo-lhes:
- Está escrito: minha casa será casa de oração, mas vós a fizestes um covil de salteadores.
(Evangelho de Jesus-Cristo Segundo Lucas, 19:45-46).
Comentário
Vimos no capítulo anterior que o "Encontro" ou "Casamento Místico" do "espírito" (personalidade encarnada ainda sujeita à roda da reencarnação) com o "Espírito" (Individualidade essencial ou monádica) deu-se em Caná da Galiléia (Caná significa "cana", "caniço apontado para o céu"; Galiléia significa, como já vimos, "jardim fechado", "horto florido"); portanto, após o "Encontro" no "caniço que aponta para o céu" (coração) do "jardim fechado" (meditação), desceu Ele (Jesus representa a Individualidade, ou seja, o Espírito em sua essência mais pura ou essencial) com seus parentes (os parentes da Individualidade significam as capacidades superiores do homem, tais como a intuição, a concentração, a meditação, o êxtase, etc, enfim, tudo aquilo que o liga à sua essência mais íntima) e discípulos (os discípulos são os 5 sentidos com os quais o homem se comunica com o mundo exterior acrescidos dos 7 chacras que o ligam ao seu corpo espiritual) para Cafarnaum (que significa "Cidade do Consolador", ou seja, o próprio corpo físico). Caná da Galiléia fica a 200 metros acima do nível do mar e Cafarnaum fica a 200 metros abaixo do Mediterrâneo, na margem leste (onde nasce o Sol/Luz) do Lago de Tiberíades; o evangelista informa que Jesus (a Individualidade) desceu (do estado de êxtase do "Encontro") com sua família (juntando-se à "família", ou seja, aos vários órgãos e potencialidades de seu corpo físico) e seus discípulos (André, João, Pedro, Tiago e Natanael, que simbolizam os "cinco sentidos" do corpo físico). A "descida" à Cidade do Consolador significa a retomada da vida de relações em que o "espírito" (personalidade), em contato íntimo com o "Espírito" (essência monádica) esparge as luzes de seu conhecimento e de sua sabedoria àqueles que ainda sobrevivem nas trevas da ignorância e de sofrimentos atados, ainda, a pesados compromissos com a Lei de Causa e Efeito.
Sobre os irmãos de Jesus, conhecemos quatro: Tiago, José, Simão e Judas (Mt. 13:55, onde se diz que também tinha "irmãs", mas não lhes cita os nomes); ficaram em Cafarnaum (Cidade do Consolador ou o "corpo físico") apenas "alguns dias", preparando-se para "subir" para Jerusalém (a "Cidade da Paz" ou "estado de meditação"), a fim de comemorar a Páscoa ("passagem" do Encontro Íntimo?). Diziam "subir a Jerusalém" porque esta cidade ficava a 780 metros acima do nível do mar Mediterrâneo; temos aqui a "descida" do estado de êxtase para a vida de relações mundanas, mas é salientada a necessidade de "subir", após "alguns dias" (brevemente), para o "estado de paz interior" (Jerusalém/Cidade da Paz) a fim de manter elevadas as nossas vibrações e celebrar a passagem (páscoa) do Eu interno do "espírito" (personalidade encarnada) para o "Espírito" (Individualidade monádica).
Interessante observar aparentes "divergências" históricas entre os evangelistas, pois este episódio (a expulsão dos vendilhões do templo), que João coloca no início da "vida pública" de Jesus, Mateus e Lucas o citam no "domingo" (dia do Senhor) em que Jesus (a Individualidade) entra "triunfalmente" em Jerusalém (a Cidade da Paz/estado íntimo de meditação) já no finalzinho de Sua missão, e Marcos narra o fato como se tivesse acontecido na segunda feira (logo após o domingo chamado de "Ramos", ou seja, a entrada na "Cidade da Paz") seguinte, pela manhã (nas primeiras horas). Analisando-se apenas literalmente, poderíamos perguntar: qual dos evangelistas estará com a razão? Mas a verdade é que estas "aparentes" divergências só existem na forma "exterior" do conteúdo da mensagem do fato narrado, ou seja, na ordem "cronológica e simbólica" dos acontecimentos, pois cada evangelista tem um "programa" e um "objetivo" a cumprir com a sua narrativa e, dentro da necessidade de sua "proposta de ensino" ele coloca o fato no lugar em que atende melhor à sua proposta de oferecer uma narrativa "histórica" e, dentro dele, uma narrativa "simbólica", "mística" ou "espiritual". Na verdade, estes pequenos "detalhes" de divergência cronológica não trazem qualquer prejuízo à compreensão do estudante da Boa-Nova e, se ele tiver a graça ("dom" ou "canal" de ligação com o Deus-Íntimo) de penetrar na "mensagem oculta" por detrás do "véu da letra", que o evangelista pretendeu transmitir aos que tenham "olhos de ver" e "ouvidos de ouvir", tanto nos passos evangélicos individualmente quanto no conjunto de sua obra, verá que tudo se encaixa perfeitamente sem a menor dúvida.
A "mensagem" deste passo evangélico é uma clara advertência a todos aqueles que "negociam" com as coisas sagradas; naquele tempo, os vendedores permaneciam no ádrio do templo (do grego "hieró"), único local em que podiam penetrar os gentios (ou "não judeus"; lembram-se do que significa "judeu", já esclarecido em capítulos anteriores?), e não dentro do templo propriamente dito (do grego "naós"). Alinhavam-se as mesas no pórtico, como de uso nas vias públicas, e vendiam bois, ovelhas, pombos, farinha, bolos, incenso, óleo, sal e vinho ("objetos" de fé para o culto externo). Além disso haviam os cambistas, que trocavam drácmas gregas e denários romanos (dinheiro "gentio") por siclos judeus (trocavam dinheiro do mundo por "dinheiro" sagrado ou "fé e amor a Deus"), única moeda aceita como oferta no Templo (ou "Casa") de Deus. A troca era sempre feita com ágio (do grego "cóllybos") ou "ganho" que lhes permitia um enriquecimento ilícito à custa dos fiéis.
Todos, vendedores e cambistas, contribuíam com percentagens para os sacerdotes (intermediários entre o sagrado e o profano), e Rabbi Simeão Ben Gamaliel chega a revoltar-se contra os preços extorsivos (tal qual Martin Lutero também se revoltaria um milênio e meio depois e nos revoltamos hoje com os abusos dos pseudo-seguidores de Jesus) que eram cobrados pelos vendedores do Templo.
Marcos anota que Jesus protestou também contra a "travessia" do Templo, carregando pacotes. Esse costume foi condenado no Tratado Barakoth do Talmud. Com efeito, para evitar uma volta grande, o povo se acostumou a carregar suas cargas (ambições) atravessando o Templo de leste a oeste (da Luz pra as trevas). Marcos é o único evangelista que traz as citações completas. A de Isaías (56:7) segundo os LXX: "minha casa será chamada casa de oração para todas as nações". E a de Jeremias (7:11), quando esse profeta exorta os israelitas (significa: aqueles que lutam com, ou a favor de, Deus) a melhorarem suas vidas, pois se continuassem a roubar, a matar e a mentir, entrando no Templo com seus crimes, "esta casa (o "templo" íntimo, ou coração, do homem), que é chamada de meu nome, se tornaria a vossos olhos um covil de salteadores".
Outro argumento a favor da disposição cronológica de João, colocando a expulsão dos vendilhões do templo no início da vida pública de Jesus, é que o fato constitui uma confirmação das palavras do Batista ("entre vós está aquele de quem não suspeitais" -Jo. 1:26) e da profecia de Malaquias (3:1): "depois disso, o Anjo do Testamento, que esperais impacientemente, fará sua aparição no Templo". Segundo João, Jesus faz um chicote de cordinhas (é usado o diminutivo) ou cordéis, para enxotar os animais (não poderia fazê-lo com carícias!); mas aos homens dirige a palavra candente, derrubando as mesas donde caíram as moedas dos cambistas. Para uma ação desse tipo não houve necessidade de "milagre": a intervenção repentina e inesperada, com autoridade, desconsertou-os, e eles obedeceram sem reação, inibidos de espanto. Muito mais tarde é que os discípulos se lembraram das palavras do Salmo (69:9), citadas segundo os LXX, no futuro:
- "O zêlo da Tua casa de devorará".
Jesus (a Individualidade) ao subir para o Estado de Paz Transcendente (meditação) observou que no Templo (o coração, o Lugar Sagrado onde habita a Divina Presença), em seu pórtico ou área externa (onde se demoram as emoções ou os que cultuam Deus externamente) instalaram-se vendilhões e cambistas que negociavam (usufruíam vantagens) as coisas sagradas, vendendo animais e outros objetos de culto externo, praticavam agiotagem e outros abusos, explorando a boa-fé dos que pretendiam adentrar o interior do Templo, chegando ao cúmulo de "atravessar" o Templo com objetos (interesses) profanos (não sagrados); era a personalidade que, com seus veículos inferiores (os vendilhões e cambistas), pretendia "controlar" a "Casa do Senhor", auferindo lucros e vantagens, trocando o sagrado pelo profano, o espiritual pelo material.
A reação da "Individualidade monádica ou Espírito em sua essência mais pura" (Jesus) foi enérgica e destemida, expulsou os animais (sensações, emoções, fanatismo e ambição), derrubou a "banca" dos cambistas (que trocam a "moeda" com ágio, isto é, trocam o "espiritual" pelo "material") e expulsou os vendilhões (os que fazem da "religião" simples dogma para alcançar popularidade e adquirir prestígio e honrarias, ou posição política, ou riqueza e isenção de obrigações).
Portanto, após o "Encontro" da personalidade encarnada com sua essência interior (narrada no capítulo anterior), importava fazer uma verdadeira limpeza no Templo (coração; purificando sensações e sentimentos), reciclando as próprias atitudes e confirmando a sua "ligação" inabalável com o "Alto" (de si mesmo ou "Consciência Divina"), o que lhe dá autoridade, força e poder para advertir os veículos inferiores da própria personalidade e recolocá-los em seus devidos lugares, a fim de favorecer seus futuros contatos com a parte mais íntima e sagrada de si mesmo, onde habita Deus.
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*Textos extraídos do livro "Divina Presença", Vol. 1, Cap. De 01 a 26.
Fraternalmente,
Desejando-lhe Muita Paz em Cristo,
Ruach Kadosch